Interação Uke e Nage, um caminho para a harmonização da humanidade

julho, 2019 | Sérgio Ricardo Nascimento
Aproximar-se daquilo que o O-Sensei desejou passar à humanidade é um privilégio. O Aikido traz uma bagagem muito valiosa de ensinamentos que apontam um caminho de harmonia em meio as contrariedades que nos cercam. Morihei Ueshiba depositou nesse BUDO o desejo de tornar o mundo uma grande família onde a prática marcial deixasse de ser um meio para sobrepujar-se ante os semelhantes, e que todos alcançassem a evolução juntos.

Mitsugi Saotome, em seu livro (Aikido e a Harmonia da Natureza 2003), cita que: “O Aikido é a prova viva da transformação dos instintos egoístas de agressão por meio da severa disciplina pessoal e de uma atitude de devoção e reverência, que conduz a vida humana para planos superiores de consciência a fim de que receba a nobre inspiração capaz de subtrair o homem ao amor de si mesmo e confiá-lo ao amor e respeito pela humanidade e pela sociedade”.

Para entender esse viés, é necessário encarar a prática do Aikido de forma diferente de como acontece na maioria das artes márcias que leva o praticante a manter um foco unilateral no papel de NAGE (aquele que projeta), é natural ao iniciante acender uma preocupação com a maneira como se executa as técnicas, buscando observar todos os detalhes na aplicação das chaves ou na realização das projeções, deixando um tanto de lado aspectos importantes quando na posição de atacante.

AITE (em tradução literal, mão harmônica ou a mão mutua e em tradução livre, que empresta sua mão), termo utilizado para caracterizar o precursor do ataque, momento em que o praticante sai da posição de NAGE e passa para condição de atacante, ou como é popularmente chamado no âmbito dos treinos, UKE (o que recebe).

Visualizando um embate entre UKE e NAGE torna-se aparente que o NAGE se sobressai como vitorioso, porém, na realidade ao mesmo tempo que o NAGE executa a técnica e sai em principio vencedor em cada encontro, o UKE ganha também em experiência ao buscar seguir de forma harmônica a técnica, quando de maneira repentina é projetado ou quando é conduzido ao solo e aprisionado por meio de uma chave. O UKE deve progredir e trabalhar junto com o NAGE, ser extremamente reativo em qualquer que seja sua situação durante a prática, mesmo como UKE é preciso estar sempre atento e pronto, sendo ao mesmo tempo parceiro e adversário. O UKE segue o movimento do NAGE e pode reagir e não apenas “receber” a técnica. O Fundador utilizava o terno AITE para marcar a não passividade do UKE, na condição de atacante o praticante deve permanecer ativo e manter uma atitude marcial, como se procurasse sempre uma falha, uma abertura para bater, bloquear, ou inverter a situação, existem, aliás, técnicas de inversão - KAESHI WAZA, entretanto, o UKE só consegue inverter a situação se sua atitude for “perfeita”.

Na condição de atacante todos os princípios marciais também devem ser aplicados a fim de que a ação seja realista, devendo gerir muito bem sua distância, engajar-se suficientemente bem na ação de atacar, ao mesmo tempo manter-se protegido, esse rigor e trabalho dinâmico permite ao NAGE melhorar seu nível técnico e com essa atitude o UKE também progride. Quando o UKE desfere um ataque é indispensável que tenha uma postura firme, para que ao receber a técnica consiga permanecer “organizado”, ativo, no intuito de aproveitar uma possibilidade de inverter a situação, absorver o golpe com deslocamentos, afrouxar sua posição para conseguir se recuperar, cair para poder se levantar mais afastado. Graças ao trabalho como UKE o praticante aprende indiretamente, por meio das sensações, os movimentos do NAGE, o que leva ambos ao progresso técnico e sensorial.

COHN, Ernesto (Aikido: Técnica e Filosofia. 2001), define que o UKE é quem promove o ataque, executa a pegada, o golpe armado ou o golpe de mãos limpas. O Mesmo deve ser sincero na intenção, respeitando tanto os limites quanto o potencial do NAGE. Deve-se harmonizar com a técnica de defesa, acompanhando de modo relaxado e caindo com suavidade, sendo que numa visão abrangente da arte e de sua filosofia, cair não representa apenas o simples movimento mecânico, mas sim a ideia de suportar os contratempos da vida e desenvolver a capacidade de reerguer-se e colocar-se pronto para uma nova queda se necessário, NANAKOROBI YAOKI (Se cair sete vezes, levante oito). Quanto ao NAGE, COHN (Aikido: Técnica e Filosofia. 2001) define como aquele que recebe os ataques. Procura vencer a si mesmo e nunca ao outro, busca se defender do modo mais eficiente sem que alguém seja ferido, sua pretensão deve ser harmonizar com o movimento e não saber se pode ou não derrotar seu semelhante.

Deste modo, os treinos só são possíveis devido a interação sincera e harmoniosa dessas duas partes, sendo que se um não existir, não existe a razão de ser do outro, ou seja, se não houver ataque ou intenção, não existe a necessidade de uma defesa.

Quando se inicia o treinamento de uma técnica, o UKE ao atacar pratica uma das maiores doações que se pode ter para a evolução e o crescimento de alguém, oferece seu próprio corpo para a busca da harmonia. Desta forma o ataque sempre deve ser sincero e objetivo, buscando realmente o propósito da situação definida. É muito importante que o UKE tenha a consciência de que, apesar de conhecer o movimento e saber a mecânica a qual seu corpo será submetido, jamais deve antecipar o movimento a ponto de ferir o caráter realista e aplicabilidade das técnicas.

Quanto ao NAGE, o mesmo possui um papel fundamental na busca da harmonia durante a execução de um movimento, pois possui uma dupla responsabilidade de controlar e apiedar-se. Segundo SAOTOME, Mitsugi (Aikido e a Harmonia da Natureza. 2003), neste momento o praticante deve aprender a perceber a dor do parceiro, ser compassivo e ajustar os movimentos em conformidade com isso, e assim alcançar a compreensão do real significado do treinamento desse BUDO, protegendo a pessoa que o contrapõe.

Partindo dessas primícias é correto afirmar que muito mais do que executar técnicas, os praticantes dessa arte, por meio de árduo treinamento, devem lapidar seus sentidos buscando alcançar um nível de poder de harmonização que possa transformar UKE e NAGE em um fluxo uníssono. Quando o treinamento é focado nessa busca o Aikido acaba influenciando a vida fora dos tatames e instiga o praticante, de forma bem natural, a exercitar esse poder de harmonização nas relações interpessoais como por exemplo, nos conflitos observados nos relacionamentos profissionais e familiares:

“AIKI não é uma arte de combate contra um inimigo sendo tampouco uma técnica de destruição do adversário, mas sim o caminho da harmonização do mundo que faz de toda a humanidade como pertencente a uma mesma família“ – Morihei Ueshiba.

Algo difícil de ser compreendido a princípio, entretanto, o entendimento dessa verdade se dá no dia a dia dos treinos através da relação UKE e NAGE, tudo que até aqui foi elucidado sobre tal relação tem total aplicabilidade nos conflitos do cotidiano. CHIAVENATO, Idalberto (Gestão de Pessoas. 2010) destaca em seus estudos que os indivíduos não têm objetivos e interesses idênticos, assim, são as diferenças que produzem os conflitos, estes são inerentes a vida de cada pessoa e são inevitáveis, fazem parte da natureza humana. Conflitos estão relacionados a natureza humana e, de certa forma, são inevitáveis. Partido deste pressuposto se tem uma das grandes incógnitas que todos os seres humanos se deparam, como lidar com os conflitos? Neste momento é possível fazer uma correlação entre a gestão dos conflitos, que são evidenciados no dia a dia, com o comportamento e relação entre UKE e NAGE. Em determinados momentos deve-se atuar como o NAGE, onde é necessário sentir a intenção e buscar conduzir de forma mais apropriada e adequada a energia que se mostra opositora, buscando como resultado final uma harmonia e sinergia. Para isso se faz necessário uma permanente condição de resiliência e em determinados momentos até mesmo antecipar-se a intenções conflitantes, sempre visando sua integridade, seja ela física, seja ela psicológica ou moral, quando das relações interpessoais.

Em outras situações o ideal é adotar o comportamento de UKE, tendo sempre em mente o primeiro princípio da relação UKE e NAGE, ou seja, se não existe ataque, não existe razão da aplicação de uma técnica, mas, uma vez estabelecido um conflito, como quando UKE, em uma relação interpessoal é necessário moldar-se a situação tendo como conceito básico a preservação da integridade. Isso não significa subjugar-se em determinadas situações, mas sim buscar a harmonia das ideias ou atitudes visando a pacificação e a busca de um caminho único.

O Aikido é uma arte marcial muita complexa e rica, Aikido é BUDO, é um caminho para a vida inteira, tem-se aí uma explicação do porquê de nesta arte não ter competição, nela não existe o conceito de derrotar um oponente, se houvesse, o desejo de competição e de vencer alguém, causaria resultado divergente da proposta de união e harmonia, é somente através da prática e da doação do próprio corpo como ferramenta na busca pela harmonia que a evolução pode ser alcançada dentro e fora do tatame, tendo em mente que no Aikido isso acontece de forma bilateral, o NAGE não evolui sem o UKE e o UKE não evolui sem o NAGE, e só torna-se possível aplicar tais princípios nas relações e nos conflitos, e ser um canal de promoção da harmonia ao passo que o praticante se mantiver atento a este BUDO a todo instante.

“Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você vir o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho” – Miyamoto Musashi.

Agradecimentos

Antes de qualquer outra coisa, agradeço a Deus pelo fôlego de vida a mim concedido, e pela reconciliação e justificação por meio da cruz de Cristo. Agradeço aos meus pais por serem sempre o maior exemplo de honra, dignidade, caráter e fé, agradeço por eles me ensinarem a caminhar com sobriedade e discernimento.

Agradeço a minha amada esposa, Laís Lessa, por todo amor, cuidado, companheirismo, amizade e cumplicidade.

Agradeço a toda família NAIKAN, cada um de vocês soma em meu desenvolvimento de uma forma indizível, é uma grande honra treinar ao lado de todos vocês. Também sou muitíssimo grato aos Senseis Rodrigo Mesquita e Henrique Catelli pelo enorme carinho e dedicação que ambos têm por essa família.
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Conscientizar-se é entender o Caminho

julho, 2018 | Herbert Carmo
Lema é uma frase de motivação, ela mostra uma direção a seguir. Em um dos 14 lemas do Aikidô escritos pelo sensei Massanao Ueno baseado na filosofia do O sensei Morihei Ueshiba diz: “Conscientizar-se que o Aikidô é um dos caminhos que leva a Deus;”. Mas quais são esses caminhos; Como devemos trilha-los; E qual é o seu destino?

A humanidade descobriu diversas formas de se viver sobre a terra, de caminhar sua jornada sobre ela. Alguns parecem coerentes, outros não. Alguns entenderam que se deve ter liberdade para que o indivíduo siga o seu caminho, outros que a vida deve ser seguida segundo regras restritas de comportamento, conduta e ética. No japão onde Ô Sensei Morihei Ueshiba criou o Aikidô, as religiões Xintô e a Omoto foram a base filosófica para se entender o caminho a que o Aiki se propõe, nelas não se há dogmas e suas principais características são a aceitação e a gratidão. E por essa rezão acredito que o Aikidô é recomendada pelo Shihan Wagner Bull como complemento para todas as pessoas, independente de gênero, credo ou cor, devido a suas características fundamentais filosóficas que são aceitar quem se é, e ser grato por isso.

Trilhar o caminho é o grande desafio para cada humano na terra, uma mensagem muito forte que até hoje marca o meu caminho foi quando sensei Rodrigo me emprestou o livro Coração de Diamante, nele A. H. Almaas faz um questionamento que quando o li me senti golpeado por uma lógica até o momento nunca questionada, Ele afirma que crianças esperam que lhe mostrem o caminho a que se pode trilhar, mas homens entendem que ninguém pode fazer isso por você, pois cada um tem seu próprio caminho a trilhar. C. G. Jung chamava esse entendimento de se descobrir quem é e qual sua missão no mundo de individuação. E se percebermos bem, nenhum dos grandes iluminados nos disse como trilhar o caminho, somente apontou qual seria o norte.

Ô Sensei em um de seus aforismas no livro a arte da paz (p.42) ele diz que “...muitos foram os iluminados que passaram pelo mundo em diversas épocas mas todos eles mostravam o mesmo caminho, pois todos os caminhos levam ao topo da montanha...” Por mais que pareçam e sejam caminhos obviamente destintos, onde cada uma argumenta a melhor forma de se trilhar Ô Sensei revela que todos eles tem o mesmo destino e ele deixa esse destino muito claro, “o cume da montanha é o amor”.

Provavelmente essa é a maior beleza de conscientizar-se do caminho segundo a filosofia do Aikidô. Com ele entendemos que existem diversos descobertos pela humanidade ao decorrer da história, e nenhum deles é melhor ou pior que o outro. E que o destino é o mesmo, seguindo nossa razão ou sentimentos, ou a instruções de terceiros. Em uma citação que encontrei de Elbert Hubbard nos é revelada a logica simples de tudo, ele diz: “A vida é uma viagem, uma alucinante aventura, da qual jamais sairemos vivos”. Então depois de ter essa aceitação e gratidão encontramos a harmonia das energias a que Ô Sensei nos deixou como mensagem através do Aikidô, O destino é um só o importante é a jornada, ou o caminho, você escolhe o nome que desejar, só o aceite e seja grato por ele.

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Aikido pós-guerra, unificação e elevação espiritual

julho, 2018 | Nilce Almeida
O Aikido foi criado através do conceito de unir com o ki (energia) do atacante, fazendo com que se a perceba suas intenções através da analise de seu ponto de vista. Tornando-se um só, se moldando aos obstáculos. A arte da paz foi criada visando a resolução pacífica dos conflitos, fazer o que se quer dentro do que o outro permite. Devido a essa característica o Aikido pode ser praticado por todos os tipos de pessoas, jovens, idosos, homens, mulheres e crianças, cada um treina de acordo suas possibilidades e evolui dentro deste aspecto.

Aikido pós-guerra

O Aikido expandiu-se rapidamente pelo mundo depois da Segunda Guerra Mundial. No início da Segunda Guerra Mundial, a prática do Aikido, assim como de todas as artes marciais no Japão, foi proibida. Seu criador, Morihei Ueshiba, migra da capital para uma pequena província no interior do país onde construiu um pequeno santuário e um espaço para a prática do Aikido sem o conhecimento das autoridades. Os treinos eram realizados no período da noite e também nas madrugadas na ausência de luz ou, no máximo, na presença de lua cheia para que não despertasse a curiosidade. Até então, a arte que Ueshiba praticava era de sua própria formação e se chamava Aikibudo, sendo conhecida como uma das mais eficazes técnicas de combate até então.

Após a morte do fundador, em 1969, o Aikido passou a ser administrado no mundo pelo seu filho, Kisshomaru Ueshiba, que foi o grande responsável pela segunda fase do Aikido, juntamente com nomes como Koishe Tohei, Gozo Shioda, Kenji Tomiki entre outros. Foi a era da expansão da arte fora do território japonês. Nessa fase o Aikido passou a ser praticado em países como Inglaterra, Bélgica, Itália, Estados Unidos, Argentina e Brasil, países do sudeste asiático como Tailândia, Singapura e Malásia, além de alguns países do oriente médio, fazendo enorme sucesso e adquirindo novos adeptos.

Essas figuras-chave desapreciaram algumas partes do legado do Aikido de Morihei Ueshiba. Kisshomaru e Tohei, acima de tudo, abandonaram as técnicas marciais do fundador, a teoria do Budo e metodologia de ensino. Todos chegaram a conclusão que a linguagem e explicações arcanas sobre os principais conceitos de Aikido de Morihei eram inadequados para os tempos modernos. No entanto, com exceção de Tohei, todos eram cuidadosos em suas críticas, fazendo-as em termos diplomáticos enquanto mostravam respeito exteriormente. Kisshomaru e Tohei formaram a espinha dorsal da organização Aikikai a qual a grande parte dos praticantes do Aikido em todo o mundo após a guerra deve obediência até hoje.

Tirando o aspecto da desapreciação de algumas partes do Aikido de Ueshiba ficamos com a essência, não se puxa ou empurra o oponente quando somos atacados, tampouco deve-se forçar qualquer movimento que vá contra a intenção ou força do atacante. Isso significa que quando somos empurrados devemos, somente depois desta ação, juntar as forças, criando mussubi, e a partir daí criar, desenvolver a técnica.

Unificação e elevação espiritual

O Aikido ensina a liderar e a trabalhar sob liderança sempre criando harmonia, em qualquer situação nosso potencial é desenvolvido. Trabalha-se a elevação do EU e a lapidação do caráter através das inúmeras formas de técnicas e treinamentos, auxiliando desta forma a construção da personalidade e espiritualidade.

Ao compreender os princípios conseguimos adequar nossa conduta, aprendemos os movimentos interligados e nosso aprendizado prospera cada vez mais. Descobrimos como praticar a humildade, sem inflamar o Ego nem alimentar sentimentos mesquinhos, sem querer ser melhor que os outros, apenas ser o nosso melhor a cada dia. Assim como a parábola da espiga de arroz que quanto mais se enche mais se curva.

A prática constante nos leva a obter incríveis experiências tornando-nos melhores surgindo uma admiração e respeito dos que nos rodeiam. Quando a tarefa é grande a recompensa também será, logo, se houver dedicação, com respeito, sinceridade, doação e muito esforço, consegue-se vivenciar no dia a dia os benefícios do treinamento, tornando-se evoluído e equilibrado isso nos leva a uma elevação espiritual.

“Aikido é a arte da conciliação. O homem que deseja brigar perde a ligação com o Universo. Aquele que tenta dominar as pessoas, termina dominado. Nós estamos aqui estudando a arte de resolver conflitos e não de inicia-los.

O Aikido é o caminho da harmonização do mundo que faz de toda a humanidade uma grande família” Morihei Ueshiba

Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus por me conceder a dadiva da vida, a O-Sensei por compartilhar com o mundo essa arte maravilhosa de resolução de conflitos. Agradeço ao Sensei Rodrigo Mesquita e ao professor Henrique pelos ensinamentos, pela paciência e carinho. A Henrique, meu esposo, agradeço por ter me apresentado o Aikido como forma de elevação espiritual, de defesa pessoal e atividade física. Aos colegas de treino, Enzo, J. Henrique, Barreto, Viana, Ricardo, Josy, Laís, Rízia, Moisés, Ricardinho, Herbet, Fernanda, Bruna, Gustavo, a todos vocês agradeço a doação diária e amizade. A todos que estiveram conosco que sigam seus caminhos da melhor forma deixo também meu muito obrigado.

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Aikido: Autoconhecimento e lapidação do carater

julho, 2018 | Laís Nascimento
Aikido é uma arte marcial criada no Japão pelo mestre Morihei Ueshiba, o termo Aikido é composto por três caracteres KANJI:


Ai: harmonia  合

Ki: energia     気

Dô: caminho 道

"Caminho da Harmonização das Energias".


O conceito fundamental nessa arte marcial tem como principio a harmonia, seja entres os praticantes, seja entre o universo que os rodeia. Ô-Sensei (grande mestre) consciente que não poderia haver harmonia na destruição, começou a desenvolver os conceitos de sua própria arte marcial, onde não havia a ideia de vencer ou destruir o inimigo, mas pura e tão somente a de encerrar um conflito.

Aikido é BUSHIDO (caminho do guerreiro), isso significa que não são apenas técnicas, regras ou etiquetas exigidas dentro do tatame mas são experiências para a vida. O espirito de ZANSHIN é o estado do espirito que permanece, que continua. É frequentemente descrito como um estado continuado de atenção aumentada e decisão. O ZANSHIN é o estado de foco ou concentração que o UKE e o NAGE se mantêm, antes, durante e depois da execução de uma técnica.

O ser humano em sua essência é imediatista, somos levados pela emoção do momento e muitas vezes tomamos decisões precipitadas, o Aikido nos ensina a buscar a harmonia para vivermos melhor na sociedade, usando o ZANSHIN aprendemos a estar atentos a tudo que nos rodeia, perceber as oportunidades e harmonizamos as dificuldades. Estar sensível ao universo ao nosso redor, isso é ZANSHIN, é estar preparado para qualquer acontecimento, encontrar saídas e as soluções para problemas, é estar atento sem criar tensões, deixar fluir, para assim perceber e estar conectado a tudo que nos cerca.

O Aikido, com os seus lemas, atua como uma ferramenta que nos ajuda a perceber nosso estado emocional e mental, com isso ajuda-nos a alcançar o autocontrole e autoconhecimento. Os lemas devem ser utilizados como instrumentos de autoanálise.

LEMAS DO AIKIDO:

1. Manter a disciplina – A discipline é a ferramenta mais importante para tudo que se deseja alcançar, não só em relação aos treinos, mas, para tudo na vida precisamos ser disciplinados.

2. Não se enervar – O nervosismo afeta tudo que fazemos, projetos, relações interpessoais, nossas decisões, o autocontrole evita-nos de cometer erros.

3. Não se entristecer – Uma pessoa triste e negativa só atrai mais tristeza e negatividade, precisamos ser otimistas e sempre buscar ver o lado bom em tudo e em todos.

4. Não possuir sentimento hostil – Um budoca deve ser uma pessoa que busca sempre se livrar de pensamentos e sentimentos ruins, evitar hostilidades e discórdias.

5. Ser compreensivo e tolerante – Quando buscamos ser compreensivos, exercitamos a capacidade de saber ouvir, entender e aceitar as atitudes das pessoas que nos cercam.

6. Ser tranquilo – Manter-se sempre tranquilo diante das adversidades da vida é a melhor opção.

7. Ser pacífico – Devemos buscar e promover a paz no ambiente onde estamos e com as pessoas que nos cercam.

8. Manter a ética – Devemos ser exemplos de honra e honestidade, sermos corretos em todo nosso proceder.

9. Fazer amizade com todos – Ser amigáveis com todos é um dever, cortesia e educação sempre.

10.Respeitar a Deus e as pessoas – Respeito é mais que importante, nunca se sobrepor a ninguém, ciente que sobre nós existe um regente do universo que tem poder sobre tudo e todos.

11.Ser humilde – O sentimento de SHOSHIN nos ajuda a termos sempre humildade e saber que ninguém é perfeito.

12.Ser justo e honesto – O budoca só tem um juiz de sua honra: ele mesmo. As escolhas que você faz e como você trabalha para obtê-las são um reflexo de quem você realmente é. Você não pode se esconder de si mesmo.

13.Concientezar-se de que a pratica do Aikido tem por princípio o autoconhecimento – O treino de Aikido nos leva a conhecer quem somos e saber nossas limitações, nossos medos, nossa forma de agir em situações difíceis, nos faz praticar NAIKAN.

14.Concientizar-se de que o Aikido é um dos caminhos que leva a Deus – A pratica do Aikido nos faz perceber a existência de uma força superior que rege todo o universo.

“A vitória verdadeira é a vitória sobre si mesmo”
Morihei Ueshiba

Agradecimentos

Agradeço primeiramente ao meu amado mestre JESUS pela reconciliação e justificação por meio da cruz de Cristo e pelo dom da vida. Agradeço aos meus amados pais por serem meus maiores exemplos de amor, honestidade e fé, obrigado por sempre me apontar para JESUS, a razão do meu viver. Agradeço a minha amada irmã por esta comigo em todos os momentos e ao meu amado esposo Ricardo Nascimento por todo amor e cuidado para comigo e por ter me apresentado a família Naikan e por sempre me animar a perseverar.

Agradeço a todos que passaram e permaneceram na família Naikan, por terem me acolhido, por nos dias difíceis terem me incentivado a permanecer, por não desistirem de mim, sem vocês chegar ate aqui seria impossível, amo vocês.

Agradeço aos meus amados Senseis Rodrigo mesquita e Henrique Catelli por toda dedicação, toda paciência, vocês são exemplos para mim dentro e fora dos tatames, muito obrigado por me apresentarem a essência do Aikido.

A todos o meu mais sincero Domo Arigato Gozaimashita!

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Kokyu Ryoku

julho, 2018 | Rizia Santos
Atualmente muitas escolas de artes marciais direcionam seu marketing para pessoas que buscam o treinamento físico como forma de fortalecer a musculatura, aprender autodefesa, participar de competições ou até mesmo aliviar os sintomas de stress. Tendo o uso da força física como requisito primordial para a prática, o público alvo dessas escolas acaba sendo as pessoas mais jovens e fortes. Em contrapartida, o Aikidô é uma escola de arte marcial que se diferencia da grande maioria, pois sua ênfase não está no uso da força física, mas sim no uso da energia do Ki, permitindo que qualquer pessoa possa praticar.

De acordo com SHIODA (2010, p. 83), “uma das principais características que diferenciam o Aikidô das outras artes marciais é sua maneira eficiente de utilizar a energia.” Ele ainda acrescenta que é necessário o uso de muita força, porém não é somente a força física, uma vez que esta será afetada pela idade. A matéria se deteriora enquanto a energia do Ki permanece.

Rinjiro e Stevens em seu livro “O coração do Aikidô” explicam que o Ki é uma energia primária que surgiu do vazio e a partir de sua polaridade todas as coisas foram criadas, deste modo tudo no universo possui a energia do Ki. Todos nós possuímos essa energia de forma latente e como um diamante bruto, precisa ser lapidada para o vislumbre de sua beleza.

Para desenvolver essa energia é preciso exercitá-la. Mas como? Através do conhecimento e prática da respiração, ou melhor, do Kokyu Ryoku.

Ao estudarmos sobre Kokyu iremos entender que no Aikidô o ato de respirar não é algo meramente físico, mas segundo GLEASON (2013, p. 89) seu treino pode nos levar ao despertar espiritual. O autor ainda afirma, que “a prática do Kokyu nos mostra que o kitai é mais difícil de destruir que o corpo físico”, pois o Ki através do Kokyu transforma-se em um esqueleto espiritual mais forte que os músculos e ossos. É possível perceber esse tipo de poder ao vermos vídeos de aulas do O’Sensei onde alunos são lançados para longe mesmo sendo jovens e robustos, que aos olhos de leigos parece resultado de alguma força sobrenatural ou mágica. Entretanto, tudo é feito através do poder da respiração e da energia do Ki.

A primeira coisa que qualquer ser vivo faz ao nascer é inalar o ar para dentro de si, quando isto acontece ele se unifica como ambiente. Para UESHIBA (2010), “o ar é a chave para a unificação.” Todas as coisas possuem respiração e a sinergia entre elas é que forma a conexão com a energia universal. Da mesma forma, no treino é necessário que nage unifique sua respiração e seu Ki com o de seu parceiro para que consiga a unidade do movimento, para que haja conexão, o Ki-musubi.

Além disso, é preciso preparar a mente através do misogi, pois de acordo com o UESHIBA (2010) o “coração puro equilibra a energia, a inteligência, a virtude, o conhecimento e a atividade física”. Com a mente limpa nos tornamos mais conscientes de nossa respiração podendo direcioná-la e esta dirigirá o Ki, assim com a prática será possível dirigir o Ki com a intenção.

Outro ponto relevante é que uma vez que o Kokyu dita o movimento do corpo o timing do movimento será marcado pelo ritmo da respiração. Portanto, adquirir a consciência do ato de respirar é imprescindível para controlar do ritmo e o timing do movimento.

Para SHIODA (2010), o Kokyu Ryoku somente acontecerá quando se atingir o Shingitai, a unificação da mente, corpo, coração e técnica. Para tanto, é preciso muitos anos de treino, praticar a purificação da mente e buscar incansavelmente o conhecimento de si mesmo e do universo. Somente assim, compreenderemos o verdadeiro significado do Aikidô. BULL (2012) nos ensina que “Aikidô sem Kokyu Ryoku é meramente uma série de formas, com uma dança sem eficácia marcial.”

Diante do exposto, percebe-se que o Kokyu Ryoku e o Ki são pedras fundamentais do Aikidô e que nós seres humanos somos seres de luz e energia. Ao compreender verdadeiramente esses princípios poderemos mudar nossa maneira de nos relacionarmos com nosso parceiro e com o universo. Fazemos parte de um todo e um todo faz parte de nós.

Perceber o Kokyu como transporte de passagem do Ki nos ajudará em nossa evolução como aikidoka. E com essa visão em mente, em nosso treino diário poderemos perceber por nós mesmo que a aplicação desses princípios são muito mais eficientes que qualquer força física e que é possível relaxar quando o oponente usa a força, mas sem desfalecer aproveitando a energia do parceiro para controlá-lo até que ela se dissipe.

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Perseverança no caminho do Aikido através da história de Morihei Ueshiba

junho, 2018 | joão Vianna
Perseverança ou “Nintai Shinnen” como dito em Japonês, é uma qualidade daquele que persiste, que tem constância nas suas ações e não desiste diante das dificuldades.

Perseverar é conquistar seus objetivos devido ao fato de manter-se firme e fiel a seus ideais e propósitos.

Como é descrito no último lema do Aikido, “Conscientizar-se que a prática do Aikido tem por princípio o autoconhecimento” vejo total ligação com a perseverança nessa caminhada pelo autoconhecimento.

Como Saotome Sensei descreve, Ô Sensei em todo momento persistia em mostrar o verdadeiro Aikido, que mesmo no cotidiano do dia a dia era usado em ações, reações mesmo fora do tatame. 

Vendo sua caminhada desde sua infância, observa-se que Ô Sensei buscava o autoconhecimento já a partir dos seus 10 anos, com grande interesse pelo Budô e sempre que possível frequentava as academias em busca de instrução.

Tendo como primeiro mestre na escola kito de Jiu-Jitsu, Tokusaburo Tozawa. Tinha como especialidade as técnicas de projeção e exercícios formais (Koshi-no-Kata), transmitidos de geração a geração e presente em quase todas as lutas no Japão. 

Após seus 20 anos, passou ainda pelo instituto Yagyu, onde teve o aprendizado secreto de técnicas de elite, onde assimilou as técnicas de Katana, Tachi e Tanto,  que posteriormente se tornam muito importantes no Aikido de hoje, absorvendo o momento exato para se mover enquanto o adversário inicia o ataque.

Perseverante no aprendizado das técnicas existentes, Ô Sensei não descansava em conhecer, estudar movimentos mais antigos e elevados com praticantes e mestres de Jiu-Jitsu.

Em 1911, Ô Sensei conheceu Sokaku Takeda, da escola Daito de Jujutsu e começou a estudar com ele, que com o passar do tempo teve a influência técnica para a criação do Aikido.

Mostrando mais uma vez sua perseverança e objetivo para com o Aikido, Ô Sensei passou por diversas dificuldades enquanto treinava  com Sokaku Takeda, que cobrava muito caro por cada técnica que ensinava, a ponto de ganhar casa e propriedades por conta de seus ensinamentos à Ueshiba, mesmo depois de terminado seus ensinamentos, Sokaku cobrava por alunos promovidos pelo Ô Sensei, chegando mais a frente a uma grande ruptura entre ambos, conforme história passada por seu sobrinho à revista Aiki News.

Ainda procurando seu auto conhecimento Ueshiba se juntou ao reverendo Onisaburo Degushi, co-fundador da religião Oomoto ou religião da Grande Origem. Religião que o fundador seguiu sua vida inteira e o motivou aos valores filosóficos e espirituais-religiosos existentes no moderno Aikido.

Durante sua caminhada com Onisaburo, passou por muitas dificuldades ao ponto de ser resgatado pelo embaixador do Japão. Mas mesmo assim Ô Sensei usou todas as experiências desastrosas, para perceber em combate, colocando suas habilidades fantásticas, percepções e sangue frio.

Dando continuidade a sua meta, se mudou para Tóquio, e fundou um pequeno ginásio, onde iminentes pessoas praticavam o caminho do Aikido. O caminho seguia tão firme, que generais e políticos importantes frequentavam o dojo. O Aikido se tornava cada vez mais conhecido que quando Jigoro Kano (fundador do Judô) conheceu o Aikido, admirado enviou alguns de seus alunos para treinar com Ueshiba.

Após a guerra e perda de numerosos praticantes, para dar continuidade foi criada a fundação Aikikai, visando o crescimento e solides do Aikido, mesmo com a proibição dos americanos ao Budô e das artes marciais. Mesmo com a chegada dos americanos acaba que o Budô começa a ser difundido no exterior para o ocidente, com interesse maior pelos europeus e pelos norte americanos.

Após anos persistindo em divulgar e ensinar o caminho do Aikido, já com a idade avançada em seus 85 anos, Ô Sensei viu a doença e o tempo cobrar seu tributo. 

Caminhava com muita dificuldade pelos corredores, precisava de ajuda para subir e descer escadas, mas mesmo assim perseverante continuou a ensinar o Aikido. No momento que pisava no tatame, era energizado pelo universo, ao ponto de seus olhos brilharem a espera do ataque dos seus uchi deshi, todos jovens, fortes, ria com todos os ataques e tentativas de agarrá-lo sem êxito. Conseguindo se deslocar tão rápido ao ponto do Uke não perceber. 

Em seus últimos dias de vida Ô Sensei, em seu quarto cercado por seus alunos, mais uma vez mostrando a persistência no caminho do Aikido fala aos seus estudantes “não se preocupem com esse velho, toda vida física tem seu limite, mas o espírito nunca morre” entrarei no mundo espiritual, mas quero continuar protegendo este mundo onde ainda estou, esta é a tarefa de vocês.

Mediante a todo caminho persistentemente corrido por Ô Sensei, concluo que temos que ter foco em nossos objetivos, que problemas todos nós temos, cada um com sua intensidade. Mas quando entramos no Dojo temos que apagar tudo que aconteceu durante o dia e tentar entrar num plano espiritual para que possamos chegar ao nosso autoconhecimento doando-se de corpo e alma. 

Agradecimentos

Ao Ô Sensei, por sua perseverança em nos deixar seu legado físico e espiritual com o caminho do Aikido.

Ao Shihan Wagner Bull por difundir esse caminho com maestria por todo nosso país.

Ao Shidoin Alexandre Bull juntamente com todos os delegados do Brasil Aikikai por dar continuidade nos passos do Shihan Wagner Bull com seus ensinamentos, dividindo com todos nós o caminho do Aikido.

Aos Shidoin Tamotsu Kubo, Osmar Batista, Constantino Delis, Roberto Matsuda, Edgar Bull e demais delegados do Brasil Aikikai por todo tempo  e conhecimento dado para nosso crescimento. Aproveito para em especial agradecer ao Shidoin Tamotsu e Osmar por plantar essa semente a mais de 21 anos e hoje estar começando a colher os frutos.

Ao Sensei Rodrigo Mesquita e Henrique Catelli por cultivarem esse semente com todo amor que tem pelo Aikido e fazerem dela brotar os frutos. Não posso deixar de agradecer toda paciência, compromisso, dedicação à todos do Naikan Dojo. Tenho certeza que todos os aprendizados serão de suma importância por toda nossa vida.

Aos meu colegas ou melhor a minha família Naikan, por se oferecerem e doarem o bem mais preciso de cada um “nosso corpo” , Moises meus charas João Henrique e João Paulo, Ricardo, Herbet, Josy, Rizia, Lais, Nilce, Enzo a lenda e Ricardinho e demais amigos que no caminho acabaram parando mas tem meu carinho.

Deixando para fechar os agradecimentos não tenho como não agradecer a minha linda esposa Renata Reis, pelo apoio e incentivo vendo a grande importância que o Aikido tem para mim, mesmo às vezes reclamando das aulas às sextas... mas sempre me apoiando. À minhas filhas lindas por entender e não me cobrar por estar muitas vezes longe delas nos horários das aulas.

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Aikido como forma de lapidação do Ki para uma melhor fluidez dessa energia

junho, 2018 | joão Henrique pereira
O que é Ki? Na cultura ocidental, é possível recorrer a memórias, na qual remete essa ideia a um sinônimo de energia. É uma palavra que tem sua origem na China e em suas escolas de pensamento. Apesar da passagem do tempo, e das mudanças entre o significado da palavra, esta pode estar relacionada à Força Vital, Plenitude do ser ( Huai-nan-Tsu), ou até mesmo como A força que penetra em todas as coisas.

Pelo fato da sua não existência física o Ki vem sendo representado de diferentes formas, como: Kuki (ar), Taiki (atmosfera) e Joki (vapor).

O Ki, é tudo aquilo que existe, possui a qualidade e a capacidade da criação da matéria, fugindo da esfera da não existência. É uma qualidade invisível que está muito próxima da nossa experimentação sensorial. O Ki, em seu local de abrigo, o ponto um do abdômen, chamado de Saika no Item, guarda não somente essa energia, mas também a morada da alma.

Essa energia não é de fácil visualização, mas é de fácil percepção, pois apesar da sua inexistência física, dá para sentir essa energia fluindo principalmente através das extremidades do corpo físico, sendo até uma das observações feitas durante a execução de uma técnica, manter as mãos abertas para garantir fluidez dessa energia vital que tanto rodeia a existência humana.

Porém, essa energia não está presente apenas na realização de uma técnica mas também em momentos de motivação, inspiração, no foco em busca de novos objetivos, na capacidade de iniciativa dentre outros que são influenciados pela fluidez dessa força que ajuda a reger os seres vivos.

“Assim, o Ki é o principio vital, é a força dinâmica ou motora de todos os seres vivos, inclusive do homem.” (Sensei Wagner Bull)

O equilíbrio do corpo, está relacionado na forma com que o Ki tem espaço para fluir de forma ininterrupta dentro do corpo, tendo um fluxo adequado, logo sem estagnações, porém depende de certa forma de como a respiração e os exercícios podem estar relacionados para ajudar na liberação desses bloqueios internos.

“Quando existe má distribuição, a ruptura da harmonia provoca a doença.” (Sensei Wagner Bull)

O Ki pode ser considerado como o calor, a tração, a sensibilidade que é sentida e transmitida ao próximo, mesmo de forma apenas sensitiva é passado para frente um pouco desse sentimento que está em eterna fluidez, criando dessa forma uma diversa rede de trocas de energias entre diferentes pessoas e dessa forma diferentes energias. É nesse momento onde surge a imagem do Aikido nesse contexto, sendo esta, o Caminho da unificação das energias, esta arte marcial se torna claramente um ótimo viés para ajudar nas questões relacionadas ao Ki.

A técnica do Aikido, é basicamente um fluxo de energia constante, onde o Nage transmite o Ki para o Uke, sendo recepcionado com a energia que sai do atacante, fazendo com que ocorra um fluxo e um refluxo, de todo esse vapor fluido de vida que é transmitido quando há o contato entre duas energias opostas e que no final se transforma em apenas uma.

Sendo a técnica a principal ferramenta do aikido para a união de duas energias, onde pode se perceber a real presença do Ki, tanto no inicio quanto no final de cada técnica, é nesse meio tempo entre o 0 e o tudo, que pode ocorrer a moldagem da técnica, seja ele pelo meio de torções ou quedas.

O Shihan Wagner Bull fala: “Muitas técnicas de torções, quando feitas com conhecimento, servem como meios de massagem para os músculos e articulações, e 'desentopem' os canais onde a energia está estagnada, nos trazendo saúde e bem-estar.”

Sendo assim, os movimentos realizados dentro do Aikido podem ser meios de desbloqueios para diversos entraves que estão presentes e associados aos seres humanos, sendo o principal a não fluidez de sua energia vital, onde um aikidoca tem uma maior facilidade na forma com que o Ki possa estar sendo transmitindo entre todas os tecidos do corpo, permitindo desse jeito um melhor aproveitamento da sua condição física e psicológica.

“Os três lados do triângulo representam a trindade, presentes no símbolo do xintoísmo, nos mistérios do catolicismo e nas tradições religiosas. O triângulo representa a energia vital, o fluxo de Ki.”  (Sensei Wagner Bull)

“A única maneira que encontro para poder explicá-lo, é desenhar um triângulo, um circulo e um quadrado.” (Morihei Ueshiba)

Tomando como partida essas duas citações do fundador Morihei Ueshiba e do Shihan Wagner Bull, fica claro o quão parecido se torna o Aikido do Ki, transformando entre eles uma barreira muito pequena na essência dessas duas forças, mostrando uma harmonia quase que natural.

O treino de uma arte marcial como o Aikido não tem somente o objetivo final de uma melhora física ou mental, mas sim o conjunto de diversas ações que no fim resultarão  para uma fluidez total do Ki, podendo fazer com que haja harmonia entre corpo, mente e alma. Sendo esta harmonia, ajudada pelo fato de não haver pontos de estagnação dentro desse ser, podendo a energia sair do Hara e alcançar todos os pontos do corpo. Podendo desta forma demonstrar como o Aikido é uma grande ferramenta de mudança, para os diversos percalços enfrentados pelo espirito, ou seja, enfrentados pela alma.

Tomando por base os diversos significados para a palavra, a imagem de Ki na perspectiva do Aikido pode se situar como: “Fonte materna das mudanças que são ocasionadas na pulsação.” (UESHIBA, 2010). Pulsação esta que demonstra a expansão do Ki, atingindo diversos pontos do universo.

Nesse sentido, Kisshomaru Ueshiba nos diz que:
"As mudanças delicadas na pulsação causam movimentos sutis do ki no vazio. Às vezes os movimentos são impetuosos e potentes, outras vezes são lentos e impassíveis. Por essas mudanças pode-se avaliar o grau de concentração ou unificação da mente e corpo. Quando a concentração impregna a mente e o corpo, o poder da pulsação individual torna-se um com o universo, expandido-se suave e naturalmente até o limite último, mas ao mesmo tempo a pessoa se torna cada vez mais autocontida e autônoma. Desse modo, quando a pulsação torna-se individual trabalha junto com o universo, a essência espiritual invisível torna-se uma realidade no interior da pessoa, envolvendo, protegendo e defendendo o eu. Essa é uma introdução à essência profunda do Ai-Ki."

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Aikido como forma de alinhamento das emoções para atingir a plenitude do ser

junho, 2018 | joão paulo barreto
Vivemos num mundo de excessos. Diariamente temos uma explosão de informações pelos mais diversos meios, o que faz com que nosso pensamento não pare momento algum, estamos sempre aflitos e com preocupações exacerbadas. Seja no nosso trabalho, ambiente familiar ou qualquer outro acontecimento em nossas vidas. 

Como sociedade estamos cada vez mais ansiosos e vivendo um imediatismo descomedido, pois com o avanço das redes sociais e internet tudo está na palma de nossas mãos, dessa forma queremos mudanças extremamente rápidas em nossas vidas, mas toda e qualquer mudança exige de nós tempo, paciência e resiliência para atingir a transformação real. Como disse Lao-Tsé: “ Uma longa caminhada começa com o primeiro passo.”

Essa insatisfação com tudo que temos, com o que poderíamos ser, com a vida que estamos levando, nos joga num círculo vicioso: Criamos expectativas demais, ficamos ansiosos, lembramos do que poderia  ter acontecido, sentimos angústia e ficamos com medo do futuro. Grande parte da população cai nesse círculo e não se desprende, pois estamos muito preocupados com o exterior, com o racional, com a matéria. Perdemos nosso centro, nos desalinhamos com a verdadeira essência do nosso ser. 

Segundo os orientais, a problemática do nervosismo e das tensões está   envolvida com a relação entre o sujeito e o objeto. Quando com nossa mente ocidental examinamos ou fazemos alguma coisa, imaginamos sempre nós e o objeto, não existe uma unidade entre as duas coisas. Qualquer atividade para a qual o homem careça de experiência torna-o cônscio de uma tensão entre o sujeito que deseja algo sem ainda o ter realizado, e o objeto, que a ele se nega. Essa tensão, impede a execução harmoniosa. Um homem atinge a perfeição técnica através de longa prática, a fim de fazer no momento algo que não lhe custe esforço consciente, qualquer que seja o fenômeno, ele sente agora que sobrepujou a tensão original sujeito-objeto. Na base de tensão ou discrepância original, ele experimenta um sentimento de libertação, ou satisfação profunda, ante a harmonia do sujeito e do objeto. (BULL, 2011, p.202) 

Percebe-se que na cultura oriental não há distinção entre indivíduo e objeto, quando há essa harmonia estamos no mundo, mas não perdemos nossa essência. No livro coração de diamante do autor A.H. Almaas há uma expressão muito interessante em que ele diz: “ devemos estar no mundo sem ser do mundo.” - isso significa que devemos continuar a fazer o que fazemos, cumprir nossas funções sociais, no entanto, temos que entender que esse não é o objetivo principal e sim tentar compreender o nosso eu verdadeiro e tentar reavivá-lo. 

(...) Ao descobrirmos nossa essência pessoal, o que fazemos no mundo perde a importância. Escolheremos o que irá aprimorar e realçar nosso verdadeiro eu. Não pode haver realização duradoura sem que tenhamos compreendido a nossa essência. Nada pode substituí-la. (ALMAAS, 1992, p.15) 

Diante dos fatos demonstrados como poderemos encontrar nossa verdadeira essência? Como podemos aceitar melhor as situações que nos causam stress, angústia, raiva e ansiedade? Dentro destes conflitos Morihei Ueshiba deixou uma inigualável solução: O Aikido. Onde através da prática de exercícios físicos, mentais e espirituais possamos evoluir em direção da nossa essência.

Por meio desse caminho podemos nos realizar em vários campos de nossas vidas. Seja nos meios físico, moral, espiritual e psicológico, podemos elevar os níveis de nosso propósito. Há algumas práticas no Aikido que aponto como essenciais para externar para nossas vidas, fazer diariamente para que possamos obter os benefícios dessas práticas que devem extrapolar o dojo. 

Misogi  

Morihei Ueshiba dizia: 

Aikido é o exercicio de estarmos sendo ensinados pelos Kamisama (deuses), sobre as vibrações da criação universal (tamashii). Eu não criei o Aikido pois ele é o caminho dos Kami e nasceu por desejo deles. O Aikido começou com o Deus criador do Universo Ame No Minaka Nushi No Kami. Levante-se cedo pela manhã, inspire, profundamente e exapanda-se até os confins limítrofes do Universo, depois expire e absorva todo o universo dentro de você. Em seguida respire toda a fecundidade e vibração da Terra como se fosse a sua própria e torne-se a vida vibrante. Sua mente e seu corpo se sentirão bem, as depressões e os sentimentos desagradáveis se dissiparão e você se sentirá cheio de gratidão (kansha).

Misogi é uma das práticas de extrema relevância para controlarmos nossas emoções. Misogi significa purificação, nos purificamos para alcançar a conexão ( mussubi) com o divino. O ritual de purificação é feito em todas as aulas com finalidade de que sejamos unos com as leis universais (Daishizen). E seguindo esses princípios poderemos viver uma vida de forma sincera (Makoto), ser sincero consigo mesmo, não ir contra os princípios naturais nos faz ter uma vida de felicidade e harmonia. Retornando ao nosso centro, a nossa essência.  

O misogi é feito para ser a purificação de vários aspectos de nosso ser. Purificação do corpo, dos sentimentos, da mente, do ambiente externo a nós e também a purificação do espírito. Vamos tratar do aspecto que é o termômetro do nosso estado: os sentimentos. Segundo o Shihan Wagner Bull na purificação dos sentimentos devemos nos livrar de preconceitos e neuroses, tornando-nos assim um ser humano mais otimista para que percebamos o movimento da natureza, entrando em harmonia e assim manifestar o sentimento de gratidão (Kansha). Ainda segundo o Sensei Wagner Bull o objetivo é conseguir os seguintes atributos: Akaki Kokoro ( Sentimentos puros e alegres, limpos, claros e brilhantes como sol); Kiyoki Kokoro ( Sentimentos claros, definidos, e sem dubiedade); Makoto Kokoro (Sentimentos de sinceridade constante); Naoki Kokoro (Sentimentos puros sem a intenção de enganar); Tadashiki Kokoro (Sentimentos sempre de justiça). 

Se praticarmos o misogi para além do treinamento do Aikido, poderemos colher esses atributos para que tenhamos uma vida harmoniosa e regida pelas leis universais. Não adianta colocarmos a água mais pura e límpida numa xícara suja, em poucos instantes toda água estará contaminada. Por isso a importância da purificação para que possamos receber a água da fonte e mantê-la com sua composição para que possamos fazer a real conexão com os Kami.  

Os três elementos

“Em todo estudo esotérico a lei dos três está sempre presente, da mesma forma, no xintoísmo e no Aikido, tudo pode ser entendido como componentes com três partes e entendido sobre três aspectos.” (BULL,2011, p.190)

Dentro do Aikido temos três formas de agir: Sankaku (Triângulo), Shikaku (Quadrado) e Maru (Círculo). Segundo o Shihan Wagner Bull, o triângulo representa uma atitude mais aguerrida, objetiva, em “Irimi”. O quadrado representa a estabilidade, estar centrado, o princípio “Osae” do Aikido. Já o círculo tem como papel a fluidez, condução, princípio do tenkan do Aikido.

Cada uma dessas formas podem ser trazida perante nossa realidade diária, sendo cada uma delas uma forma de agir, tornando-se uma resposta diferente para cada situação. Muitas vezes, agimos de determinada forma e atribuímos à nossa personalidade, sem preocupação com a harmonia que geramos para o ambiente e para nós mesmos.

“Não há nada de errado em termos uma personalidade. Ao contrário, ela é necessária e, sem ela, não poderíamos sobreviver. Entretanto, se tomarmos nossa personalidade por nosso verdadeiro Eu, distorcemos a realidade, pois não somos a nossa personalidade.” (ALMAAS, 1992, p.12)

Nossa personalidade, é um constructo que veio através de estímulos externos, portanto, não correspondem com a natureza de nossas essências. Dessa forma somos inflexíveis a mudanças, por isso damos as mesmas respostas a todos os conflitos que chegam a nós. Por isso, os praticantes de Aikido que carregam as formas Sankaku, Shikaku e Maru, tendem a ter um maior repertório para lidar com embates Físicos, Emocionais e Mentais. Pois, com o conhecimentos dessas formas, temos a resposta correta para cada tipo de conflito. 

Conclusão  

A prática do Aikido trazem uma infinitude de benefícios, mas se pudermos extrair pequenas práticas, e aos poucos adicionarmos em nosso cotidiano, teremos um caminho em consonância com as leis do universo e seremos mais felizes e plenos. Citando o Sensei Rodrigo Mesquita em seu artigo Aikido: A busca da verdade: 

O resultado do início deste trabalho é o desembaraçamento mental. O praticante enfim começa, aos poucos, a se libertar dos grilhões do ego, e vai se encaminhando para a Unidade. A harmonia começa enfim a se manifestar não apenas em sua técnica, mas em toda a sua vida. Uma coordenação altamente desenvolvida aparece como resultado direto  dessa harmonia, coordenação que abrange não somente o físico, mas o emocional e o psicológico, além do aperfeiçoamento da conjunção dos três. Este trabalho interno unido à prática constante, árdua e disciplinada leva ao equilíbrio dos corpos físico, emocional, mental e espiritual, como disse O-Sensei: "Ki no Myoyo (o uso elevado do Ki) permite que os indivíduos harmonizem seu corpo e mente, assim como permite que alcancem a harmonia com o Universo mais amplo.” 
 
Agradecimentos

Gratidão a Deus pela dádiva da vida.

A minha família, que foi basilar para que eu pudesse trilhar este caminho e tentar ser melhor todos os dias.

A Rebeca Diniz, companheira de todas e horas, e que me apoia sempre em qualquer projeto de minha vida.

A Morihei Ueshiba por mostrar ao mundo um caminho para que possamos nos harmonizar conosco e o universo.

Ao Shihan Wagner Bull, por seu grande exemplo de dedicação de toda uma vida para que pudéssemos ter um Aikido de tão alto nível em nosso país.

Aos Shidoin Alexandre Bull, Tamotsu Kubo, Constantino Delis, Roberto Matsuda, Osmar Batista, Alexandre Borges e Edgar Bull. E os e demais delegados do Brasil Aikikai, que tanto se dispuseram a passar seus conhecimentos para que pudéssemos ascender em busca da verdade.

Ao Sensei Rodrigo Mesquita e ao Sensei Henrique Catelli que me abriram as portas para um caminho de toda uma vida, agradeço também pela amizade e toda paciência que tiveram comigo durante todos esses anos. Não consigo descrever com palavras o quanto sou grato a tudo que fizeram por mim.

Isis Mesquita, uma mãe que me acolheu e me tornou como parte de sua família durante todos esses anos. 

Aos meus grandes companheiros de jornada, que partilharam todos os bons momentos e se doaram integralmente para que eu pudesse chegar aqui. Moisés Santana, João Henrique, João Vianna, Franklin Quadros, Fernanda Queiroz, Sérgio Ricardo, Herbert Marques, Josyêdda Matos, Rizia Soane, Laís Lessa, Nilce Almeida, Enzo Almeida, Ricardo Santana. E a todos os amigos que estiveram comigo nessa trilha e permanecerão para sempre em meu coração.

​Domo Arigatou Gozaimashita!    
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Aikido como refinamento do ego dentro da perspectiva
junguiana

Novembro, 2017 | moisés santana
Carl Jung, ao dar nascimento à sua psicologia analítica, arguiu que todos nós já trazemos conosco uma essência, chamada por ele de si-mesmo, ou self, que representa o nosso potencial mais pleno, a nossa totalidade. Para atingirmos a nossa plenitude, esta essência deverá tornar-se consciente para então se desenvolver ao longo da vida.

O self em Jung é apresentado como um dos seus arquétipos, representando a unificação da consciência e do inconsciente em
uma pessoa, e dentro dessa totalidade, está refletido a psique como um todo. Deixemos claro desde então, que o si-mesmo
em Jung não representa o costumeiro pensamento da noção de egoísmo, se cairmos neste pensamento estaríamos em uma confusão conotativa entre o si-mesmo e o ego. O self na psicologia junguiana é produto da individuação[1], da integração da personalidade, o self é representado como um círculo, e o ego, o ponto central.
O si-mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é o centro da consciência. (Jung, 1990, p.51)

O ego aparece aqui como o centro da consciência, onde o self é a totalidade, incluindo a consciência, inconsciência e o ego. Podemos afirmar que o self é ao mesmo tempo o todo e centro. O ego se torna um pequeno ser central, circunscrito à sua forma autônoma, formando uma unidade bastante coesa para transmitir impressão de continuidade e de identidade consigo mesma[2].

Para Jung o ego é a organização da mente consciente, sendo composição de recordações, pensamentos e sentimentos, onde mesmo ocupando uma parte pequena do total da psique, ele se torna o vigia da consciência, onde a individuação acontece nos momentos em que o ego permite que as experiências se tornem conscientes, o ego começa a se tornar a consciência de nós mesmos, agindo de maneira seletiva, fornecendo direção para nossa vida consciente. Todo ser humano desde o seu nascimento consegue ter a sensação deste ‘todo’, do si-mesmo, mas o desenvolvimento do aparato ego-consciência cristaliza a sensação de unidade, para Jung, essa cristalização comumente ocorre na primeira metade da nossa vida.

Como área adjacente ao ego, temos o inconsciente, o desconhecido que nos afeta de imediato, uma região contida de experiências que já foram conscientes, mas que foram suprimidas, combinações de ideias ainda demasiado fracas e indiferenciadas; traços de acontecimentos ocorridos durante o curso da vida e perdidos pela memória consciente; recordações penosas de serem lembradas, dentre outras.

Observamos aqui que o conhecimento da personalidade egóica é diferente do conhecimento do self. Neste momento há o nascimento dos perigos do self, quando a pessoa atinge uma consciência da sua identidade do ego, e confunde isto com o conhecer a si mesmo de maneira plena, esquecendo-se que o ego admite apenas os seus próprios conteúdos, e não o material psíquico real provindo do inconsciente que é o ser experimentador de sensações, e desconhecido pelo sujeito. Adentramos num lado negro do self, onde através do seu grande poder podemos ser vitimados pelo excitamento de termos atingindo o conceito do todo e de nós mesmos, do universo enquanto criador e criatura, enquanto sequencialmente perdemos o toque com a realidade latente.

Ô Sensei nos diz que:

Aqueles que sinceramente desejam progredir no Aikido devem ter sempre esses princípios em mente: perceber o universo como ele realmente é, fundamentar todas as ações ali e abrir a sua porta pessoal para a verdade. O momento presente é a era do materialismo. Entretanto precisamos nos esforçar para fazer a flor do espírito desabrochar e produzir frutos espirituais. Dessa maneira, o elemento espiritual se tornará mais pronunciado. Se isso não for feito, esse mundo nunca melhorará. (Ueshiba, 2010, p.19-20)

O Shihan Wagner Bull em seu livro Aikido: o caminho da sabedoria – A teoria, aponta que os japoneses importaram muito da sua cultura e assim adaptaram para suas necessidades dentro do seu ambiente, e deixa claro que os japoneses não aceitaram a ideia de se retirar o ego como um caminho para se chegar a Deus[3]. Ô Sensei ignorava o Zen, pois buscava a construção de um grande ego, e não eliminá-lo, e voltando aos estudos de Jung, sabemos que o ego é algo indissociável do que nós somos e de como agimos.

(...) somente com o desenvolvimento do “ego” (autêntico) harmônico, é que o indivíduo pode se libertar das tensões e angústias e realizar-se plenamente como ser humano e ser realmente feliz. O segredo da verdadeira liberdade é aprender a fazer tudo o que queremos sem prejudicar o interesse daqueles que nos cercam. Neste sentido a prática do Aikido é uma grande ferramenta. (BULL, 2013. p.217)

Atentemos para o fato de que não há vida sem ego, este faz parte de tudo e todos, mas a modéstia deve vir do entendimento de que toda vida é limitada, Mitsugi Saotome em Aikido e a harmonia da natureza, escreve que se não há ego, não há amor, mas ficar preso a um ego centrado em si mesmo é criar um amor débil, sentimental e estreito. Todos os grandes mestres possuíram e possuem egos, só se ensina algo a partir do ego. O ego em Jung é o centro do círculo, e para Ô Sensei, um círculo com um ponto no centro representa a imobilidade e o desenvolvimento do espírito. É o fluxo circular que cria uma miríade de técnicas (Ueshiba, 2010, p.48).

Um dos lemas do Aikido versa que devemos nos conscientizar-se que a prática do aikido tem por princípio o autoconhecimento, e é neste ponto que o Aikido se apresenta como uma ferramenta para o refinamento do ego, quando deixa de ser apenas uma prática puramente física (...) o aikidoísta vai lentamente libertando-se de seu ego pensante, egoísta e vai sentindo-se como parte de uma realidade maior, deixando de temer a morte, o fracasso, a dor, a perda, pois vai compreendendo que tudo é parte do mundo divino, que seu ego pensante imagina ignorantemente, poder individualizar e separar. (BULL, 2013. p.217)

A prática correta do Aikido fará com que o estudante elimine as ilusões que o ego possa aflorar, e não uma ideia de morte do mesmo, começando a desenvolver o que os japoneses chamam de Mitama Migaki, o polimento da alma, elevando e colocando o discernimento no ponto mais alto do agir, atingindo o julgamento intuitivo. A escalada do desenvolvimento do aikidoísta inicia-se com a pura força, depois atinge a busca da técnica através do uso adequado da energia, com mais resultados e menos esforço corporal e por fim, o nível de harmonia/liberdade, com habilidades de se mover independente de obstáculos ou resistência. Esse nível fabuloso vem de dentro do praticante, não podendo ser dado por outrem, é a resolução mental harmoniosa dentro dos conflitos que se apresentam, a solidificação apurada da personalidade, como Jung previra, com o interno (ego) e o externo (self) e sua interdependência, mas sem ilusões, apenas com a verdade (makoto) que o iniciará na conexão com o Universo.

Agradecimentos

À força intangível que nos rege, por me legar, até o presente momento, moradia nessa ilha estacionária.

Ao Ô Sensei por seu admirável exemplo de vida, e por nos deixar um imensurável legado físico e espiritual.

Ao Shihan Wagner Bull por pavimentar no nosso país a estrada à qual sigo hoje.

Aos Shidoin Alexandre Bull, Tamotsu Kubo, Constantino Delis, Roberto Matsuda, Osmar Batista e os Fukushidoin Alexandre Borges e Edgar Bull, e demais delegados do Brasil Aikikai, por toda preocupação e esforços largos em dividir e multiplicar seus conhecimentos.

Ao Sensei Thiaggo Campelo por me aceitar como seu aluno e toda a paciência para com um iniciante absurdamente desajeitado.

Ao Sensei Rodrigo Mesquita e ao professor Henrique Catelli, meus mais sinceros agradecimentos, nada há que pague o que vocês fazem dentro e fora do tatame para cada um dos seus alunos. Sou extremamente grato e sortudo em tê-los como meus mentores.

Aos meus colegas de treino, agradeço por inúmeras vezes partilharem em conjunto das dores e felicidades da nossa trajetória, e em particular a Jeffrey Cox (in memoriam), aos “Joãos” (Henrique, Barreto, Viana), Sérgio Ricardo Nascimento, Herbert Marques, Josyêddade Matos, Nilce Almeida e demais amigos que, ao extrapolarem as barreiras do simples companheirismo, lapidam em minha alma, intensa admiração.

Por fim, mas não menos importante, agradeço especialmente à minha esposa Rizia Soane por todo o incentivo e companheirismo ao longo dos anos.
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Kokyu: a compreensão do binário e o caminho para Unidade

AGOSTO, 2017 | RODRIGO MESQUITA
O Aikido é dito um caminho para a harmonia que tem como ferramenta de estudo as operações possíveis entre forças antagônicas, ou, dizendo de forma simples, o estudo da dualidade, do Yin-Yo japonês (ou Yin-Yang chinês). Seria possível que essa prática focada na experimentação com a dualidade resultasse na compreensão da unidade? Como, do estudo do Dois, podemos chegar a conhecer o Um? Acredito que atingir essa unidade em seus planos físico, psíquico e emocional é o que possibilita o estado de harmonia do qual nos fala o Aikido, e me esforçarei para esboçar uma resposta a essas questões.

Muitas religiões e tradições espirituais nos contam através de suas cosmogonias como a Unidade Imanifesta criou e ordenou todo o universo, como no seguinte excerto de Lao-Tse:

"O Grande Princípio gerou Um. Um gera Dois, Dois gera Três, Três gera Dez mil coisas. Dez mil coisas se tornam harmonizadas quando combinam as forças do positivo e do negativo. Atingir a auto-realização na Terra é viver dupla existência: uma cumpre os deveres do mundo, outra, interna, fica mergulhada na paz universal do 'Do'."

Esse Grande Princípio de que nos fala Lao-Tse é tratado na tradição como o Absoluto, a Verdade, a realidade última; Aquele que, imóvel e permanente, move todas as coisas impermanentes. É a força motriz universal, terrível e sempre desconhecida. Porém, a criação do universo não ocorre antes que seja criada a dualidade. A Unidade Imanifesta tem necessidade de gerar uma segunda unidade; uma manifesta e limitada, embora ainda totipotente, pois no reino do limitado o ilimitado não pode agir diretamente, caso contrário, a criação se esfacelaria pela quebra de suas regras e leis. Na Kaballah, chamamos essa unidade de Kether (a coroa), e a partir dela é que são geradas Binah e Chokmah - juntas, representam o binário, a dualidade, as duas colunas que sustentam o templo (a criação) - Izanagi e Izanami na cosmogonia xintoísta. "O binário é a unidade multiplicando-se por si mesma para criar", nos diz Eliphas Levi, um proeminente ocultista do século XIX.

Com alguma reflexão percebemos que a natureza da dualidade é a unidade: um objeto único e indivisível apresenta dois pólos, caracterizados como uma espécie de gradiente de concentração. Caso o equilíbrio entre esses pólos seja harmônico - os gradientes estejam na devida proporção - os pólos serão complementares, e um buscará o outro. Caso não ocorra esse equilíbrio, os pólos serão contraditórios, e um irá repelir o outro. Isso é expressado perfeitamente no símbolo do Tao (conhecido como Yin-Yang). Dia e noite, verão e inverno, o masculino e o feminino, sim e não, são, em essência, a mesma coisa. A aparência de diferença é, de certa forma, ilusória. O sábio reconhece essa ilusão, e a ultrapassa, repousando seu interior de forma serena no Tao, na Unidade Indissolúvel. A geração da luz na matéria torna necessária a existência da sombra; o branco não é mais do que a presença de todas as cores, ao passo que o preto é simplesmente a ausência delas; o alto só existe em relação ao baixo, assim como o calor e o frio estão na relação um do outro. E por qual razão, para que aja a manifestação do universo perceptível, a dualidade é necessária? Até o momento, divago que a dicotomia fundamental parece ser um mecanismo de aprendizado da Unidade, ou seja, da Verdade. A bíblia cristã nos traz a mensagem de que tem mais valor o pecador arrependido do que o justo que não necessita de arrependimento. Assim também, a queda de Lucifer e a precipitação de Sofia do pleroma mostram este pretenso axioma: ao tempo em que a luz é gerada, se gera a sombra. Para se ter o conhecimento pleno da obra, é necessário compreender ambas as polaridades da unidade, por isso a descida de Lucifer/Sofia; é preciso que o preto conheça e compreenda o branco e vice-versa; para atingir a Unidade, é preciso averiguar em detalhes cada pólo da suposta dualidade. Essa é a mesma ideia contida na saída de Adão do paraíso, quando ele come o fruto da árvore da ciência do bem e do mal e se torna capaz de perceber a dualidade existente em todas as partes da criação. Naquele momento ele inicia uma jornada de conhecimento cujo objetivo é o retorno dele à matriz inicial com uma percepção e saber plenos.

O Aikido, ao meu ver, é uma arte completamente focada no estudo e prática da dualidade, e isso fica claro em diversos escritos e conceitos deixados pelo O-Sensei, Morihei Ueshiba. Em uma de suas explicações sobre a natureza da arte, ele disse que o Aikido era Ichi Rei, Shi Kon, San Gen, Hachi Riki (uma origem, quatro almas, três princípios, oito poderes). Esses oito poderes são apresentados em pares, e descritos como: movimento e inércia, solidez e adaptação, contração e distensão, unificação e divisão. Essas oito qualidades se apresentam não só como bases físicas das técnicas do Aikido, mas, mais ainda, como bases conceituais que perpassam todos os planos: o físico, o psíquico, o emocional e o espiritual. Em seu livro Aikido, Takemussu Aiki, o Shihan Wagner Bull nos traz uma valiosa análise desse sistema:

"Quando questionado por seus alunos sobre uma definição do Aikido, o Fundador dizia: Ichi Rei, Shi Kon, San Gen, Hachi Riki.

(...) Somente depois de muitos anos estudando a teoria e a prática do Aikido é que o praticante pode realmente compreender a grandiosidade desse ensinamento de Morihei Ueshiba que explica a essência de todas as técnicas da arte, ou seja, o Kokyu, a alternância entre os contrários e a consequente harmonia que ocorre quando duas energias vibratórias se encontram, transformando-se numa só, também pulsante.

(...) Tudo no universo pulsa e se alterna. Esta divisão em 1, 3, 4 e 8 é uma chave esotérica para ajudar os praticantes do Aikido a terem um modelo de entendimento dos princípios e da forma de comportamento do corpo, da alma e do espírito."

Como bem explanado por Bull Shihan, o Kokyu - a alternância entre os contrários - é um princípio basilar que encontra-se presente em todas as técnicas do Aikido e que parece ser o produtor direto da harmonia. Quando analisamos o aspecto técnico da arte, este processo inicia através do Zanshin (a permanência do estado de consciência) e de Meikyo Shisui (a clareza mental que permite a percepção dos pensamentos/sentimentos do oponente). No momento em que o oponente decide-se pelo ataque, o Aikidoka "estabelece" o Musubi (conexão) possibilitando uma leitura instantânea do seu atacante para agir em estrita relação de complementaridade com a energia que o oponente desencadeou. A complementaridade existente nos pares dos Hachi Riki (os oito poderes) será aí demonstrada de forma natural e expontânea, produzindo Kokyu e gerando movimentos de extrema harmonia. O resultado da alternância desses poderes/qualidades será movimentos que, ora trazem o atacante fazendo uso da força centrípeta ao redor de um centro firme e estável, ora mantém o equilíbrio entre as forças, direcionando e dissipando a energia do ataque inicial, e ora expulsam o atacante do centro fazendo uso da força centrífuga. Este processo, contudo, não é pensado ou mensurado, e talvez nem mesmo mensurável. Se corretamente executado, ele é instantâneo e ocorre em frações de segundo. Claro que um iniciante no Aikido não executará técnicas nesse nível. São necessários muitos anos de dedicação e um treinamento sério e diligente para o praticante começar a atingir esse elevado grau técnico e espiritual. O Aikidoka para alcançar esse nível deve estar livre dos grilhões do ego, do "querer fazer acontecer”. O seu querer deve ser o querer do universo; daí a frase que o Shihan Wagner Bull sempre utiliza para ilustrar esse peculiar estado: “fazer sem querer, querendo”. Somente uma mente livre é capaz de apresentar Zanshin, desenvolver Meikyo Shisui, e executar um Musubi apropriado, não só em relação ao oponente, mas à tudo, gerando assim seu próprio Kokyu à partir do Kokyu universal.

Este processo de Kokyu não diz respeito apenas à dimensão física; ele é aplicado e verificado em todas as dimensões do ser humano, e este é o pré-requisito para que, da fase da dualidade, passemos à unidade. A característica de harmonia percebida no Aikido parece vir exatamente da produção do Kokyu: com a prática física o Aikidoka aprende a unificar duas ou mais energias em aparente oposição, criando um ensaio cinestésico que lhe dá a conhecer as forças do binário. Com a internalização dessa prática física, ensinamos de forma inconsciente às nossas mentes a trabalhar essas forças antagônicas de forma sempre positiva, buscando a conciliação dessas energias e trazendo-as em uma unidade harmônica. Ensinamo-nos a moderar a força ativa através da passiva; que o vazio sempre busca o cheio; que o fixo anseia pelo móvel; que a rigidez exige flexibilidade, e que o que está dividido pede unificação. Assim também a pluralidade de "eus" existentes em nossa psique começa a dar lugar, naturalmente, a um centro firme e estável, a uma persona unificada ao invés da persona dividida e fragmentada que usualmente apresentamos. As energias em movimento em nosso interior irão girar em torno desse centro estável. Isso é possível através de Mitama Migaki e Chitsujo Migaki, o polimento do espírito e o polimento da nossa percepção quanto à verdadeira ordem natural das coisas. Esta unificação mental desencadeia, por sua vez, um estado emocional equilibrado e condizente com esta unidade, ou seja, harmônico. O praticante que atinge este nível não estará mais sucessível à inconstância emocional que nos é tão comum nos tempos atuais. Sua mente será focada, e ele se sentirá capaz de realizar qualquer intento de forma plena. As energias então se somam e podem ser direcionadas de forma ordenada para um único propósito. No plano espiritual, a desarmonia entre a força centrífuga da matéria e a força centrípeta do espírito começará a desaparecer, dando lugar a uma perfeita justificação: a complementaridade entre a energia de alta vibração (espírito) e a de baixa vibração (matéria). O processo de Kokyu interno então passará a reverberar com o Kokyu universal, aquele responsável pelo equilíbrio das grandes forças geradoras e mantenedoras do universo, e verdadeiros milagres serão possíveis. Acredito que um dos momentos de iluminação do O-Sensei tenha sido exatamente este alinhamento dos Kokyu:

"Na primavera do ano de 1925, quando estava solitário em um jardim, eu tive a impressão de que o Universo começou a tremer e que um espírito dourado saiu do solo e me envolveu em ouro; eu podia entender a linguagem dos pássaros. Naquele momento eu fui iluminado, o amor de Deus é a fonte e a razão do Budo, o amor que protege todo o Universo."

"A harmonia resulta da analogia dos contrários", dizia um antigo sábio. A Unidade gera o Dois, e o retorno ao Um só é possível através do Dois, ou seja, a Unidade só pode manifestar-se pelo binário. O mergulho na Unidade só é possível através das partes que se conhecem e se compreendem: as duas naturezas se contemplam e ganham ciência uma da outra, para então se perceberem em unidade profunda, realizando todos os mistérios. A conciliação/unificação entre o que é aparentemente contraditório é a chave maior que o Aikido nos ensina, e a aplicação bem sucedida dessa chave em nossas vidas pode significar ir além da natureza humana, qualquer que seja o fim dessa jornada.
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A mulher no Aikido

maio, 2017 | josyêdda matos
Aikido significa: Ai:harmonia, integração, união e amor; Ki: energia, energia vital vida; Dô: caminho, modo de vida, de forma podemos dizer que é o caminho da harmonia entre as pessoas. Tem como fundador o Morihei Ueshiba na década de 40 o aikido vai muito além de ser um esporte, é uma arte marcial que também treina seu lado espiritual.
O-Sensei disse:

"Aiki significa a união entre o corpo e o espíríto e é a manifestação dessa verdade. Mais do que isso, Aiki nos permite harmonizar o céu, a terra e a humanidade.”

O fundador não criou o aikido para ter distinção de sexo ou classe social, qualquer um pode praticar aikido, o propósito dele ele para que cada um crescesse interiormente e evoluísse espiritualmente.

A história da mulher nas artes marciais vem de anos atrás, na China as mulheres aprendiam a lutar para defender suas famílias, foi preciso adaptação nas técnicas pois as mulheres tinham estatura e tipo físico diferentes dos homens, mas não as impediu de aprenderem as técnicas as tornando fortes e decididas.

Assim podemos dizer que as mulheres nos dias atuais continuam com o mesmo sentimento que as mulheres nos tempos antigos, que precisavam ser fortes para proteger suas famílias na ausência do marido. Ser uma mulher de que faz artes marciais não quer dizer que deixa de ser feminina, até por que fazer aikido precisa ter sensibilidade característica natural nas mulheres. Percebe-se isso devido ao aumento de mulheres dentro dos dojos.

O aikido é uma arte marcial que a igualdade entre os indivíduos existe de fato pois não é feita pela força bruta, é muito, além disso. O fundador Morihei Ueshiba é um grande exemplo que o aikido pode ser feito por qualquer indivíduo, ele era um homem de visão interior, e capacidades extraordinárias, até hoje se sabe histórias dele que muitos podem nem acreditar, fisicamente de estatura baixa porém muito forte, é o exemplo a ser seguidos por todos. Ele desejava que um tesouro como o aikido deveria estar ao alcance de todos, ele ensinava aos seus alunos pessoalmente, como usar a força do parceiro e não a sua. Não tinha distinção entre as pessoas, explicava gradativamente para que cada um entendesse no seu próprio tempo, tudo que ele pedia era o interesse verdadeiro no aikido. Não se faz aikido simplesmente por fazer, dessa forma não entenderá o sentimento verdadeiro.

Como a característica do aikido não é medir quem é mais forte e sim ser sensível aos movimentos, sutileza, energia, elegância, disciplina, precisão para poder fazer as técnicas e respeito. Qualidade na maioria das vezes encontradas facilmente nas mulheres. Sendo ainda mais fácil de adaptação para elas, e passando segurança para aplicação das técnicas.

O corpo da mulher se modifica, mas não ficando sem sua feminilidade, mas passa a ter mais flexibilidade, resistência, pois à medida que se treina seu corpo,ele se adapta aos movimentos que são necessários. Os exercícios de respiração são também de extrema importância, trazendo paz e controle ao seu corpo. Fazendo muitos benefícios ao seu corpo, faz regular o sistema do corpo humano, como cardiovascular, respiratório. Como também ajuda no controle de ansiedade e até o stress.

O aikidoka aprende a harmonia com universo, isso é uma realidade para os que treinam, ao longo dos dias os praticantes começam a experimentar interiormente o desejo de viver sem conflitos. Nos lemas do aikido exemplifica isso claramente, em cada um deles, se for colocados em prática do seu dia-a-dia se tornará uma pessoa melhor para o universo.

O aikido faz dos praticantes pessoas melhores, as mulheres que a praticam se tornam mais sensatas e equilibradas, pois seus treinos são para o físico e o psíquico, adquire-se capacidade de avaliação das ações com mais firmeza e clareza. Normalmente se vê a mulher como um sexo frágil, pelo fato de ser emocionalmente mais fácil de demonstração de suas emoções, e físico inferior, mas isso não significa ser fraca e sim ser mais cristalina com o que se sente. Quando se pratica o aikido aprende o autocontrole. Percebe que não é necessária demonstração de auto ego, por que isso não leva a vitória nenhuma e nem se torna mais especial. Dentro dos tatames ninguém é melhor ou sabem mais, todos estão para aprender um com os outros, cada um tem em si, algo para ensinar e algo para aprender, é nesse mesmo pensamento que devemos colocar dentro de si. É nessa energia que devemos enviar para dentro do nosso ser, para fazer a mudança que necessita em cada um.
O O-sensei dizia:

"O propósito do Aikido é construir um céu na terra organizando as pessoas num convívio de amizade e harmonia. Eu ensino esta arte para ajudar meus alunos aprenderem como servir seus próximos.”

Agradecimentos

A todos sou grata, pois cada um trás para nos uma mensagem um ensinamento, agradeço a Deus por ter me permitido que o aikido entrasse em minha vida. Que de fato fez profunda mudança no meu ser. A minha família pelo apoio de todos os dias para seguir e enfrentar os obstáculos que tive durante meus treinos. E em especial a minha filha Ana Júlia que para ela sou exemplo. Ao meu amigo e parceiro de treino Sérgio Ricardo por ter acreditado e me apresentado ao aikido e por todos os incentivos que recebi.

Agradeço profundamente ao Sensei Rodrigo Mesquita, por ter me dado um voto de confiança em permitir fazer parte desse dojo. Exemplo de sensei que se percebe a dedicação que se tem para fazer de seus alunos melhores aikidokas e melhores pessoas, muitíssimo obrigada. Ao professor Henrique Catelli que sempre me incentivou e me apoiou, em todos os momentos, me passando seus ensinamentos para que pode-se aprender cada dia mais.

Nessa caminhada agradeço aos professores que vieram no dojo ao longo desse tempo que estou aqui, que traz consigo muitos ensinamentos para nós.

E aos meus companheiros de treinos que sem eles não poderia ter alcançado meu melhoramento interior a todos meu muito obrigada.

A todos vocês o meu mais verdadeiramente Domo Arigato Gozaimashita!
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Seleção natural

maio, 2017 | sérgio ricardo nascimento
Fui iniciado no Aikido em 30 de abril de 2013 pelos ilustres Senseis Rodrigo Mesquita e Henrique Catelli. Ainda me lembro quando os vi pela primeira vez, Sensei Rodrigo, um homem de estatura e porte físico bem comuns, mas que impunha muito respeito, era notória a admiração dos alunos para com ele, e o Sensei Henrique, ele demonstrava uma postura marcial ímpar, típica de um grande guerreiro.

A primeira aula que assisti foi uma experiência e tanto, ver os Senseis executando os movimentos e técnicas com tamanha harmonia e destreza me deixou impressionado, naquele momento percebi que era o Aikido o caminho marcial que eu deveria seguir. Claro que não foi assim tão fácil fazer parte do NAIKAN DOJO – ou da família NAIKAN, como costumamos chamar. NAIKAN DOJO é o DOJO dos Senseis Rodrigo e Henrique, DOJO tradicional de Aikido situado em Itabuna-BA. Ainda me foi necessário passar por uma entrevista e uma semana de aulas experimentais, contudo, já me achava decidido.

Lembro-me das primeiras perguntas que o Sensei Rodrigo fez em minha entrevista: – O que achou da aula que assistiu? Era o que você esperava?
Tolamente respondi que sim, e que já tinha pesquisado sobre a arte, mal sabia a totalidade do que o Aikido tinha a me oferecer – quero abrir um parêntese aqui para dizer algo que a vida me ensinou, você pode conhecer todas as teorias sobre determinado assunto ou coisa, mas nada é tão revelador quanto a pratica.

Com os anos de pratica percebi o quanto a resposta que eu dera ao Sensei tinha sido rasa e o quanto o Aikido tinha a oferecer, muito além de posturas e técnicas, chaves e torções, digo isso com a experiência de um Kyu, ciente de ainda ter muito aprendizado pela frente.

Logo na semana de experiência pude perceber o ambiente de companheirismo e harmonia, todos extremamente amistosos, sempre sorridentes e educados, todos sempre se curvando e deflagrando cumprimentos calorosos. Um ambiente bem descontraído, mas sem perder o rigoroso respeito e a busca pela lapidação de si mesmos, em nem uma outra academia de artes marciais vi tamanha disciplina e etiqueta.

Para mim foi muito fácil decidir, ao fim da semana de experiência eu estava certo em continuar no DOJO. Na mesma época um amigo também decidiu ingressar na arte, e logo fizemos parte do grupo de faixas brancas, no total éramos sete faixas brancas, todos muito empolgados e sedentos para aprender o máximo sobre esse BUDO. No entanto ao chegar no primeiro exame de faixa que participei éramos apenas seis, o amigo que iniciou junto comigo já havia desistido nessa época. Hoje só permanecem no DOJO três dos antigos faixas brancas de quando comecei a treinar. Nesse intervalo de tempo entre meu início no Aikido até hoje, passei a observar o fluxo de pessoas que passaram pelo DOJO e percebi que muitos desistiram da arte, alguns ainda na faixa branca, outros mesmo já mais graduados e com uma vasta bagagem também acabaram desistindo pelo meio do caminho, vendo isso comecei a tentar entender o porquê que algumas pessoas simplesmente abandonam uma coisa tão positiva, algo que agrega tantos bons princípios e atina nosso físico e nossa mente, por que abrir mão de algo de tamanho valor?

Com o tempo percebi que o Aikido é uma arte muito intima, em muitos aspectos é um caminho de introspecção, percebi o quanto a arte nos coloca em um duelo constante com nós mesmos. O mais interessante é que o Aikido parece possuir uma balança muito justa, só recebemos algo do Aikido enquanto nos doamos nesse caminho. Costumo dizer que o Aikido é uma arte seletiva, não uma seleção por raça, cor, gênero ou condição financeira, todavia uma seleção pelo nível de entrega de si mesmo, pelo nível de doação de si mesmo, pelo nível de confrontamento e busca pelo aperfeiçoamento de si mesmo.

Alguns iniciam nesse BUDO, porém, não entendem o caminho e logo perdem o interesse pela arte, outros treinam por um tempo até perceberem o quanto o fim do caminho é muito mais difícil de ser alcançado do que se imaginava, ainda existe aqueles que não se encaixam na posição de constante confrontamento e lapidação interior, alguns com o ego inflado de tal forma a ponto de não conseguirem examinar e absorver mais nada além do que já têm.

Acredito que mesmo sem a entrevista ou as aulas experimentais como etapas para ingressar no Aikido, acredito que ainda assim teríamos os mesmos membros tais quais temos hoje. O universo conspirou e nos conduziu para isso, e quem diria, em meio a tantos que passaram pelo DOJO, seriamos nós, Moisés Santana, João Henrique, João Vianna, Fernanda de Queiroz, João Paulo, Herbert Carmo, Josyêdda Mattos, Marta Miranda, Bruna Souza, Rizia Soane, Laís Lessa, Nilce Almeida, Enzo Almeida, Ricardo Pedroso e eu, que teríamos essa honra e o privilégio de continuar nesse caminho tão desafiador e ao mesmo tempo tão gratificante que é o Aikido, e não poderia deixar de destacar o papel fundamental e indispensável dos nossos Senseis, com toda doação, dedicação e paciência de ambos em nos conduzir neste caminho. Como eu disse antes, o Aikido possui uma balança muito justa, quem mais se doa mais recebe, acredito que todo o potencial que nossos Senseis possuem vem de todos esses anos de empenho e entrega, todo o sacrifício os fez alcançar o nível que possuem hoje.

Todo esse tempo observando o fluxo de pessoas no DOJO me fez entender, o que nos mantém nesse BUDO não é nossa capacidade de aprender as técnicas, não é nossa destreza marcial, nem mesmo nosso porte e desenvoltura física, todos esses elementos são secundários e adquiridos com a pratica de qualquer arte marcial, o que nos mantém nesse caminho é o sentimento de SHOSHIN, a vontade de aprender cada dia um pouco mais, é sempre se ver como um jarro cheio, porem furado em sua base, precisando sempre renovar o seu conteúdo para que possa se manter ao mesmo tempo cheio e também fluido, e somado a tal sentimento uma constante atitude de polimento pessoal, buscando sempre exprimir o melhor de nós mesmos com toda harmonia e humildade.

Agradecimentos

Antes de qualquer outra coisa, agradeço a Deus pelo fôlego de vida a mim concedido, e pela reconciliação e justificação por meio da cruz de Cristo. Agradeço aos meus pais por serem sempre o maior exemplo de honra, dignidade, caráter e fé, agradeço por eles me colocarem no caminho e me ensinarem a caminhar com sobriedade e discernimento, agradeço por terem me apresentado Jesus Cristo, o qual é a pessoa mais importante em minha vida. Agradeço a minha amada esposa, Laís Lessa, por todo amor, cuidado, companheirismo, amizade e cumplicidade.

Agradeço a toda família NAIKAN, cada um de vocês soma em meu desenvolvimento de uma forma indizível, é uma grande honra treinas ao lado de vocês. Também sou muitíssimo grato aos Senseis Rodrigo e Henrique por tudo que já foi ditoaqui sobre eles e também pelo enorme carinho e dedicação que ambos têm por essa família.

“Um corpo não pode existir sem células, células não podem subsistir fora de um corpo.”
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Aikido, Trindade Interpenetrada

JUNHO, 2016 | HENRIQUE CATELLI
A natureza da ciência moderna ou da ciência provisória é analítica-desmembrada. À essa época analítica-desmembrada, a cultura é também desmembrada. A intenção de desmembrar e analisar é o meio para se chegar a síntese e à integração; ao que parece, esta intenção original ficou esquecida. A ciência deve ser ciência divina. O que o homem crê ser ciência, não passa de teoria, tecnologia e química. O progresso que se obteve em todas as áreas é extraordinário, mas será que foi dado algum passo em direção à verdadeira ciência?! Algumas frases de célebres cientistas nos trazem à tona essa “consciência adormecida”. “A ciência do Ocidente, que partiu da matéria, acabou, no final, chegando ao conceito de ‘vazio’ do Oriente”, Albert Einsten; “A ciência atual finalmente conseguiu chegar à mesma conclusão a que os antigos já tinham chegado através da meditação”, Sullivan; “As células do corpo humano contêm imensas quantidades de substâncias orgânicas e bilhões de átomos, mas sequer conhecemos a força que controla uma célula, que é a unidade básica da vida”, Spencer Gibson.

Caso os horizontes de domínio da ciência e religião não sejam cerceados arbitrariamente, algum dia elas se agregar-se-ão. Algo praticamente inevitável. Quando isso se der, parecido com o que aconteceu no século passado, a ciência terá passado por uma transformação tão profunda que estará apresentando um desenho, uma configuração difícil de ser compreendida até pelos cientistas da atualidade. A compreensão sobre religião também terá evoluído fazendo com que as duas, ciência e religião, ganhem mais força. Dr. Massafumi Inoki disse “A ciência e a religião são coincidentes no ponto em que consideram que o mundo material não é exatamente como o que captamos através dos cinco sentidos. Entretanto, elas divergem na forma de interpretá-lo. Como o mundo material não é aquele perceptível apenas pelos cinco sentidos, a religião considera que o que realmente existe é o pensamento. E a ciência, diferentemente, que é ‘algo material’ que existe independentemente do pensamento.”

Destarte, é indispensável compreender o princípio da trindade espírito, mente e corpo, sendo que o espírito é o principal, a mente (alma) obedece e o corpo (físico- matéria) acompanha e, assim como podemos relacionar os cinco espíritos do Budo (Shoshin, mente de principiante; Zanshin, mente que permanece; Mushin, não mente; Fudoshin, mente imóvel; Senshin, espírito purificado- atitude iluminada), com os cinco principais sentidos do corpo (visão, olfato, paladar, audição e tato), traçar um paralelo, compreendendo que a prática do Aikido traz em si, a busca da Trindade Interpenetrada, o sermos um, a junção da carne e do espírito, da ciência e religião, sermos de uma mesma e completa natureza.

A prática passa por várias etapas que visam preparar o praticante em diversos níveis, conduzindo-o a um fortalecimento físico através da execução de várias formas de exercícios, principalmente alongamentos, movimentação dos pés – Sabaki e o Hanmi (movimentação e posturas) – Ukemi (quedas) – passando por uma compreensão das formas de conexão – Mussubi – entendendo como posicionar as mãos, como fazer a “ligação” com o parceiro para executar uma técnica com leveza, sem o uso desnecessário da força e, por consequente, esta etapa não se acaba, elevando a prática a um nível digamos, espiritual, o Kokyu Ryoku. Nesta altura, o praticante já demonstrou interesse em descobrir mais sobre o Aikido através de pesquisas e leituras buscando conhecimento através das diversas literaturas existentes, esta é uma fase do treinamento que dificilmente é alcançada quando não se quer buscar algo mais “profundo”. Kokyu Ryoku, literalmente podemos dizer que significa o “poder da respiração”, não se avança verdadeiramente neste caminho quando não se adquire esta consciência. É certo que o ato de respirar é tanto involuntário como voluntário, Kokyu Ryoku é a busca do estado pleno destes dois atos, voluntário e involuntário, é ciência e religião, é ciência que fica paralítica sem a religião e religião que fica cega sem a ciência. Concluímos que a prática deve se dar de forma que nosso espírito, mente e corpo estejam trabalhando de forma uníssona. Passamos de um nível físico-mental para um patamar mais elevado, o do sentimento, da consciência. Devo citar que não é mera coincidência a semelhança do princípio da Trindade Interpenetrada com os diversos princípios que abordam os estudos exotéricos; Pai, Filho, Espírito Santo; Presente, Passado e Futuro; Tese, Antítese, Síntese; Sol, Lua, Terra; Quadrado, Triângulo e Círculo etc.

Observamos agora, que o Aikido trabalha nosso físico, nossa mente e nosso espírito criando um estado de consciência que antes não existia; a partir deste momento, estamos cientes que somos três, unimos nossa trindade, somos unos, completos: espírito, mente e corpo. Aikido, o caminho da união, essa é a trilha que devemos seguir para que possamos evoluir cada vez mais. Através da ciência e da religião, temos nos perdido por vários caminhos em busca da felicidade, por muitas vezes focando no “ter” ao invés do “ser”. Muitos “têm”, continuando no entanto, vazios, enquanto muitos que não “têm”, sentem-se preenchidos.

O Aikido tornou-se minha ciência e minha religião, apesar de, desde sempre ter consciência de que somos espírito, mente e corpo, através das diversas práticas espirituais que vivenciei. Vislumbro um longo e iluminado caminho através desta fantástica ferramenta de aprimoramento espiritual. Alcançar o estado de “Sunao”, a elevação do “Sonen” mais profundo, a compreensão do mundo invisível da força é algo mais valioso que o acúmulo de bens e fortuna, alcançar o verdadeiro estado de saúde, harmonia e prosperidade; divinizar, é o bem maior.
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A busca pela paz interior

JUNHO, 2016 | durval passos
O Aikido foi desenvolvido pelo mestre Morihei Ueshiba, sendo um conjunto entre as palavras AI (harmonia), KI (energia) e DO (caminho), definindo esta arte como um "caminho harmônico da energia". Representa não só uma arte marcial, como também é uma filosofia de vida e pode agregar às nossas vidas, como na concentração e dedicação com algo. Criar um ambiente harmônico no qual encontraremos paz. Porém, como uma arte marcial pode nos conceber paz interior?

Muitas concepções modernas definem paz interior como um estado de se estar mentalmente ou espiritualmente em paz, isto é, em oposição a estar tenso ou ansioso, sendo relacionado à felicidade e à prática de oração e meditação, podendo ser associada ao budismo e ao hinduísmo. Acredito que para alcançar a paz interior dependemos de nós mesmos, seja no que fazemos ou no que cultuamos e cremos no dia a dia. Entretanto, como a prática do Aikido pode nos levar a este estado de harmonia?

Tenho em mente que o Aikido é uma ferramenta de repouso rumo à paz, ao realizar sua prática, estamos meditando em certos momentos, trabalhando a respiração para evitar a tensão e cultivar a felicidade ao estar no convívio com amigos, sem falar que o Aikido foi influenciado por práticas religiosas como o xintoísmo, seja no fato de cumprimentar o Kamiza e no respeito ao próximo. Ademais, os lemas do Aikido que melhor especificam esta situação são: "ser pacífico", "ser tranquilo" e "não possuir sentimento hostil".

O ambiente em que o Aikido é praticado tem amor, cuidado, harmonia, técnica e dedicação, que são somados aos aspectos físicos também proporcionados pela arte. O treinamento do Aikido envolve resistência, flexibilidade e pouco uso da força muscular, sendo comum a temática: "use a força do oponente (uke) contra ele mesmo" ou "quanto maior a força, melhor para aplicar a técnica". É importante ressaltar que em sua prática, diversos músculos são trabalhados, daí a grande diversidade das técnicas, proporcionando um grande desenvolvimento físico e mental, nos preparando para a vida concreta e espiritual. É de suma importância aspectos como: projeções, desvios, torções e contusões, pois também fazem parte do Aikido.

As técnicas de Aikido são realizadas por no mínimo dois parceiros, mais especificamente falando são o Uke (atacante) e o Nage (executante), sendo ambos considerados elementos essenciais para a prática do Aikido, a função do nage é executar de maneira coerente a técnica, visando a postura e base, já o Uke tem a função de realizar um ataque, visando a força do ataque e como acompanhar o movimento do Nage. Se o Uke e o Nage estiverem entrosados, isto é, em sintonia, presenciaremos uma técnica bem realizada. As quedas são muitas e possuem grande importância aos movimentos do Aikido, atuando como uma resposta a eles e como uma forma vantajosa para o Uke quando recebe a técnica do Nage, visando não se machucar. As quedas juntamente com as bases são exigidas da faixa branca até a faixa preta e devem serpraticadas cuidadosamente pelo praticante e no tempo certo. Algo que torna o Aikido uma arte marcial diferenciada é o fato de que não tem competição, o que em minha opinião, torna os praticantes mais unidos.

A prática do Aikido pode nos conduzir ao respeito e à obediência, uma vez que é constituída por uma série de regras de etiqueta, tais como: "ao entrar e sair do dojo deve- se cumprimentar o Kamiza", "reverenciar o parceiro no início e término da técnica", "ficar em Seiza quando o sensei ou shidoin lhe der instruções", "não cruzar os braços dentro do dojo", "não arregaçar as mangas dentro do dojo", "manter o dogi limpo". São estas regras que tornam respeitável e agradável o ambiente, sem desordem e bagunça. Observação:dogi é composto por duas palavras (do – caminho gi – vestimenta). O Aikido nos faz valorizar a vida e saber fazer as escolhas de maneira coerente, sem falar que melhora a saúde, o estado de espírito e a concentração, também é uma forma de relaxar mediante aos problemas e preocupações do dia a dia.

Como parte da vestimenta de um Aikidoca teremos o hakama, uma calça utilizada para diferenciar o faixa preta do aprendiz. Para usá-lo deve-se saber cair bem, ter boa base, respeitar a etiqueta no Dojo e entender os princípios do Aikido sabendo aplicá-los em qualquer ataque, além de demonstrar fluidez ao executar os movimentos. De acordo com a temática geral do Aikido, "o motivo pelo qual se usa a calça hakama reside no fato de que por suas sete pregas tem-se a representação das sete virtudes do samurai, das quais uma é a etiqueta (respeito), pelo que um Aikidoka deve dar muita atenção, principalmente dentro de um dojo".

Nos dias de hoje, o Aikido pode ser encontrado em qualquer parte do mundo, porém com ideologias diferentes, mas todos devem respeitar a etiqueta imposta e ter cuidado com o parceiro na hora de aplicar a técnica. É de suma importância que as redes de ensino do Aikido possam cultivar um ambiente respeitável e de boas energias, visando alcançar a paz interior de cada indivíduo.

Agradecimentos

Agradeço à tudo e à todos, especialmente ao O-Sensei, Morihei Ueshiba, pela criação e dedicação ao Aikido; ao Sensei Rodrigo Mesquita e Sensei Henrique Catelli pelo respeito, dedicação em ensinar perseguindo sua visão de excelência em tudo que faz, aprendi a pensar mais antes de agir, a não impor minhas idéias e que cada pessoa é um ser único. Agradecendo a todos os meus colegas de jornada no Naikan Dojo e à minha família.
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Zanshin: a arte de se fazer presente

JUNHO, 2016 | joão paulo barreto
Existem algumas traduções para o termo Zanshin: Mente contínua, A mente que permanece, A mente sem resto, Mente alerta. Todas, no entanto, passam o mesmo sentimento que devemos ter ao praticar as mais diversas artes marciais japonesas. Por exemplo, no Kyudo, o zanshin é demonstrado mantendo a postura após o tiro, após a seta ser lançada o tiro continua não devendo perder a postura. No Karate, deve-se manter uma postura sólida pelo menos algum tempo após a realização do kata.

No Aikido a técnica ocorre em três momentos: Maai, Deai e Zanshin. Maai é o momento em que Nage e Uke estão numa distância adequada para o início da técnica. Deai é quando existe o contato físico. Zanshin acontece após o contato, sendo o estado de alerta e seriedade que deve existir depois da técnica.

Saotome Sensei nos fala sobre o zanshin nos seguintes termos: “Nunca devemos perder a concentração; nunca devemos baixar a guarda nem por um segundo. Temos de ficar constantemente alerta, cônscios do nosso parceiro de exercício, cônscios de todos os movimentos à nossa volta, prontos para o deai seguinte, prontos para o inesperado que vier de qualquer direção. Não afastemos nunca a nossa concentração do parceiro; não deixemos jamais que nosso espírito se separe dele ... zanshin é o futuro, mas também o agora. A qualidade do nosso zanshin é a qualidade do nosso Aikido.”

Há também de se perceber que o Zanshin não deve ser somente usado após a finalização de uma técnica. É necessário que estejamos alerta antes mesmo do início da técnica, nossa postura ao entrar no dojo é de sempre estar vigilante, desperto, atento, ou seja, em zanshin. Pois, devemos lembrar que o Budo (Artes marciais japonesas) tem sua origem no Bujutsu (Artes japonesas para guerra). Onde qualquer descuido ou desatenção poderia custar a vida do guerreiro.

Ao enveredarmos no caminho do Aiki, nos é ensinado que todos os aprendizados que recebemos ali, devem ser extrapolados para nossas vidas. Isso não deve ser diferente com o cultivo do Zanshin, sendo essa uma das características mais importantes do Aikidoísta, pois ele deve estar atento aos perigos e oportunidades que o dia a dia nos oferece, levando disso um aprendizado único, que seria perdido caso estivesse desatento. A humanidade em sua grande maioria não se faz presente, tendo dois grandes problemas: Ou se encontram com a mente no passado, remoendo o que poderia ter sido feito. Ou no futuro, angustiado por algo que nem existe. O zanshin é o estado de harmonia com a realidade, por mais paradoxo que isso possa parecer, pois ao iniciante dessa arte pode parecer que a pessoa que está em zanshin parece estar tensa, preocupada e inquieta. Sendo o sentimento exatamente o contrário a esse, no estado de zanshin a mente deve estar relaxada, tranquila e conectada ao ambiente que nos cerca.

A partir do momento em que adquirimos o hábito de praticar o zanshin não só dentro do dojo, mas também fora dele podemos perceber aspectos importantes em nossas vidas. Existem níveis de apuração do zanshin, para o qual podemos usar dentro do aikido, mas também em nossas vidas. Esses três níveis são: Percepção de si, Percepção do ambiente e percepção do outro. Todos esses aspectos são uma só coisa a partir do momento em que estivermos completamente conectados e em harmonia com o universo.

O primeiro nível é a consciência de si próprio. Dentro do aikido, por exemplo, podemos nos atentar a nossa etiqueta, a maneira como fazemos a técnica, como reagimos ao ataque. Em nossas vidas, podemos aplicar esse primeiro degrau ao observar a nós mesmos nos mais diversos ambientes: Lar, trabalho, sociedade. Vendo cada reação e onde nosso ego está agindo e onde está sendo alimentado, observando nossos defeitos e qualidades.

O segundo nível é a percepção de nós e do nosso ambiente. Na prática do aikido, podemos observar isso ao realizar técnicas em nage waza observando onde arremessamos nossos companheiros de treino, observar se alguém que foi projetado pode colidir e apurar nossos sentidos e sentimento para os perigos que nos cercam. No nosso dia a dia, podemos utilizar observando cada ambiente que entramos e sentindo a aura do local, saber que tipo de energia pulsa naquele local que nos cerca, se estamos num lugar com boas ou más energias agregando ao primeiro passo que é saber como reagimos a cada situação e ambiente.

O terceiro degrau é a percepção de nós, o ambiente e outro. Transformando isso numa coisa única, harmoniosa e totalmente interligadas. Dentro do Aikido uma das maiores expressões desse alto grau de zanshin é a execução de um Jiyu Waza, onde você tem que conectar consigo mesmo, o ambiente e todos os oponentes, fazendo com que o universo encontre a solução mais harmoniosa para aquele embate. Em nossa vida isso se expressa numa mente em equilíbrio com o que está dentro de nós e ao nosso redor. Não mais sendo influenciado por nossos pensamentos, pois só pensamos no agora. Ou pelo ambiente que nos cerca, pois temos total consciência dele, não o temendo. E por fim não entrar em conflito com o outrem, pois podemos nos ver no outro, estando totalmente conectados com as pessoas e em consonância com o cosmos.

Há uma frase do poeta William Blake que diz: “Veja o mundo num grão de areia, veja o céu em um campo florido, guarde o infinito na palma da mão, e a eternidade em uma hora de vida!”. Este é o espírito que devemos cultivar ao praticar o zanshin, pois essa é a arte de estar consciente e se fazer presente em nossa curta passagem pelo mundo.

Agradecimentos

Sou grato a várias pessoas e situações pelas quais passei e me levaram até esse caminho maravilhoso onde me encontro. Gostaria de agradecer a Deus, por iluminar e guiar cada passo que dei até hoje. Em segundo lugar aos meus pais que me deram educação e também me enveredaram a fazer o bem de forma desmedida.

Também sou muitíssimo grato ao Sensei Rodrigo Mesquita, que além de sensei também se tornou grande amigo e exemplo de pessoa. Pessoa a qual me inspirou a realizar esse artigo, pois quase sempre está atento a tudo e também me ensinando a ser um grande aikidoka e um homem honrado. Agradeço também ao professor Henrique, por tanta paciência e determinação para que eu aprenda cada dia mais.

Agradeço também a todos os professores que vieram de tão longe trazer luz, tanta harmonia e um vasto conhecimento para nós. Shidoin Roberto Matsuda, Shidoin Alexandre Borges, Fukushidoin Edgar Bull, Shidoin Tamotsu Kubo, Shidoin Osmar Batista e Shidoin Alexandre Bull.

Por fim, mas não menos importante, meus companheiros de treino e verdadeiros amigos que fiz no Dojo: Bruna, Durval, Enzo, Franklin, Herbert, João Viana, João Henrique, Josy, Laís, Marcelo, Marta, Moisés, Nilce, Ricardo Cordeiro, Ricardo Nascimento, Rízia e tantos outros que passaram pelo dojo.

A todos estes reverencio e dou o mais profundo Domo Arigato Gozaimashita!
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Aprendendo a entender o significado do Aikido

JUNHO, 2016 | joão vianna
O Aikido foi criado entre 1912 e 1942 pelo mestre Morihei Ueshiba, conhecido também como O-SENSEI. Antes da criação, o Fundador quando criança era muito incentivado a fazer artes marciais e natação para assim se fortalecer, pois era muito fraco. Passou por diversas artes marciais e consequentemente por muitos desafios, principalmente quando estava no exército.

Ele usava muito o sumô e alguns estilos de jujutsu, e até então nunca tinha perdido uma luta. Foi quando conheceu SOKAKU TAKEDA, mestre de aikijujutsu do estilo Daito- ryu. O-SENSEI treinou com Takeda por um bom tempo, chegando a ser um dos alunos mais próximos dele. Em seguida foi chamado para dar aula de artes marciais na marinha.

Após muitos estudos marciais e de crenças religiosas, é criado o AIKIDO.

Na visão do Fundador, o Aikido é um caminho do espírito harmonioso, e através dele um ataque de um oponente pode ser unido à sua defesa sem atrito, assim podendo resistir e inibir seu oponente utilizando sua energia. O praticante atacado utiliza a força de seu oponente, assim podendo imobilizá-lo ou projetá-lo para sua defesa.

A partir de 1920, o AIKIDO começa a se afastar do Daito-ryu, em parte devido ao envolvimento de O-SENSEI com a religião Oomoto-Kyo, originária do Shinto, noutra mão, a despeito da origem belicosa da arte, por não se opor ao adversário e sim envolvê-lo e utilizar sua própria agressividade e energia. Com isso a divisão do nome AIKIDO.

Ki, uma energia natural que flui no corpo humano; Ueshiba depois de muitos estudos entendeu o controle/harmonização desse ki. Outra importante colocação desta arte é seu foco no desenvolvimento espiritual, tendo O-Sensei um de seus mentores o Onisaburo Deguchi, líder da seita Oomoto-Kyo no Japão.

No intuito de conhecer mais a fundo a palavra AIKIDO, temos uma maneira de dividir a palavra em partes, assim temos:

AI – Harmonia, Equilíbrio
KI – Energia universal
DO – Caminho

Aprendendo a entender o significado do Aikido

Aikido tem um significado muito importante para minha vida, voltando há 19 anos no passado, eu com meus 18 anos de idade, sem maturidade, com uma vida bem tumultuada, tinha acabado de me mudar para Santos-SP, trabalhava num restaurante com minha mãe, estudava pela manhã e só queria saber de farra, confusão, etc.

Quando na escola conheci o Márcio, colega de classe também agitado como eu, mas via nele a cada dia mais uma calmaria. Quando depois de nos aproximarmos ele disse que iria confessar que fazia uma arte marcial e que sempre sentia algo diferente quando falava nela, mas tinha vergonha de falar com os colegas de classe. Um dia insisti de ir com ele assistir uma aula. Quando vi, fiquei intrigado: nossa! Como um professor tão pequeno (Tamotsu Sensei) poderia fazer isso com um homem tão alto e grande como o Elídio?! No fim da aula fui recebido pelo Sensei Osmar, homem alegre que de imediato disse: você é amigo de Márcio? Venha treinar conosco, você vai gostar. Como um jovem imaturo, pensei: vou fazer essa arte marcial e assim ninguém vai se meter comigo daqui em diante.

Comecei a treinar, sempre revezando as aulas entre Sensei Tamotsu e Osmar e assim fui automaticamente me distanciando das ruas, confusões, e junto com meu colega de escola melhorando nos estudos, e o melhor de tudo: fazendo novas e verdadeiras amizades, sem segundas intenções.

Mas nem sempre tudo são mil maravilhas: com minha mãe desempregada e eu também, tinha que parar o Aikido e mais uma vez tive a prova de que o Aikido não era uma simples academia de arte marcial, e sim uma nova família. O Sensei Osmar e Tamotsu liberaram minha contribuição até que eu pudesse arcar com as mensalidades novamente, e assim foi por mais alguns meses até que por obra do destino tivemos que sair de Santos, parte de minha vida que não gosto nem de lembrar.

Com tudo isso, fiquei afastado do Aikido por mais de 15 anos, mas com certeza a semente havia sido plantada, precisando somente ser cultivada para crescer. A vida tem dessas peças... trabalho, família... nessa rotina toda de trabalho no turismo vim parar na Bahia, mais especificamente em Itabuna. Depois de me estabilizar profissionalmente, comecei a procurar cuidar do pessoal. Precisava de alguma atividade física; começava algo, mas nada me prendia, até que passei na frente de uma academia e vi escrito “AIKIDO”. Nossa! Vi o filme de minha vida toda em minha mente, o quanto me fazia bem... Demorei ainda um bom tempo para ir assistir uma aula, pois tinha que organizar minha vida pessoal, pois iria entrar para não sair mais!

No dia que assisti à aula senti logo uma paz interior, que não sabia como explicar para a minha esposa, só dizia que iria fazer. Fui recepcionado pelo Sensei Rodrigo, e numa breve conversa combinamos de eu começar.

Primeiro dia de aula, bases iniciais e etiqueta e com isso em minha mente vinha o passado no presente. O corpo em estado de êxtase! A cada Tenkai Ashi sentia uma energia tão boa que não cansava de repetir. Nessa mesma época que comecei tinham ainda outros iniciantes, e com eles fui criando uma amizade que não entendia, pois é como se já nos conhecêssemos há muito tempo. A cada aula que passava, mais ainda sentia minha alma leve.

Numa bela noite conheci pela primeira vez o professor Henrique. Nossa! Como se fosse há 19 anos, aula super dinâmica e intensa, e no fim da aula eu com o corpo exausto, mas com o espírito alegre e feliz... não conseguia entender. Chegando em casa comecei a lembrar da aula e a comparação foi espontânea: Sensei Rodrigo, homem com uma postura japonesa que exigia os pequenos detalhes do Aikido e tudo isso com uma energia impressionante; professor Henrique, com seu jeito mais ocidental, sempre exigindo físico e postura, mas sempre com um toque de humor. Duas energias que juntas transformavam o dojo, no meu entendimento, num plano superior que a cada dia me prendia ainda mais! Sentia então o mesmo que senti com os Sensei Tamotsu e Osmar.

Com o passar das graduações, comecei a enxergar a vida com outros olhos, e também a me portar de outra maneira. Vi a importância que a família tem, comecei a ter uma percepção sobre as atitudes que tomava e tomo sobre minha vida e dos outros à minha volta.

Hoje, com o pouco conhecimento que tenho sobre o Aikido, posso dizer que seus lemas têm, não só haver com a arte marcial em si, mas com certeza com o nosso dia a dia. Destaco alguns que para mim eram muito difíceis, e hoje consigo tranquilamente exercer como: “Não se enervar”, “Não possuir sentimento hostil”, “Ser Compreensivo” e “Conscientizar-se de que a prática do Aikido tem por princípio o autoconhecimento”. Esse último, em especial, pois a cada dia procuro me conhecer melhor.

Agradecimentos

Agradeço de coração, primeiramente à minha mãe Maria Marta, que sempre me incentivou e me ensinou a ser o homem que sou; à minha esposa e filhas pelo apoio sempre: amo vocês!

Não poderia deixar de agradecer aos Sensei Tamotsu e Osmar pela semente plantada, ao colega Márcio, que me levou para o Aikido, onde quer que esteja; aos instrutores que vieram para abrilhantar nossos seminários durante esses anos: Sensei Alexandre Bull, Edgar Bull, Matsuda, Alexandre Borges, e aos amigos Marcos e Fabi. À minha família Naikan, em especial aos irmãos que começaram comigo no Aikido, e que com certeza iremos muito longe: João Paulo, Fernanda, Durval, João Henrique, Moisés, Eduardo, Franklin... Não poderia de deixar à parte o meu agradecimento aos Sensei Rodrigo e Henrique por toda paciência e dedicação. Domo Arigato Gozaimashita!
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Aikido: a busca da verdade

maio, 2013 | rodrigo mesquita
O Nidai Doshu, Kisshomaru Ueshiba Sensei, nos disse que de todas as artes marciais o Aikido talvez fosse a mais rígida, pois focalizava-se na busca da verdade. Para mim, isto define muito bem o Aikido. Mas, o que é a verdade? E como uma prática marcial pode conduzir uma pessoa à verdade?

Em muitas correntes esotéricas, filosóficas e místicas a verdade é considerada a realidade última, o Imanifesto, às vezes chamado de Deus. De forma geral e sintética, muitos desses conhecimentos se reafirmam: o Um gerou o Dois, o Dois gerou o Três, e daí por diante. A Unidade Transcendente manifestou-se de forma dual, e esse é um pilar da criação. Gosto de pensar que o estudo profundo do Aiki é o estudo da dualidade, e sua compreensão completa torna aquele que a possui realizador em potencial de todas as coisas. Especulo ainda, que aquele que atinge o âmago do binário, compreende (ou começa a compreender) a Unidade, uma vez que In e Yo são dois lados de uma mesma moeda; e a essência do binário é a unidade.

Agora, como uma simples pessoa pode atingir essa Unidade Transcendental através dessa prática marcial? Bom, vamos esboçar uma tentativa de resposta para essa pergunta... Um dos lemas do Aikido condensados por Ueno Sensei é "Conscientizar-se de que o Aikido é um dos caminhos que levam à Deus". É difícil para nós, ocidentais, imaginar como uma prática marcial pode conduzir uma pessoa à Deus, ou seja, à realidade última. Comecemos pela frase gravada no Oráculo de Delfos: "(...) homem, conhece a ti mesmo e conhecerás os Deuses e o Universo". Em seguida temos outro lema de Ueno Sensei: "Conscientizar-se de que a prática do Aikido tem por princípio o auto-conhecimento". Sabemos também que a maioria dos sistemas/práticas que tem por foco a evolução espiritual do ser humano, são inteiramente, ou parcialmente, baseados no auto-conhecimento. Começamos a divisar então, que no Aikido, a porta de entrada para este caminho que leva à Deus é o auto-conhecimento, embora, saliento, isto seja só a ponta do iceberg. À partir daí, vamos começar a montagem desse quebra-cabeças.

É bem sabido que o treino de Aikido, se conduzido de forma apropriada, aumenta exponencialmente a intuição e outras capacidades latentes do praticante, permitindo o desenvolvimento interno do mesmo de forma vasta e ininterrupta, concedendo-o, assim, ferramentas indispensáveis na busca da verdade. Quando atinge a faixa preta, o praticante deve começar a utilizar essas capacidades para trabalhar seu próprio desenvolvimento no caminho, percebendo, com esse auxílio e o direcionamento que o Sensei lhe dá, seus erros e acertos, e se auto-aperfeiçoando à partir daí. Agora, o que viria a ser essa "forma apropriada" de treinar Aikido? O O-Sensei nos diz que ao praticar devemos analisar o que estamos fazendo. Wagner Sensei diz que é necessário treinar buscando se conscientizar dos princípios e razões que fizeram com que aqueles exercícios e técnicas fossem criados. E estes são apenas alguns dos indicativos a seguir. Segue um excerto do O-Sensei sobre a forma apropriada de se praticar:

"O Aikido é um caminho para a verdade e seu treino deveria ser entendido como tendo o objetivo de encontrar a verdade. Na disciplina do Aikido, quando você treina arduamente, pratica sabiamente e analisa o que está fazendo, o Kami Waza surgirá.
No Aikido, quando você treina da maneira descrita a seguir, seu corpo absorverá o poder da verdade imutável:

1. Treine para harmonizar sua mente com os movimentos do Universo;
2. Treine para harmonizar seu corpo com os movimentos do Universo;
3. Treine para harmonizar seu Ki, que une mente e corpo, com os movimentos do Universo.

Somente aqueles que são capazes de treinar nesses três modos ao mesmo tempo, não na teoria, mas no dojo e em sua vida diária, podem ser chamados de praticantes de Aikido.

(...) Treinar o corpo requer primeiramente que a pessoa trabalhe e prepare tanto a mente como a alma de modo completo. Em seguida, ela deve polir, ou limpar, e purificar a vitalidade do Nen (sentido ou sentimento) e finalmente unir o corpo e a mente. Desse modo, cria uma base da qual pode surgir infinitas Waza (técnicas).

(...)Preferencialmente, o Nen encontra sua raiz na conexão apropriada do Ki da pessoa com o Ki do Universo, e cresce à partir daí. Nesse nível, o Nen dá origem a poderes mais que naturais. Como resultado, a pessoa adquire o poder de perceber claramente o menor movimento de seu oponente. Esse é o estado de Meikyo Shisui (uma mente clara que reflete como as águas calmas)."

Doravante, percebemos que a simples repetição das técnicas, e a simples freqüência ao treino, mesmo durante anos, não são suficientes para progredir corretamente no caminho. Claro, há sempre que se considerar que cada um tem seus motivos para treinar, embora isso me pareça, a priori, mais um subterfúgio, pois, se alguém não conhece algo e decide que quer aprender esse algo, mas utilizando apenas uma parte que julga saber ser o melhor para si - considerando ainda que essa pessoa muito provavelmente não conhece nem a si de forma razoável - isso me parece um simples caso de arrogância e impertinência. Por isso acredito que a postura daquele que busca é ser totalmente receptivo, sem "mas" nem "porém". Quem não sabe, e quer saber, não pode se arrogar o luxo de dar palpites em "como" virá a saber. Por isso a escolha de um bom mestre, a quem se possa confiar sua própria vida, é fundamental.

O Universo dotou o ser humano com diversas capacidades; se utilizamos e estimulamos apenas algumas delas, isso será um verdadeiro desperdício. Claro, não há dúvidas de que a intuição tem papel fundamental no desenvolvimento do praticante Yudansha, mas, também o têm a reflexão, e em menor grau, o raciocínio. Alguém disse uma vez "(...) é necessário conjugar o rigor do raciocínio com a intuição e a inspiração." É nossa mente objetiva, fazendo uso da lógica e do raciocínio, que é capaz de duvidar, equacionar, fundamentar, investigar aquilo que estamos fazendo. Um praticante que não tem dúvidas sobre sua própria técnica, que não se coloca em cheque, pára de evoluir. É necessário ter um sincero e ardente desejo de evoluir, de aprender tudo quanto seja possível, testar as mais variadas formas de uma mesma técnica e avaliar paulatinamente cada uma delas para conhecer seus pontos fortes e fracos. Repetir, repetir, repetir, até à exaustão. Não há que se confundir essa postura com insegurança, algo que do nível de Shodan para cima, tende a ir diminuindo com o progresso do praticante. Hoje em dia é comum as pessoas terem em alta conta suas próprias idéias e conceitos - inclusive sobre si mesmas - de forma que os defendem com "unhas e dentes", não pela verdade que possa haver nestes, mas por uma pura questão de ego. Uma pessoa razoavelmente madura deve ser capaz de abrir mão de suas próprias idéias quando percebe que existem idéias mais bem fundamentadas ou que correspondam melhor à verdade. Da mesma forma, é necessário pensar sobre nossa execução técnica e evolução no caminho com sinceridade, o que podemos melhorar, como podemos melhorar, o que está ficando razoavelmente bom, o que está ruim, por que está ruim, etc. Obviamente as coisas começam no nível físico, mas se expandem ao psicológico e emocional, e muitas vezes falhas cruciais que impedem uma execução e prática perfeitas (ou mais próximas à isso) têm sua origem nestes campos. Há ainda que se investigar e estudar cuidadosamente a literatura - que graças ao Sensei Wagner é bastante extensa em nossa língua - pois sem conhecer a origem do Aikido, a vida do Fundador, os princípios e origens por detrás de toda execução técnica, para apenas falar no básico, fica impossível se chegar a algum lugar. Bom, essas capacidades mentais, por estarem ligadas à mente objetiva e aos sentidos físicos, têm grande propensão ao erro, ao sofisma, embora, ao meu ver, não seja o erro/acerto por detrás delas o que verdadeiramente importe, e sim o simples fato de utilizá-las para auto-investigação, para o auto-conhecimento de que nos fala Ueno Sensei.

A consequência do exercício dessas capacidades da mente objetiva, de certa forma, é a reflexão. Reflexão é o movimento de volta sobre si mesmo, ou movimento de retorno a si mesmo. O praticante tem de ter a capacidade de refletir, ou, se não a tiver, ela deve ser estimulada pelo seu Sensei. Alguns encaram a reflexão como função da mente objetiva, outros, porém, a percebem de forma intermediária entre a mente objetiva e o inconsciente. Uma boa reflexão, ou até mesmo uma autêntica reflexão, ocorre quando focamos nossa atenção em algo em particular, mas ao invés de ativarmos a mente objetiva e suas funções, a relaxamos e entramos num estado de atenção sem tensão, atentos para qualquer canto de onde possam advir as respostas que buscamos, seja da inspiração, da intuição, ou do aparente "acaso" que permeia todo o Universo, e que, para aqueles em constante estado de atenção, são nada além da Providência. A reflexão, ao contrário do raciocínio, nos traz clareza, nos faz ver as coisas de forma mais real, como elas realmente são.

A inspiração é, assim como o ato de captar o ar que nos rodeia para dentro de nós, trazer algo de fora para dentro. Esse algo pode ser uma emoção, um pensamento, uma energia, etc. Digamos, por exemplo, quando uma pessoa se sintoniza com um Kami em específico, com uma força, ela está inspirada por essa força, e age com a influência dela. O praticante deve sempre procurar inspiração na natureza e no Universo, buscando o estado de união com todas as coisas de que nos fala o O-Sensei.

Já a intuição é o tão falado sexto sentido, que advém da conjugação da naturalidade, do relaxamento e da atenção. À bem da verdade, a intuição está sempre lá, mas devido à má educação que temos em nossas vidas diárias, somos forçados a não lhe dar atenção, e com o tempo deixamos de percebê-la. É preciso ser natural, ou seja, seguir e deixar a natureza seguir seu curso natural, evitando o atrito, buscando agir conforme a água, sempre abraçando e se adequando à todas as coisas sem lhes oferecer resistência. Para ser natural, é necessário estar relaxado; esse relaxamento, na verdade, está intrinsecamente ligado ao estado de naturalidade. Para captar as "ondas" de intuição que temos é necessário a atenção. Devido a nossa má postura mental, rechaçamos qualquer intuição que nos chegue, e se acaso a percebemos, encaramos-na como um pensamento tolo, fora de lugar, ou improvável. A mente objetiva tenta abafar a intuição. Somente quando aquela intuição se confirma pelo desenrolar dos fatos é que de imediato retrucamos: "nossa, acabei de pensar isso!"

Todos esses pilares são fundamentais para uma forma apropriada de treinar Aikido. O raciocínio, a reflexão, a intuição e a inspiração. Agora, partindo da idéia de que estamos praticando de forma apropriada o Aikido, ou seja, como o Fundador preconizou e idealizou este Budo, conseguimos aos poucos fortalecer essas capacidades, para em seguida utilizá-las em nosso próprio benefício, no nosso desenvolvimento no caminho. À partir daí a capacidade de auto-introspecção do praticante começa a fluir, e ele deve começar a exercitar o que chamamos de Naikan, a percepção interior. Naikan é olhar para dentro, procurar perceber nossos mecanismos internos, como funcionamos em um nível mais profundo. Esse é o começo de um verdadeiro auto-conhecimento. Conhecer as molas e engrenagens internas que movem nossas ações no dia-a-dia, de onde surgem nossas emoções, onde estão ancorados nossos pensamentos, etc. Este é o ponto da leitura, da percepção e refinamento da atenção. O passo seguinte é o trabalho sobre si mesmo. O praticante deve prosseguir com a "limpeza" e correção. Este é o ponto do Mitama Migaki e Chitsujo Migaki, o polimento do espírito e o polimento da nossa percepção quanto à verdadeira ordem natural das coisas. Este é um ponto extremamente delicado, pois o praticante que se aventura de forma despreparada aqui poderá incorrer em erros que acarretarão grave dano para si mesmo. Faz-se indispensável a condução e acompanhamento do mestre neste passo, uma pessoa que já chegou neste ponto e que está familiarizado com ele, sendo capaz de guiar de forma segura o praticante no caminho. Muitas vezes o aluno não compreende o comportamento do Sensei para com ele, porém, este sabe com precisão como trabalhar o ego de seu aluno.

O resultado do início deste trabalho é o desembaraçamento mental. O praticante enfim começa, aos poucos, a se libertar dos grilhões do ego, e vai se encaminhando para a Unidade. A harmonia começa enfim a se manifestar não apenas em sua técnica, mas em toda a sua vida. Uma coordenação altamente desenvolvida aparece como resultado direto  dessa harmonia, coordenação que abrange não somente o físico, mas o emocional e o psicológico, além do aperfeiçoamento da conjunção dos três. Este trabalho interno unido à prática constante, árdua e disciplinada leva ao equilíbrio dos corpos físico, emocional, mental e espiritual, como disse O-Sensei: "Ki no Myoyo (o uso elevado do Ki) permite que os indivíduos harmonizem seu corpo e mente, assim como permite que alcancem a harmonia com o Universo mais amplo." Então, principiamos pela prática das técnicas, que em si encerram princípios e mecanismos da verdade, e que embora possamos ignorá-los e desconhecê-los, ainda assim surtem seus devidos efeitos - embora seja indubitável que se conhecermos a realidade por detrás destes princípios e mecanismos, sua prática seja infinitamente superior em termos de benefício para o praticante. Essa prática desperta nossa sensibilidade interna, ao mesmo tempo que pacifica, equilibra e "alinha" nossos corpos, conduzindo-nos assim ao auto-conhecimento. Avançando com o auto-conhecimento, nos direcionamos à unidade de nosso próprio ser. Uma vez em unidade, ligamo-nos ao centro Universal, e começamos a reverberar com todo o Universo, e aí, em minha opinião, deve principiar a compreensão da Unidade. À partir disso, o caminho segue na dimensão espiritual.

O Aikido é um caminho tão vasto quanto o é a capacidade de desenvolvimento do ser humano. Sabemos por muitas histórias e exemplos do quão baixo e do quão alto o ser humano pode alcançar no curso de uma vida. O Kaiso foi, até agora, a pessoa a atingir o mais alto grau de desenvolvimento neste caminho, mas, como ele mesmo disse, não foi ele quem criou o Aikido, ele apenas nos apresentou-o. Como disse antes, conhecer tamanha dádiva e não realizá-la em todo o seu potencial (ou pelo menos se esforçar com esse intuito), seria um grande desperdício, uma pérola atirada ao lixo.
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Aikido na visão dos iniciantes

OUTUBRO, 2009 | rodrigo mesquita
Muitas vezes, visitantes chegam em nosso dojo interessados em conhecer e praticar o Aikido. Nessas ocasiões, pedimos sempre à eles que primeiro assistam à uma aula completa, para só então decidirem se é aquilo que procuram. Por vezes, ao fim de uma aula, tais visitantes me interpelam com comentários do tipo “Entendi. Trata-se de torções nas articulações e desequilíbrio do oponente, não é mesmo?”, ou “Parece legal, mas minha dúvida é a funcionalidade disso nas ruas.” e comentários por aí a fora.

De fato, o que ocorre é que pouquíssimas pessoas - ou quase ninguém - consegue ter um vislumbre do que é realmente o Aikido em um primeiro contato com a arte, daí o motivo de julgamentos como os que citei. À bem da verdade, tenho poucos anos de treinamento desde que conheci esta arte, e o que percebo é que desde que entrei no dojo de meu primeiro professor até o presente momento, minha ideia sobre o que de fato é o Aikido já mudou diversas vezes. Obviamente que a grande diferença de percepção ocorreu na primeira dessas mudanças, quando eu ainda era 3o kyu, e de lá para cá tem sido mais uma espécie de aprofundamento do que de mudança.

A primeira aula que assisti de Aikido foi interessante, mas nada absurdamente diferente das artes marciais que já havia praticado até então. Foi então que meu antigo sensei fez, ao final da aula, um Jiyu Waza (vide glossário) contra três de seus alunos. Olhava aquilo de forma incrédula e ao mesmo tempo surpreso. Ao vê-lo se desvencilhando de todos os ataques como se aquilo não fosse nada, e vencer os três oponentes com a tranquilidade de quem enfrenta apenas um único e fraco oponente, eu tive a certeza de que aquela era a arte marcial que eu procurava. Não precisava sondar muito fundo em meu coração para saber que o que eu queria naquela época era ser capaz de subjugar um grande número de oponentes com alguma espécie de “técnica incrível”.

Então, como fazer com que um iniciante (ou visitante) entenda corretamente, ou pelo menos tenha uma vaga idéia do que realmente é o Aikido? Embora paradoxal, a verdade é que não acho que isso seja possível. Pelo menos, não de forma satisfatória. A minha opinião neste momento é, na realidade, bem simples: Aikido é um DO (caminho), e um caminho só pode ser compreendido se ele é trilhado, passo após passo. Claro que temos a tendência a achar que, como bons ocidentais e “teóricos de tudo” que somos, podemos sempre estudar, criar tratados e falar de todas as coisas, mas acredito que isso está longe de ser uma real compreensão dessas coisas. Alguns sábios explicam isto afirmando uma diferença entre os vocábulos saber/conhecer e compreender. Não pretendo entrar neste mérito, mas apenas tomar este conhecimento emprestado para dizer que quando se sabe ou se conhece algo, não necessariamente se compreende aquela coisa. Por exemplo: teorizar e conjecturar sobre o fenômeno da chuva pode fazer com que você saiba e conheça sobre o assunto chuva, mas somente sentindo a chuva é que se pode compreender o que é a chuva. Então, a prática, aliada ao tempo, faz-se completamente necessária para que uma correta compreensão sobre o Aikido possa surgir no praticante. Não obstante ache que não seja possível um iniciante compreender o que é o Aikido com apenas algumas aulas, isso não me impede de me esforçar para que isto possa acontecer.

Para começar a esclarecer tudo isto, gostaria de recorrer ao que o próprio Fundador, Morihei Ueshiba, dizia:

“Aikido não é uma técnica para lutar com um inimigo ou derrotá-lo. É o caminho para reconciliar o mundo e fazer dos seres humanos uma família. O Aikido necessita de uma mentalidade que ajude na paz de todos os seres humanos do mundo, e não de uma mentalidade daquele que deseja ser forte e que treina apenas para derrubar um oponente.”

Voltando um pouco no tempo, vemos que o Fundador começou ensinando Daito-ryu Aiki Jujutsu, e que só após a guerra o termo Aikido começou a ser utilizado. Nessa época, a arte do Fundador já era completamente diferente do Daito-ryu, e devido ao seu intenso contato com Onisaburo Deguchi, co-fundador da Oomoto Kyo (religião de preceitos xintoístas), sua arte se tornava cada vez mais e mais embebida pela sua maturidade espiritual. O-Sensei conta que três experiências espirituais marcaram a vida dele, e acredita-se que elas tenham culminado no que hoje conhecemos como Takemussu Aiki, uma forma mais “madura” do Aikido que Ueshiba inicialmente criou.

O Aikido, como o Fundador o idealizou, tem uma finalidade claramente espiritual. Ele não trata de um Bu-jutsu, ou seja, de uma ferramenta de guerra. Aikido é um Budo, um Caminho Marcial. Uma vez, um grande professor me disse que a grande visão do Fundador foi criar um caminho espiritual utilizando como ferramenta para se atingir a iluminação uma disciplina marcial, e acredito que isso defina bem as coisas. Através de BU (marcial), trilhar um DO (caminho) que nos conduza à harmonia com o Universo. Daí o que o Fundador sempre dizia:

“O segredo do Aikido é nos harmonizar com o movimento do Universo e trazer-nos em unidade com o próprio Universo. Aquele que obteve o segredo do Aikido tem o Universo em si mesmo e pode dizer: ‘Eu sou o Universo.’

Eu nunca sou derrotado, por mais rápido que o inimigo possa atacar. Não é porque minha técnica é mais rápida do que a do inimigo. Não é uma questão de velocidade. A luta é finalizada antes mesmo de já ter começado.

Quando o inimigo tenta lutar contra mim, o próprio Universo, ele precisa quebrar a harmonia do Universo. Por isso, no momento em que sua mente está focada em lutar comigo, ele já está derrotado. Não existe nenhuma medida de tempo - rápido ou devagar.

Aikido é não-resistência. Como é não-resistente, é sempre vitorioso. Aqueles que tem uma mente conturbada, uma mente de discórdia, já foram derrotados desde o começo.

Portanto, competir nas técnicas, ganhar ou perder, não é o verdadeiro Budo. Verdadeiro Budo não conhece derrota. ‘Nunca derrotado’ significa ‘nunca lutando.’”


Para nós ocidentais pode parecer no mínimo estranho o fato de utilizar uma ferramenta que normalmente é feita para guerra com uma finalidade espiritual, mas é como diz o ditado “a sabedoria não está nas palavras daquele que fala, mas sim no ouvido daquele que escuta”. Uma palavra em si não carrega nada de sabedoria. É a pessoa que a percebe que enxergará ou não a sabedoria contida nela. As artes marciais surgiram como disciplinas secretas ensinadas em meios e contextos espirituais/religiosos, e só depois que acabaram sendo “desligadas” em parte desse contexto.

É verdade que, como na maioria das artes marciais, as técnicas do Aikido, sem exceção, possuem um Riai, ou seja, uma razão lógica pela qual as mesmas funcionam. Porém, Aikido não é algo para se aprender fazendo uso da razão, e sim do sentimento. Essa é a razão pela qual uma pessoa que pensa demais tem mais dificuldade de aprender Aikido do que uma pessoa que, intuitivamente ou não, “desliga sua mente” e apenas sente.

No Aikido não se neutraliza o atacante, como em muitas artes marciais, mas sim o ataque. Neutralizado o ataque, conduzimos o atacante ao Kannagara no Michi (caminho de Deus). Não visamos destruir os inimigos, mas sim construir uma grande família. Percebemos vida e morte diante de nossos olhos constantemente, livrando-nos do desapego e da ideia fixa de vencer/sobreviver à qualquer custo, e atingimos a unificação com o Universo e com Deus. Essa é a ideia e o ideal por trás da execução técnica do Aikido, porém, para se perceber isso é necessário tempo, e caminhar sempre um passo após o outro.

Respondendo às perguntas dos visitantes: não, não se trata de torções e desequilíbrio, trata-se de algo muito mais profundo. Sim, Aikido é extremamente funcional em situações de conflito, e isso foi demonstrado inúmeras vezes pelo próprio Fundador, que por diversas vezes foi desafiado por grandes oponentes, nunca tendo sido vencido. Porém, na prática atual muito se perdeu, e hoje são poucas as escolas que mantêm a qualidade marcial do Aikido. A Confederação Brasileira de Aikido, através de seu presidente, o Shihan Wagner Bull, busca, entre outras coisas, resgatar esta qualidade marcial.

Às vezes brinco com os iniciantes no dojo dizendo para eles que para saberem de fato se eles gostaram ou não do Aikido, primeiro eles têm de ter uma idéia do que é Aikido, e para ter essa idéia leva cerca de uns dez anos. “Então (...)” - eu falo para eles - “primeiro treinem durante uns dez anos, para depois decidirem se querem ou não treinar Aikido.”

Isso é o que eu consegui compreender até aqui sobre o Aikido. Procuro sempre deixar claro para os visitantes em nosso dojo que a finalidade do Aikido é espiritual, através de um meio marcial, mas não obrigo nenhum aluno à seguir isto. Isto é uma escolha que cabe individualmente à cada praticante. O Aikido, além da finalidade que lhe é inerente, também pode ser utilizado como um ótimo exercício físico, como atividade de lazer, ou apenas como uma arte marcial (visando defesa pessoal). Cabe aos instrutores de Aikido respeitarem e orientarem seus alunos de acordo à escolha de cada um.
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Reigi Saho: a etiqueta e o Caminho marcial

OUTUBRO, 2009 | Diversos autores
Reigi Saho é traduzido normalmente como “forma de conduta”, ou “etiqueta”, e pode ser uma das áreas mais difíceis da vida japonesa a ser apreciada por pessoas de outras culturas. O entendimento do contexto cultural do Reigi Saho nos leva a considerar a sua prática como uma parte integrante do Aikido, tornando nossa experiência na arte mais significativa.

O dojo de Aikido segue rigorosamente as regras tradicionais da boa conduta. Este espírito provém diretamente do Fundador do Aikido, e cabe a cada estudante honrá-lo e segui-lo com sinceridade. Quando você entra em um dojo, entra em um universo diferente. O dojo é um lugar de respeito, de atmosfera amistosa, de camaradagem e confiança. Quando estamos no tatami, atacamos e somos atacados constantemente, aprimorando a nossa capacidade de responder intuitivamente à situações conflitivas. É a corrente subjacente de etiqueta e comportamentos sociais que nos permitem disciplinar-nos, praticar em segurança, e redirecionar as reações agressivas, desenvolvendo sentimentos de compaixão e respeito.

O-Sensei uma vez disse: “Aikido não é uma técnica para lutar com um inimigo ou derrotá- lo. É o caminho para reconciliar o mundo e fazer dos seres humanos uma família. O Aikido necessita de uma mentalidade que ajude na paz de todos os seres humanos do mundo, e não de uma mentalidade daquele que deseja ser forte e que treina apenas para derrubar um oponente.”

No Budo, o Reigi Saho tem uma importância fundamental. Para o praticante ocidental, com tradições culturais diferentes das orientais, a exigência da reverência nas artes marciais japonesas é um comportamento que lhe é estranho, e que por vezes adquire um caráter tão somente de obrigação. Todavia, qualquer arte marcial pressupõe a existência de uma severa disciplina na sua execução e aprendizagem; não se pode conceber uma arte oriental sem etiqueta. Diz-se que a arte marcial japonesa começa e termina pela delicadeza e respeito mútuo, indispensáveis à elevação da personalidade.

O dojo deve ser um local onde se desenvolve uma personalidade equilibrada, com qualidades como a humildade, a lealdade e a cortesia. Onde o caminho a se percorrer deve ser o de um conhecimento cada vez mais profundo de si mesmo, e onde é importante ter presente o significado da reverência, da cortesia e da etiqueta. Dessa forma, o dojo deve representar um lugar “sagrado” para os praticantes, no qual se busca a unidade Ki-Kon-Tai (Energia-Mente-Corpo), e posteriormente, a unidade com o Universo e com a obra divina como um todo.

Sempre que entramos num dojo reverenciamos (cumprimentamos) o local como um lugar especial, demonstrando nosso respeito pelo mesmo e também nossa humildade e sinceridade. Deixamos pensamentos hostis e negativos que trazemos do mundo exterior da porta para fora, adentrando o local com nossos corpos e mentes o mais limpos possíveis. Devemos também realizar a reverência, em direção ao Kamiza, ao entrar e sair do tatami, demonstrando o nosso respeito à prática que ali se desenvolve.

Como dito anteriormente, algumas pessoas podem, a princípio, se sentirem incomodadas com as reverências existentes na prática do Budo. Em muitos casos, isso se deve às crenças pessoais que o praticante acredita serem conflitantes com tais regras e exigências. À estas pessoas, sempre recomendamos que, ao realizarem a reverência ao Kamiza, tenham apenas em mente o respeito e a gratidão ao Fundador da arte, se abstendo de qualquer idéia de cunho religioso-espiritual que lhe incomode. É realmente sabido o fato de que o Fundador era um devoto xintoísta, mas ele nunca exigiu que seus alunos reverenciassem ou acreditassem nos Kami (Divindades) que ele reverenciava. Ele esperava, entretanto, que os mesmos sempre observassem o Reigi Saho, como forma de se auto-aperfeiçoarem enquanto seres humanos. Respeito, gratidão e humildade nunca são demais, e são virtudes que devem ser trabalhadas por todos, independentemente de credo ou religião.

Susan Perry, uma das responsáveis pela revista Aikido Today Magazine, conta que quando começou a treinar Aikido na década de 60, havia protestos contra direitos civis, contra guerras, e rebeliões culturais as quais apoiava. E ela também era contra a severa etiqueta asiática no dojo de Aikido em que treinava. Até mesmo a revista que começou a editar, começou como um protesto à visão que então ela julgava como egoísta e centralizadora no Aikido. Ela queria a abertura e a liberdade que a filosofia da arte prometia. Seu protesto não foi muito bem aceito pelo seu professor daquela época, e posteriormente ela deixou sua organização, como é típico dos espíritos mais rebeldes e resistentes à hierarquia. No editorial que escreveu revendo a sua trajetória no Aikido, percebeu de forma inteligente e conclusiva depois de amadurecer, como ela era uma aluna particularmente irrequieta e problemática. Este editorial foi publicado na revista Aikido Today Magazine, no 85. Ela conta:

“Certa vez, por exemplo, logo depois de ter sido promovida à Shodan, cortei as tiras do meu Hakama e usei velcro para tornar a vestimenta mais fácil de tirar e colocar. Os meus Senpai ficaram horrorizados.

Eu amava o Aikido, mas era resistente em absorver o significado por trás daquela etiqueta rígida que me era pedido a fazer. Tendo me rebelado contra a etiqueta da minha própria cultura, eu não queria aceitar seguir cegamente a de uma outra, especialmente se aquilo significasse ficar fazendo gestos vazios. Eu creio que eu era uma aluna que queria o treino físico do Aikido e nada mais.

Concomitantemente, como estudante de filosofia, eu estava escrevendo uma dissertação de doutorado na teoria da moralidade de Aristóteles. Por isso, interessava-me muito a idéia de que o Aikido pudesse fazer uma pessoa melhor. A tese que eu elaborava na teoria de Aristóteles sobre a virtude fez com que eu abraçasse a visão de que uma atitude conveniente emanaria naturalmente de um coração bom e sincero. Eu tinha em mente que se os movimentos do Aikido pudessem nos dar este coração, todos estaríamos muito bem encaminhados na solução de certos problemas mundiais.

Eu sabia que a forma de pensar de O-Sensei era de que o Aikido nos faria pessoas melhores. Por isso, durante muitos anos eu perguntei insistentemente aos instrutores: “Os movimentos do Aikido tornam as pessoas boas?” É verdadeiro que as técnicas físicas do Aikido certamente podem polir uma pessoa até certo ponto: o Aikido pode treinar uma pessoa desajeitada para que se torne mais graciosa, as exigências do treinamento podem disciplinar e clarear uma mente conturbada ou abarrotada e a prática pode fazer surgir o manso e suavizar o rígido. Portanto, por si só, o treinamento físico do Aikido tem um poder transformador, e quanto a isto não existem dúvidas. Só que as mudanças descritas acima não são suficientes para tornar uma pessoa boa. Pessoas ruins também podem ser graciosas, determinadas, abertas, vigorosas e calmas. Não é difícil encontrar pessoas que têm estudado Aikido durante décadas e nas quais se pode observar que a prática das técnicas do Aikido não provocou nenhuma mudança profunda em sua personalidade e modo de agir. Poderíamos dizer, então, que o Aikido não funciona como instrumento para tornar a pessoa melhor? Ou então que o O-Sensei não tinha uma noção realista do potencial do Aikido? Poderíamos diante desta constatação manter a idéia de que o Aikido é mais do que apenas a sua técnica física? Se for assim, o que existe de fato então para provar o que o Aikido tem atrelado a ele?

Durante a era dos samurais, as escolas de artes marciais desenvolviam certas virtudes em seus alunos. Sem as virtudes como a coragem e a lealdade um guerreiro não era de grande valia para seu senhor. Nos locais de treino era comum encontrar pergaminhos que descreviam os códigos de conduta. Certa vez, meu professor pintou uma lista de “O que pode e o que não pode ser feito” na parede do seu dojo, em local onde todos pudessem ver todas as vezes que entrassem na área do tatami. Alguns dojo entregam uma lista de “regras do dojo” aos novos alunos, tais como: “não sente com as costas voltadas para o Shomen” ou “bebidas e comida não são permitidas no tatami”. E, é claro, existem até os livros que tratam da etiqueta comumente seguida nos dojo de Aikido. Para aqueles que visitam outros dojo, ou participam de seminários e encontros patrocinados por outros grupos, um profundo conhecimento da etiqueta das artes marciais é importante. Aqueles que se mantêm alheios quanto às regras do comportamento aceitável ficam em evidência de forma reprovativa, como ficariam se não soubessem vestir seus Keikogi.

Aprender o comportamento adequado para participar dos círculos do Aikido é a parte fácil do treinamento, qualquer um com um pouco de boa vontade pode fazer. Assim como os movimentos físicos e as técnicas, o tipo de etiqueta que tenho em mente segue certas formas. Um aluno mais esperto pode facilmente memorizar a etiqueta básica. É preciso ficar claro e que todos tenham consciência que este tipo de etiqueta, “da boca para fora”, por si só, não fará deles pessoas melhores. Como diria Aristóteles, podemos imaginar uma pessoa impecavelmente culta com desejos malignos. Mas, talvez, aprender a etiqueta seja um primeiro passo necessário, o “ponto de partida”. Assim como para o aprendizado dos movimentos das mãos e do trabalho de pernas de uma técnica precisamos nos familiarizar com a forma antes de começar a dominar o sentimento da técnica, talvez, do mesmo jeito, tenhamos que aprender como nos comportar adequadamente antes de realmente podermos entender a atitude que naturalmente nos causaria tal comportamento.

As lições de etiqueta são ensinamentos que visam a adequação, aquilo que é apropriado, são como as técnicas básicas, que servem para colocar no “coração” os movimentos do Universo, são um “Kihon” mental e emocional. A placa do estabelecimento de um chaveiro no Japão tem o caractere “Ai” (harmonia); pois para que a chave funcione, ela precisa encaixar na (harmonizar com a) fechadura. O mesmo é verdadeiro no Aikido, nossa energia e forma precisam se unir e se encaixar com a do nosso parceiro, para que possamos fazer a técnica corretamente. Aiki não é uma forma técnica ou um estado mental - é a relação de pessoas que estão funcionando juntas, movendo-se apropriadamente em relação umas às outras.

Portanto, Aiki é uma questão de enxergar através da visão do outro e implica em empatia. Expandindo nossa consciência de modo a incluir a consciência do nosso parceiro podemos nos colocar na sua posição, entender o que ele vê e perceber o que ele sente. Isso requer um certo esforço e imaginação, mas pode ser feito. E imagine só como o mundo seria se as pessoas fossem um pouquinho mais sintonizadas umas nas outras! Se houvesse mais compreensão, mais tolerância. O Aikido tem o poder de ajudar as pessoas a se tornarem obras-primas da humanidade, de fazer com que nos tornemos pessoas capazes de amar incondicionalmente, de sentir e expressar gratidão, de servir humildemente aos outros. E, em parte, este poder vem não apenas do treinamento de sua técnica física, mas esta compreensão acaba chegando também através da prática de sua etiqueta.

A etiqueta é o início do Aiki, e praticá-la é o início do treinamento na virtude. É uma outra forma importante de treinar o Aiki.”

Pode-se perceber que a autora era o tipo de pessoa que chegava em um dojo perguntando em voz alta e de forma altaneira “Quanto que custa para treinar aqui?”, como se o dojo fosse uma empresa, e se pudesse comprar as técnicas do Sensei por um certo preço. A mensalidade, em um dojo de Aikido, não tem o caráter de contra-prestação; ela é uma das formas de demonstrar a gratidão do aluno para com seu Sensei, auxiliando nos custos para manter a estrutura física do dojo.

O treinamento em um dojo tradicional vai modificar a personalidade do praticante, sua maneira de pensar, seus hábitos, sua forma de encarar o dia-a-dia, realmente é a vida do praticante que está em jogo. Os instrutores dos dojo de Aikido devem exigir rígido comportamento de etiqueta dos alunos, pois entendemos que isto faz parte vital do Aikido tradicional, e sem esta atitude não existe transformação, e o “Do” não pode ser atingido.

A prática do Aikido é um exercício marcial, combativo, porém, com um total espírito de conciliação, buscando a vitória pela harmonização, pela paz, procurando esquecer as atitudes egoístas, e pensando sempre no grupo, e como sendo parte dele. É bem verdade que após dominar as técnicas básicas a prática se torna tão gratificante que também se torna um prazer e passa a justificar-se por si só, porém, seu significado é mais profundo e abrangente. O comportamento disciplinado e obediente do praticante de Aikido lhe permite conservar o equilíbrio correto em todas as situações. O aikidoka treina com seu companheiro com todo o respeito e consideração, pois considera-o como parte de si, sem ele não há treinamento. Emprestamos o corpo para que nosso companheiro possa treinar, logo, deve haver grande respeito, cortesia e agradecimento dentro de um dojo tradicional de Aikido. É exatamente por este motivo que, ao iniciarmos a prática com o parceiro, lhe pedimos "por favor" (onegai shimasu), assim também como agradecemos ao final da prática, lhe dizendo "domo arigatou gozaimashita".

Ao mestre se deve o respeito e o agradecimento pela transmissão dos conhecimentos e pela sua dedicação e esforço em ensinar segredos que foram por muitos séculos restritos a minorias privilegiadas.

Quando um aluno ensina no dojo de seu professor, jamais deve se sentar exatamente em frente ao Kamiza, mas buscar uma posição ao lado esquerdo, para manifestar que respeita a autoridade e o conhecimento do mesmo. Da mesma forma, ao nos sentarmos no tatami ao lado de nosso Sensei ou de algum mestre de graduação elevada, jamais o fazemos de modo a ficar lado-a-lado, mas sim um pouco mais atrás.

O Seiza (forma correta de se sentar) é uma posição de retorno a si mesmo. Esta postura, que abre todo o cerimonial, tem por objetivo uma concentração prévia, onde o indivíduo torna-se uno com o Universo. Ela é a ruptura temporária do observador, do pensamento, onde o indivíduo apenas é, sem observar-se. O olhar é centrado e desfocado alguns metros à frente. A coluna fica ereta e o indivíduo sente seu centro, o Seika no Iten. Não se deve dobrar a coluna ao se curvar em um cumprimento, de forma a desalinhá-la com o eixo vertical que passa pela cabeça. O tronco e a cabeça devem estar alinhados corretamente ao executar o Ritsurei (cumprimento em pé) ou o Zarei (cumprimento sentado), com o corpo relaxado e, devemos manter um estado de alerta constante para qualquer movimento brusco daquele que nos cumprimenta. O Rei (cumprimento) nunca deve ser feito de forma displicente, mas sim com total atenção e concentração, demonstrando verdadeiro sentimento de gratidão e respeito.

A reverência (Rei) é parte integral da etiqueta oriental, substituindo o aperto de mão das sociedades ocidentais em quase todas as situações passíveis de comparação. No Japão, as crianças aprendiam a reverenciar antes mesmo que pudessem ficar de pé. Isso porque as mães tinham por hábito carregar seus bebês nas costas, fazendo com que eles, ainda que involuntariamente, reverenciassem todas as vezes que suas mães o faziam. Esta maneira de carregar um bebê não é mais tão usual no Japão de hoje, mas a reverência continua sendo o modo mais usado para se cumprimentar um ao outro. Visto que não moramos no Japão, e reverenciar não faz parte da nossa cultura, seria razoável perguntar por que devemos reverenciar quando estamos praticando o Aikido no Brasil? A resposta para esta pergunta é, primeiramente, que o Aikido é uma atividade cultural Japonesa, não existindo razão para descaracterizá-la. Segundo, a reverência é uma ótima maneira de demonstrar respeito, tão importante no Aikido quanto na vida. Quanto mais praticamos o Aikido, naturalmente mais respeito sentimos pelos outros, e reverenciar é uma maneira de expressar isso mantendo a estética da arte. No seu aspecto marcial, o Aikido demanda respeito mútuo entre os companheiros como reconhecimento da natureza de “vida ou morte” das técnicas que estão sendo praticadas, mesmo que a prática seja dentro do ambiente seguro do dojo. Do ponto de vista mental ou espiritual, mantém-se o respeito pelos companheiros discípulos do Caminho por seus esforços em realizar todo o seu potencial como seres humanos. A reverência ajuda a criar um ambiente para este trabalho interior. O sentimento ao se reverenciar é algo importante, e não há nada de humilhante ou degradante neste gesto, no qual todo nosso corpo e mente estão envolvidos em expressar gratidão e respeito. De fato, treinar um pouquinho de reverência é algo do qual todos nós ocidentais poderíamos nos beneficiar. Os verdadeiros mestres saúdam profundamente, de forma majestosa, porque toda sua experiência, seu conhecimento, sua humildade estão presentes em sua reverência.

O norte do Dojo é o Kamiza. No início de uma aula de Aikido tradicional, os alunos de graduação kyu se sentam em frente ao Kamiza, no Shimoza. Os alunos yudansha (faixa preta) se sentam no lado leste, no Joseki. O canto oeste é chamado Shimozeki. Com o começo da aula e, à ordem do Sensei, todos executam ao mesmo tempo o Kamiza Ni Rei e o Gassho (cumprimento que se faz com as mãos juntas), reverenciando à Deus e aos ancestrais da arte. Essa reverência à tradição passiva representa o respeito aos mestres que nos antecederam e à cadeia de transmissão do saber. Ela exprime o respeito pelas gerações anteriores, que nos legaram a arte com sofrimento e, por vezes, com o custo da própria vida. Segue-se então o Sensei Ni Rei, o cumprimento à tradição ativa, que é quando o Sensei volta as costas ao Kamiza e é saudado por todos os alunos em ordem crescente de graduação (os alunos se curvam e permanecem assim, um após o outro em ordem de graduação, dos mais novos aos mais velhos, até que todos tenham cumprimentado). Se se tratar do começo da aula, no momento em que o último aluno tiver cumprimentado, todos devem dizer "onegai shimasu", pedindo por favor ao Sensei para que esse possa lhes ensinar a arte. Se se tratar do término da aula, todos dizem "domo arigatou gozaimashita", agradecendo pelos ensinamentos. Se estiverem presentes na aula outros yudansha (faixas pretas) além do Sensei, então, após o Sensei Ni Rei, vem o Yudansha Ni Rei, quando todos os alunos se viram para o Joseki e cumprimentam na mesma ordem crescente de graduação os yudansha e utilizam o "onegai shimasu" ou o "domo arigatou gozaimashita".

Existe também o Otogai Ni Rei e o Senpai Ni Rei. O primeiro é o cumprimento que realizamos ao iniciar e finalizar a prática de uma técnica com nosso parceiro. O segundo é o cumprimento que utilizamos no final da aula, após toda a seqüência de cumprimentos, e que é dirigido aos nossos Senpai (alunos mais velhos).

A maneira de efetuar a reverência, assim como a maioria das coisas no Budo, possui mais de um significado: o marcial, o energético, e o simbólico.

Ilustremos o que se afirma com a reverência praticada em Seiza, o Zarei. A primeira mão a ser colocada no chão, em frente ao corpo, é a mão esquerda. No plano marcial, em caso de ataque do adversário, a mão direita pode sacar a espada, ou executar um movimento defensivo.

No plano energético, a mão esquerda está associada à energia negativa (Ura) e a mão direita à energia positiva (Omote). Aquela tem um efeito destrutivo, esta, tem um efeito construtivo.

O descer da mão esquerda à terra é um gesto simbólico da recusa de fazer mal em relação àquele que é saudado. Em simultâneo, o contato da mão com o chão neutraliza a potencialidade energética desta mão destruidora.

Com a colocação das duas mãos no chão, estas formam um triângulo eqüilátero. No plano marcial, a finalidade é a de evitar um ferimento grave no nariz. Em caso de ataque à cabeça por parte de um adversário, o nariz está protegido e não será esmagado no chão.

A nível energético, permite a circulação da energia em circuito fechado, possibilitando a concentração mental.

Este gesto simboliza a reunião de três lados: o homem, o céu e a terra. Também simboliza a junção entre tradição passiva e a tradição ativa, em que o Mestre desempenha um papel fundamental: é ele que transmite o conhecimento que anteriormente lhe tinha sido transmitido. É um circuito de transmissão do conhecimento.

A consciência do elevado valor energético e marcial da etiqueta e da cortesia deve estar sempre presente naqueles que seguem o Budo.

Nota: este artigo possui adaptações e citações do livro “Aikido, o Caminho da Sabedoria - A Teoria” (Wagner Bull, Ed. Pensamento), e do site www.ubuia.com.
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Aikido: caminho espiritual ou atividade física?

1921-1999 | Kisshomaru Ueshiba
Quando o dojo em Ushigome Wakamatsu-cho foi completado (onde hoje é o atual Hombu Dojo), uma base firme para a arte havia, portanto, sido estabelecida em Tókio (nesta época o nome da arte que O-Sensei ensinava tinha sido mudado de Aiki Ju-jutsu para Aiki Bu-jutsu, e depois do início da Kobukan, foi mudado novamente, para Aiki Budo, e finalmente Aikido a partir de 1942).

Deste ponto em diante a arte passou a ser conhecida pelo público e reconhecida, assim como o Judo e o Kendo, já eram. No momento em que estavam sendo feitas tentativas de expandir suas atividades em todo o país, um grande dojo foi aberto em Takeda-machi, Asako-gun, na Prefeitura de Hyogo, dirigido pelo Fundador. Este dojo era um pouco diferente porque estava estabelecido no quartel-general do Dai Nihon Budo Sen’yo Kai (Grande Associação para o Crescimento do Budo do Japão). O Fundador era o dirigente desta organização, a Sen’yo Kai, a pedido do Mestre Onisaburo Deguchi, da religião Oomoto. Mesmo assim, os uchideshi do Fundador que não eram da Oomoto logo acabaram se destacando e pouco tempo depois decidiram abrir o ensino para o público em geral, visto que até este momento era restrita a admissão para se aprender a arte. Estes dojo que funcionavam, de certa forma, independentes do grupo da Kobukan, acabaram se tornando um motivo de atritos com algumas pessoas da Oomoto.

Depois que o Fundador se mudou para Tókio, seu relacionamento com a Oomoto se tornou mais fraco, mas os sentimentos dele e sua lealdade ao Mestre Onisaburo nunca se modificaram. Assim, quando Deguchi definiu seus planos para a Sen’yo Kai, o Fundador imediatamente colocou de lado seus próprios interesses e começou a trabalhar para ajudar a realizar as idéias de Deguchi. E ele fez isso apesar da apreensão que surgiu entre as pessoas de Tókio que o apoiavam e eram seus alunos lá.


A Dai Nihon Budo Sen’yo Kai surgiu em 13 de agosto de 1932 com o Mestre Onisaburo Deguchi como presidente e o Fundador como dirigente. O prospecto escrito que definia a atividade desta organização dizia: “O genuíno Bu (ideais marciais) vem de Deus... e é a forma de refutar doutrinas falsas trazendo à luz a verdade para concretizar o plano de Deus aqui na Terra, obtendo o poder sobre as técnicas de destruição... o verdadeiro Bu protege esta nação dos Deuses e traz a paz ao mundo e à humanidade.” Aqui vem um pergunta: por que o Mestre Onisaburo estabeleceu a associação neste momento em particular? Aparentemente, o chamado incidente da Manchúria foi visto como um presságio de situações difíceis para a Oomoto como organização, que ocorreriam em poucos anos. Deguchi parece ter previsto a possibilidade do Japão entrar em uma guerra e a haver uma mudança no país para um regime de extrema direita e decidiu então se preparar para demonstrar que a Oomoto estava assumindo uma postura patriótica na esperança de impedir um possível “segundo incidente Oomoto.” (No primeiro, líderes foram presos e templos queimados).

Todas as ações da Oomoto nesta época pareciam ter a intenção de criar uma certa impressão de que a organização tinha poder. Com 75 ramificações e escritórios, a organização Sen’yo Kai dava a impressão de ser um grupo realmente organizado, e nesta ocasião, o Takeda Dojo logo tomou um papel de liderança e a associação começou a parecer estar subordinada ao Ushigome dojo.


Takeda-machi, onde ficava o Takeda Dojo, é uma cidade do oeste do Japão, norte da cidade de Himeji. O Hombu Dojo da Sen’yo Kai se localizava nas redondezas de Takeda- machi, nas vastas terras de uma antiga fábrica de sake, que diziam ser assombrada por fantasmas de rebeldes que haviam cometido Seppuku (suicídio ritual) lá. Devido à sua história sanguinária, o preço dos terrenos neste local caíram muito, e assim foi possível comprar a área por um preço baixo. Estudantes internos da Kobukan foram enviados para serem instrutores e sempre havia lá umas 50 ou 60 pessoas em média.

Lá havia dois dojo: um maior, com mais de 330m2 e outro, de cerca de 100m2, que depois foi usado como acomodação para seminários de curta duração. O dia a dia no dojo, como no Ueshiba Juku Dojo, em Ayabe, seguia a política do Fundador: centrada na comunidade, de apoio mútuo e auto-suficiência, e um sistema de turnos de responsabilidades. Todos os membros ajudavam no plantio e em outros trabalhos nos períodos entre os treinos da manhã, da tarde e da noite, de acordo com o ideal do Fundador de “unicidade entre o Budo e a agricultura”. Eles pescavam e comiam a dieta de arroz marrom que o Dr. Kenzo Nishi sempre recomendava. Este arroz não polido era difícil de ser feito adequadamente, e nem mesmo o Fundador era capaz de agüentar o “grude mal cozido” que frequentemente era servido. Era uma comunidade sem mulheres, e em questões de cozinha as refeições às vezes eram muito mal feitas. Para conseguirem energia, às vezes eles comiam um bocado de alho cru, e dizem que o cheiro fez com que alguns deles desistissem. Apesar desta rotina, a maioria deles parecia demostrar enorme entusiasmo, e muitos membros da Kobukan foram voluntários para irem para Takeda ao invés de ficar em Tókio. A vida longe do mundo comum alimentava um espírito de simplicidade e vigor e eles treinavam com muita energia.

Mas, cada vez mais eles entravam em conflito com pessoas da Oomoto, e ocorriam problemas frequentes com membros da Associação de Jovens de Showa. Estes incidentes se tornaram bem perigosos, e o Fundador e as pessoas da Oomoto estavam com problemas, apesar de terem sido muito unidos desde o período de Ayabe. Finalmente, o Sr. Itsuo Okuni, da Associação de Jovens de Showa, foi se encontrar com o Fundador. O Sr. Okuni estava muito preocupado sobre o que poderia acontecer, e estava preparado para o pior. Então, o Fundador estendeu a mão e disse em voz alta, “Está bem, está bem, Sr. Okuni. Eu entendo, eu entendo”. Ele então se virou para seus alunos que estavam sentados em ambos os lados e gritou, “Vocês também se esforçarão para se tornarem amigos destas pessoas!”. O Fundador estava esperando por uma chance para resolver o problema de uma vez, e depois o Sr. Okuni comentou, “Fiquei muito impressionado porque o Fundador não era apenas um Mestre de Budo, mas o maior dos grandes homens.”

O boletim do Dai Nihon Budo Sen’yo Kai era uma revista chamada Budo. As edições antigas do editor anterior que possuo, o Sr. Bansho Ashihara, são um precioso tesouro de informações. Abaixo está uma citação exemplificativa desta revista, vinda de um artigo do Fundador intitulado “Sobre os Japoneses e o Budo”, publicado na segunda edição, de outubro de 1932:

“Quando eu visito os dojo de Bu-jutsu, raramente vejo lugares com santuários para a Divindade. Especialmente em escolas e lugares assim. Parece que as pessoas modernas pensam que ao moverem seus corpos eles podem obter a maestria do Budo e treinar no Bu-jutsu. Um “dojo” é um lugar para o treinamento do ‘Caminho’. Acho que os dojo atualmente podem ser chamados mais corretamente de ‘fábricas’.”

E aqui está outro texto como parte da história de uma visita do Sr. Ippei Okamoto (considerado o pai das revistas em quadrinhos no Japão) ao Fundador, descrita na sétima edição de Budo, de novembro de 1933. O-Sensei dizia, humildemente, “Eu tenho sido um agricultor por vinte anos”. De fato, o Fundador não parecia ser uma pessoa sofisticada, mas um grande poder se escondia por trás de sua aparência, e eis o relato de Okamoto:

“O-Sensei começou com técnicas simples usando dois de seus alunos. Mesmo para olhos não treinados, era claro que ele se movia com muita leveza... mas, enquanto isso, seus alunos o atacavam com toda a força e mesmo assim desabavam, com uma avalanche de ataques (Atemi) em seus pontos vitais. Em resumo, sua arte chega a uma conclusão antes mesmo que o Judo comum ‘comece a trabalhar’.” O-Sensei dizia: “Minha técnica é 70% Atemi e 30% Nage Waza.” E continuando, Okamoto dizia: “Suas palavras demonstravam que ele dá importância às técnicas do espírito/mente (Kokoro)... ele enfatiza que os ensinamentos secretos do Budo são a busca de um Caminho que está definitivamente distanciado das preocupações com vitória ou derrota.”

Tradução: Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo - Brazil Aikikai)

Nota de Wagner Bull Shihan

Este texto mostra três coisas muito importantes para se entender o momento presente estudando o passado: em primeiro lugar, a organização criada por Deguchi dentro da Oomoto que o Fundador do Aikido presidia era de um tipo paramilitar, treinada como tropa de elite, e tinha claramente o objetivo de demonstrar ao governo militar da época de que dispunha de poder para reagir com força, se necessário. Por outro lado, mostrava que a arte ensinada pelo Fundador na Oomoto já tinha as bases do Takemussu Aiki, ou seja, que a arte visava o aperfeiçoamento do espírito e deveria estar relacionada com os “Kami”, visando iluminação espiritual, como um Budo divino. E por último, que entre os alunos do Fundador havia um grupo que já trabalhava independente desta ligação com as idéias da Oomoto, e que estava aberto ao público em geral, como funcionam os dojo de Aikido hoje em dia. Portanto, essa questão de se praticar o Aikido como um caminho “quase religioso”, no sentido estrito da palavra, ou como uma arte de movimentação, benéfica para a saúde, não é algo novo, e já vem de muito tempo.
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Biografia de Morihei Ueshiba

1921-1999 | Kisshomaru Ueshiba
Morihei Ueshiba nasceu no dia 14 de dezembro de 1883 em Tanabe, província de Wakayama. Ele foi o quarto e mais velho filho de Yoroko Ueshiba, um próspero fazendeiro, que possuía dois hectares de terra nativa. Seu pai era um membro muito respeitado na comunidade local, servindo como conselheiro do vilarejo por vinte anos, enquanto sua mãe, Yuki Itokawa, vinha de uma família de proprietários de terra de descendência nobre.

Por volta dos sete anos, Morihei foi enviado a Jizodera, um templo budista da seita Shingon próximo de sua cidade, para estudar os clássicos de Confúcio e as escritas budistas. Cativado pelas narrativas miraculosas contadas sobre o santo budista Kobo Daishi, ele começou a sonhar repetidamente com o que ouvia, o que causou certa apreensão a seu pai. Yoroku, no entanto, o encorajou a praticar mais atividades físicas, ensinando-lhe sumo e natação.

Morihei formou-se pela Escola Elementar de Tanabe, e foi admitido na recém-fundada Escola Secundária do Distrito de Tanabe, aos 13 anos de idade. Entretanto, abandonou o colégio antes mesmo de se formar, indo para o Instituto Yoshida Abacus. Obtendo seu diploma, conseguiu um emprego no Departamento de Impostos de Tanabe, onde uma de suas atividades incluía a avaliação de impostos prediais e territoriais.

Morihei demitiu-se de seu emprego no Departamento de Impostos em 1902, após se juntar a um movimento popular contra a nova legislação pesqueira, indo a Tóquio com o objetivo de recomeçar novamente como homem de negócios. Por algum tempo, trabalhou como funcionário do distrito comercial de Nihombashi, morando no local do emprego, antes de iniciar seu próprio negócio, uma companhia de suprimentos para escritórios e escolas, a Ueshiba Trading. O mais importante é que, durante essa primeira estadia em Tóquio, Morihei começou os estudos de artes marciais, aprendendo os tradicionais Ju- jutsu e Kenjutsu. Mais tarde, no mesmo ano, contraiu beribéri e foi forçado a sair de Tóquio. Logo após seu retorno a Tanabe, casou-se com Hatsu Itokawa (nascida em 1881), a quem conhecia desde a infância.

Em 1903, Morihei alistou-se no 37o Regimento da Quarta Divisão de Osaka, onde foi apelidado de “o Rei dos soldados” por sua habilidade com a baioneta, por seu árduo trabalho e grande honestidade. No ano seguinte ao início da guerra russo-japonesa, Morihei foi enviado à frente de batalha como cabo e, ao retornar, foi promovido ao posto de sargento, em reconhecimento à sua bravura e valentia no campo de batalha. Durante os períodos livres de sua vida militar, Morihei continuou a praticar artes marciais, ingressando no dojo de Masakatsu Nakai em Sakai, onde aprendeu Yagyu-ryu Ju-jutsu na escola Goto.

Em 1907 Morihei foi dispensado do exército e voltou a Tanabe, onde trabalhou na fazenda da família e participou da vida política da vila, tornando-se o líder da Associação dos Jovens local. Durante esse período, seu pai propôs ao judoka Kiyoichi Takagi, então em visita a Tanabe, que fosse professor de Morihei, transformando o depósito da fazenda em dojo. Foi então que Morihei aprendeu o estilo Kodokan de Judo. Continuou também a frequentar o dojo de Nakai, recebendo o certificado da escola Goto.

Morihei continuou em Tanabe pelos próximos três anos, envolvendo-se em diversas atividades locais. Em 1910 (ano em que sua filha mais velha, Matsuko, nasceu), Morihei interessou-se por um plano governamental para povoar a ilha de Hokkaido, situada ao norte do Japão. Decidiu então formar um grupo de colonização, requisitando voluntários da Associação dos Jovens local. Tornou-se líder do grupo Kishu, formado por cinquenta e quatro famílias (mais de oitenta pessoas) e, em março de 1912, partiram de Tanabe em direção a Hokkaido. Chegaram em maio, estabelecendo-se em Shirataki, próximo ao vilarejo de Yobetsu, local escolhido por Morihei em uma visita anterior à ilha.

Essa área, onde ainda hoje se situa o vilarejo de Shirataki, era então um terreno selvagem, o que obrigou os colonizadores a lutar muito contra as condições dificílimas de clima e solo até conseguirem deixá-lo em condições para cultivo.

Apesar de tudo, o grupo Kishu obteve sucesso implementando diversas atividades, como o cultivo de menta, a criação de cavalos, a produção de leite e também a abertura de uma indústria madeireira. Morihei fez mais do que o possível para assegurar o sucesso dessas empreitadas, e iniciou vários outros projetos, incluindo a construção de uma rua comercial em Shirataki, melhoramentos nas moradias e a fundação de uma escola primária. Foi durante esse tempo em Hokkaido que Morihei, quando se hospedava em uma pensão em Engaru, conheceu Sokaku Takeda, o então famoso mestre de Daito-ryu. Treinou intensamente com Takeda, obtendo o certificado de formatura em Daito-ryu Ju-jutsu.

Devido à expansão da indústria madeireira, Shirataki estava se tornando rapidamente uma cidade econômica e comercialmente próspera. Mas em 23 de maio de 1917, Shirataki foi completamente destruída por um grande incêndio. Na primavera seguinte, Morihei, membro do conselho do vilarejo, dedicou-se totalmente à reconstrução do local. Em julho do mesmo ano, o filho mais velho de Morihei, Takemori, nasceu.

Em meados de novembro de 1919, Morihei ficou muito abalado ao receber a notícia de que seu pai estava gravemente doente. Deixou então Hokkaido para retornar a Tanabe, encerrando após oito anos seu período em Shirataki.

Em sua viagem de volta, soube que o líder da nova e crescente religião Oomoto-kyo, Onisaburo Deguchi, famoso por suas técnicas de meditação Chinkon Kishin (acalmar o espírito e retornar ao divino), residia nas proximidades de Ayabe. Morihei decidiu visitá-lo, continuando em Ayabe até 28 de dezembro. Fez um pedido a Onisaburo para que orasse por seu pai, mas Onisaburo respondeu: “Seu pai está’bem como está”, palavras que marcaram profundamente Morihei.

Yoroko Ueshiba veio a falecer em 2 de janeiro de 1920, com a idade de 76 anos. Sua morte causou grande impacto em Morihei e, após uma fase de instabilidade emocional, decidiu mudar-se para Ayabe, em busca de uma vida mais espiritual, sob a supervisão de Onisaburo Deguchi. Conseguiu uma casa, atrás da escola primária, no local sagrado da Oomoto-kyo, e nela viveu nos oito anos seguintes, até mudar-se para Tóquio, em 1928.

Durante todo esse tempo, gozou da confiança absoluta de Onisaburo, tomando parte em várias práticas espirituais da seita. Também com o apoio de Onisaburo, Morihei converteu parte de sua casa em um dojo, com dezoito tatami, e abriu a Academia Ueshiba, onde ensinou cursos introdutórios de artes marciais, na maior parte para seguidores da seita Oomoto-kyo. Infelizmente, o primeiro ano de Morihei em Ayabe foi marcado por outra tragédia pessoal: perdeu seus dois filhos por doença. Takemori faleceu em agosto, com três anos de idade, e, em setembro, seu segundo filho, Kuniharu, veio a falecer, com um ano de idade.

No ano seguinte à mudança de Morihei para Ayabe, os ensinamentos fornecidos na Academia Ueshiba aumentaram gradualmente, tanto em habilidade e alcance como em espiritualidade, e os rumores de que havia um excepcional mestre em artes marciais morando em Ayabe começaram a se espalhar. O número de não-seguidores da Oomoto- kyo que ingressavam na Academia Ueshiba começou a crescer, e muitos marinheiros da base naval de Maizuru, que ficava nas proximidades, começaram a treinar ali.

Em 11 de fevereiro de 1921, as autoridades repentinamente invadiram a sede da seita, o que ficou conhecido como o Primeiro Incidente Oomoto, prendendo várias pessoas, inclusive Onisaburo. Por sorte, o incidente não afetou em nada a Academia Ueshiba. 1921 foi também o ano de meu nascimento.

Nos dois anos seguintes, Morihei tentou ajudar Onisaburo, que havia sido posto em liberdade condicional, a reconstruir a seita Oomoto-kyo. Ele assumiu a administração de novecentos tsubo de terra em Tennodaira, na qual trabalhou enquanto continuava ensinando na Academia Ueshiba. Dessa maneira, foi capaz de compreender, no dia-a-dia, a existência de uma união essencial entre as artes marciais e a agricultura, algo que estava dentro de seu coração e se tornaria um tema constante em toda a sua vida.

Durante toda a sua vida, Morihei sempre teve paixão pelo campo. Ele acreditava que havia uma afinidade especial entre o budo e a agricultura, duas atividades que mantêm a vida e estimulam uma vida pura e pensamentos elevados.

Por volta dessa época, a prática de Morihei das artes marciais começou gradualmente a adquirir um caráter mais espiritual, na medida em que ele se envolveu cada vez mais nos estudos do kotodama. Isso o levou pouco a pouco a se libertar das práticas convencionais do Yagyu-ryu e Daito-ryu Ju-jutsu e a desenvolver um estilo próprio, usando e aplicando os princípios e técnicas em conjunto, para quebrar as barreiras entre mente, espírito e corpo. Em 1922, essa aproximação mais tarde foi chamada de "Aiki Bu-jutsu", mais conhecida pelo público em geral como Ueshiba-ryu Aiki Bu-jutsu.

Em 1924, Morihei embarcou numa aventura que se revelaria crucial para seu desenvolvimento espiritual. No dia 13 de fevereiro, partiu secretamente de Ayabe com Onisaburo, em direção à Manchúria e à Mongólia, em busca de um local sagrado, onde pudessem estabelecer um novo governo mundial baseado em conduta e princípios religiosos. No dia 15, chegaram a Mukden, onde se encontraram com Lu Chang K'uei, um famoso déspota da Manchúria. Juntamente com Lu, lideraram o Exército Autônomo do Noroeste (também conhecido como Exército para a Independência da Mongólia), no interior do país. Nessa época, foi dado a Morihei o nome chinês de Wang Shou Kao. Entretanto, essa expedição foi malfadada; seus integrantes foram vítimas de um complô armado por um outro déspota, chamado Chang Tso Lin, e quando chegaram a Baian Dalai, em 20 de junho, viram-se cercados pelo exército chinês, que esperava para prendê-los. Morihei, Onisaburo e outros quatro foram sentenciados à morte. Afortunadamente, momentos antes da execução, um membro do consulado do Japão interveio, assegurando sua liberação e retorno seguro e imediato ao Japão.

Morihei retornou à sua vida normal, unindo a prática de artes marciais e a agricultura, ensinando na Academia Ueshiba e trabalhando na fazenda em Tennodaira. Interessou-se por Sojutsu (técnicas com lança) e continuou a praticar intensamente técnicas com espadas e Ju-jutsu. Claramente, as coisas já não eram mais as mesmas.

A expedição à Manchúria e Mongólia o afetou profundamente, particularmente por suas experiências de confronto, sob fogo de artilharia, com a morte, nas quais descobriu que conseguia ver os rastros luminosos dos tiros, descobrindo o caminho de onde vinham. A descoberta deste sentido de intuição foi uma imensa experiência para Morihei que, após retornar ao Japão, frequentemente se deparou com situações nas quais sentiu a mesma manifestação dessa força espiritual.

Na primavera de 1925, Morihei se encontrou com um oficial naval e mestre em kendo. Aceitou o desafio do oficial e o derrotou sem lutar, conseguindo simplesmente sentir de que direção os golpes estavam vindo antes que o oficial pudesse tocá-lo com o bokken (espada de madeira).

Imediatamente após esse encontro, foi lavar-se num poço próximo, onde sentiu uma serenidade completa de corpo e espírito. De repente sentiu que estava se banhando numa luz dourada que vinha do céu. Foi uma experiência sem igual para ele, uma revelação na qual sentiu-se renascer, transformando seu corpo e sua mente em ouro. Ao mesmo tempo a união de seu ser com o Universo tornou-se clara para ele, compreendendo assim um por um os outros princípios filosóficos nos quais o Aikido se baseia. Também foi dessa maneira que entendeu ser melhor dar o nome à sua criação de Aiki Budo, ao invés de Aiki Bu-jutsu (a substituição de Do por Jutsu muda o sentido de A arte marcial Aiki para O caminho marcial do Aiki).

Com maior divulgação, o Aiki Budo atraiu um grande número de seguidores ilustres, incluindo o Almirante Isamu Takeshita. No outono de 1925, Morihei foi convidado a visitar o Almirante em Tóquio. Hospedou-se na residência do ex-Primeiro Ministro, Gombei Yamamoto, onde deu uma demonstração de arte marcial para várias autoridades, deixando a todos muito impressionados. Morihei também ensinou artes marciais por vinte e um dias no Palácio da Coroa do Principado.

A convite do Almirante Takeshita, retornou a Tóquio na primavera de 1926. Deu aulas na Corte Imperial e no Ministério da Família Imperial, treinando tanto elementos da marinha e do exército como pessoas que trabalhavam com empresas do ramo financeiro. A permanência de Morihei em Tóquio foi por demais prolongada, mas no verão daquele mesmo ano adoeceu com um problema intestinal e foi forçado a retornar a Ayabe para repousar.

Em fevereiro de 1927, ao receber novo convite do Almirante Takeshita, sentiu que não teria outra alternativa senão deixar Ayabe pela terceira vez. Com a bênção de Onisaburo, mudou-se permanentemente para Tóquio, canalizando todas as suas energias para estabelecer-se como um mestre em artes marciais na capital.

Após dois anos em acomodações temporárias, mudou-se para uma casa próxima ao templo de Sengaku em Kuruma-cho, onde converteu dois quartos, de oito tatami cada, em um dojo. Seus alunos incluíam Isamu Fujita, Shoyo Matsui e Kaisan Nakazato e também o ator de kabuki, Kikugoro Ennosuke VI.

Em 1930, ao conseguir uma casa maior nos subúrbios de Ushigome, Wakamatsu-cho, iniciou a construção de seu novo dojo. Em outubro de 1930, enquanto os trabalhos estavam começando, instalou um dojo temporário em Mejirodai, onde recebeu a visita de Jigoro Kano, o fundador do Judo e chefe do Kodokan. Kano ficou impressionado pelas técnicas de Morihei, elogiando-o muito e dizendo: "Esse é meu budo ideal". Kano enviou, mais tarde, dois de seus alunos, Jiro Takeda e Minoru Mochizuki, a fim de serem treinados por Morihei.

Outra visita inesquecível foi a do major-general Makoto Miura, em 1930. O general, incrédulo com o novo budo criado por Morihei, visitou o novo dojo com o objetivo único de derrotá-lo. Morihei superou completamente a expectativa de Miura, que acabou inscrevendo-se como aluno na mesma hora. Logo em seguida, a pedido do major- general, Morihei tornou-se instrutor na Academia Militar de Toyama.

Em abril de 1931, um novo Aiki Budo dojo em grande escala com oitenta tatami, inaugurado como Kobukan, passou a funcionar em Wakamatsu-cho, no mesmo local onde se localiza o dojo principal nos dias de hoje (Hombu Dojo). Muitos alunos se matricularam, incluindo Hisao Kamata, Hajime Iwata, Kaoru Funabashi, Tsutomu Yugawa e Rinjiro Shirata e, nos dez anos seguintes, o Aiki Budo teve sua primeira fase dourada. Ao mesmo tempo, o Kobukan era popularmente conhecido como o "dojo do inferno", pela intensidade extraordinária de treinos que aconteciam ali.

Esses dez anos foram extremamente movimentados para Morihei. Agora já não era instrutor somente do Kobukan, mas de muitos outros dojo abertos em Tóquio e Osaka. O dojo principal era o Otsuka Dojo, em Koishikawa (patrocinado por Seiji Noma, chefe administrativo do Kodansha), o Fujimi-cho Dojo, em Iidabashi e, em Osaka, o Sonezaki Dojo, o Suida Dojo e o Chausuyama Dojo. Os uchi-deshi (estudantes que moravam no dojo) mais destacados nessa época eram Shiguemi Yonekawa, Zenzaburo Akazawa, Gozo Shioda e Tetsumi Hoshi.

Sob recomendação de um dos seguidores, Kenji Tomita, chefe da Polícia Municipal de Osaka e mais tarde secretário chefe do gabinete do governador da Prefeitura de Nagano, Morihei também iniciou cursos nas delegacias de polícia na área de Osaka. Ao mesmo tempo, envolveu-se cada vez mais com o ensino no Jornal de Asahi em Osaka e, através do Clube Industrial do Japão, teve muitas oportunidades de ensinar pessoas da área de finanças.

Em 1932, a Associação para Promoção das Artes Marciais Japonesas foi fundada, e em 1933 Morihei tornou-se seu presidente. Em maio de 1933, uma academia de treino em horário integral, chamada Dojo Takeda, foi montada na Prefeitura de Hyogo. Dezenas de estudantes se mudaram para lá, colocando em prática o ideal de Morihei de unir artes marciais e agricultura.

Por volta de 1935, Morihei se tornou muito famoso em todo o mundo das artes marciais. Mais do que pela sua maestria em várias artes marciais japonesas, virou alvo de atenção pública pela notável natureza de sua criação, "a união do espírito, da mente e do corpo" em Aiki, previamente chamada de Aiki Budo. Durante esse período, Morihei estava praticando Kendo incessantemente no Dojo Kobukan, e vários dos praticantes de Kendo frequentavam seu dojo, entre eles Kiyoshi Nakakura, que mais tarde se tornaria genro de Morihei.

Em setembro de 1939, Morihei foi convidado a ir à Manchúria para participar de uma exibição de artes marciais. Lá enfrentou o ex-lutador de Sumo Tenryu, imobilizando-o com um dedo. Morihei continuou suas visitas à Manchúria mesmo após o início da Guerra do Pacífico, atuando como conselheiro em várias instituições, incluindo a Universidade de Kenkoku, com a qual se envolveu imensamente. Sua última visita à Manchúria foi em 1942, quando participou das comemorações do décimo aniversário da fundação de Manchukuo, patrocinado pelo governo do Japão, a convite da Grande Associação de Artes Marciais, e deu uma demonstração de artes marciais, na presença do Imperador Pu'Yi.

Em 30 de abril de 1940, foi concedido ao Kobukan o status de fundação, incorporada ao Ministério da Saúde e Previdência. O primeiro presidente da fundação foi o Almirante Isamu Takeshita. No mesmo ano, a academia de polícia em que Morihei dava cursos adotou o Aiki Budo como uma disciplina curricular oficial.

Com o início da Guerra do Pacífico, um após o outro, os estudantes do dojo de Tóquio foram enviados ao fronte. Eu era então um estudante no Colégio da Universidade de Waseda, e juntamente com Kisaburo Ozawa e outros estudantes jovens de Aikido, foi-me dada a responsabilidade de manter o dojo.

Em 1940, o Aiki Budo foi incorporado na Butokukai (um órgão governamental unindo todas as artes marciais em uma só organização). Morihei nomeou Minoru Hirai para representar e dirigir o Kobukan no Setor Aiki do Butokukai. Foi nessa época que pela primeira vez o nome Aikido começou a ser usado.

Em reação à natureza das novas mudanças de última hora, feitas numa época de emergência, reduzindo o Aikido a apenas um setor do Butokukai, Morihei restabeleceu as bases da organização do Aikido na Prefeitura de Ibaragi a fim de preservar o espírito do budo, que havia sido criado para as futuras gerações. Ao me encarregar do dojo de Wakamatsu-cho, Morihei mudou-se para Iwama com sua esposa, vivendo modestamente em um depósito convertido em residência até após o final da guerra.

Hoje se sabe que a razão da ida de Morihei para Ibaragi ocorreu devido à perseguição aos líderes da seita Oomoto, que sofria a intervenção do governo central. Morihei só não foi preso, como os outros líderes, porque foi protegido, conforme boatos, por seu aluno Kenji Tomita, que era importante elemento da polícia. (Nota de Wagner Bull Shihan)

Nos estágios iniciais da Segunda Guerra Mundial, os conselhos de Morihei foram muito procurados por líderes militares e primeiro-ministros, mas logo os massacres e carnificinas o deixaram emocionalmente e fisicamente doente. Em 1942, Morihei repentinamente desligou-se de todas as suas atividades militares e retirou-se com sua esposa para uma pequena cabana nas florestas de Iwama, Prefeitura de Ibaragi. Em 1942, durante o período mais sombrio da história humana, Morihei foi levado a chamar o sistema de sua criação de Aikido, "O Caminho da Harmonia e do Amor".

Em Iwama, Morihei iniciou a construção do que ele chamou ubuya (sala de nascimento), ou local secreto, sagrado do Aikido: um complexo incluindo o Santuário Aiki e um dojo ao ar livre. O local sagrado do Aiki, onde existem desenhos magníficos entalhados em madeira, foi completado em 1944; o Aiki Dojo, agora conhecido como o Dojo de Ibaragi Anexo do Santuário Aiki, foi concluído em 1945, pouco antes do final da guerra.

Quarenta e três divindades são homenageadas no Santuário Aiki como deuses guardiões do Aikido. Morihei planejou ele mesmo todas as disposições e limites do Santuário Aiki, seguindo os princípios do kotodama. Por exemplo, o prédio principal, o salão para orações, o torii, e todo o traçado, seguem a lei dos três princípios universais, isto é, o triângulo, o círculo e o quadrado, símbolos dos exercícios de respiração, nos estudos do kotodama. “Quando o triângulo, o círculo e o quadrado são unidos em uma rotação esférica, o resultado é um estado de perfeita clareza. Essa é a base do Aikido”, explicou Morihei.

Durante o período da guerra, lutei muito para preservar o Dojo Kobukan, apesar de a situação piorar cada vez mais e dos bombardeios constantes de Tóquio pela força aérea dos Estados Unidos. O dojo escapou ileso, mas após a guerra foi usado como abrigo para mais de trinta famílias de desabrigados, o que impossibilitava a continuação das aulas no local. Por essa razão, o quartel-general do Aikido foi transferido para Iwama, onde Morihei continuava a viver pacificamente, trabalhando na fazenda e ensinando jovens das áreas vizinhas.

Com o final da guerra, as artes marciais sofreram um declínio por algum tempo, fazendo com que a existência do Aikido no futuro fosse duvidosa. No entanto, Morihei tinha muita fé no novo Aikido, o que nos fez trabalhar todos juntos para colocá-lo de volta em seu devido lugar no Japão do pós-guerra. Quando parecia que a confusão prevalecia em consequência dos desastres deixados pela guerra, foi decidido mudar novamente o quartel-general do Aikido para Tóquio. No dia 9 de fevereiro de 1948, o Ministério da Educação deu permissão para o restabelecimento do Aikikai, com reservas. Durante esse tempo, o dojo principal em Tóquio era chamado Dojo Ueshiba e Quartel-General Mundial do Aikido.

Após o estabelecimento do Aikikai, foi-me dada a responsabilidade de consolidar a organização já existente e planejar seu desenvolvimento no futuro. Durante esse tempo, Morihei continuou em Iwama, absorvido na contemplação da prática das artes marciais.

De 1950 em diante, Morihei reiniciou suas viagens pelo Japão em resposta a convites para ensinar, dar cursos e demonstrações. Ao chegar à idade de 70 anos, sua técnica soberba fluía progressivamente de sua imensidão espiritual, em contraste com a ferocidade e força física que caracterizaram seus anos anteriores. Agora empregava mais a natureza do amor do Aikido (o primeiro caractere "Ai", que quer dizer harmonia, é lido da mesma forma que o caractere que quer dizer amor. Em seus últimos anos, Morihei sempre enfatizou a equivalência desses dois significados).

Em 1954, o quartel-general do Aikido foi transferido para Tóquio, e ao dojo de Tóquio foi dado o título oficial de Fundação Aikikai: o Hombu Dojo do Aikido. Em setembro de 1956, o Aikikai deu pela primeira vez em público uma demonstração de artes marciais desde o final da guerra, na cobertura da loja de departamentos Takashimaya, em Nihombashi, Tóquio. A apresentação durou cinco dias, causando ótima impressão em todas as autoridades estrangeiras presentes. Morihei foi sempre duramente contra dar demonstrações em público, mas compreendeu que o Japão entrara numa nova era e acabou por consentir, a fim de promover o desenvolvimento do Aikido.

À medida que o Aikido foi se popularizando, o número de estudantes em todo o mundo aumentou rapidamente. Mesmo no Japão, novos dojo foram abertos por todo o país, e o Aikido foi difundido nas universidades, órgãos do governo e companhias, anunciando sua segunda era de ouro.

Conforme envelhecia, Morihei tornou-se menos ativo na direção do Aikikai, deixando-me encarregado da manutenção e instrução do Hombu Dojo. Mesmo assim, continuava a dar demonstrações, e em janeiro de 1960, a NTV transmitiu "O Mestre do Aikido", um programa que captou as técnicas do Fundador em filme.

Em 14 de maio de 1960, uma demonstração de Aikido foi patrocinada pelo Aikikai em Shinjuku, Tóquio. Nessa ocasião, Morihei causou enorme efeito em todos os espectadores, com uma apresentação chamada de "A Essência do Aikido".

Mais tarde, no mesmo ano, Morihei, juntamente com Yosaburo Uno, um décimo dan de Kyudo, recebeu o prêmio Shijuhosho, pelo Imperador Hirohito. Somente a três pessoas no mundo, das artes marciais de todo o mundo, foi concedido esse prêmio antes: ao mestre de Judo Kyuzo Mifune e aos mestres de Kendo, Kinnosuke Ogawa e Seiji Mochida.

No dia 28 de fevereiro de 1961, Morihei viajou aos Estados Unidos, convidado pelo Aikikai do Havaí. Durante essa visita, o Fundador declarou o seguinte:

Vim ao Havaí para construir uma "ponte prateada". Até hoje fiquei no Japão, construindo uma "ponte dourada" para unir o Japão, mas, de agora em diante, meu desejo é construir uma ponte para ligar diferentes países do mundo na harmonia e no amor contidos no Aikido. Penso que o Aiki, produto das artes marciais, pode unir todas as pessoas do mundo em harmonia, no verdadeiro espírito do budo, abraçando a todo o mundo em um amor único e igual.

No dia 7 de agosto de 1962, um grande festival foi celebrado no Santuário Aiki em Iwama, para festejar o sexagésimo aniversário de Morihei como praticante das artes marciais e, em 1964, ele recebeu um prêmio especial do Imperador Hirohito, em reconhecimento à sua contribuição para as artes marciais.

A cerimônia do início da construção do novo Hombu Dojo em Tóquio foi realizada em 14 de março de 1967. No mesmo dia, Morihei celebrou a primeira cerimônia para a colheita do ano novo em Iwama. Em 25 de dezembro do mesmo ano, o novo dojo, um prédio moderno com três andares feito de concreto, foi concluído. Um dos quartos foi usado pelo Fundador como dormitório e local de estudo, e é conhecido atualmente como o Quarto dos Materiais do Fundador.

Em 12 de janeiro de 1968, uma cerimônia comemorativa foi realizada em homenagem à conclusão da obra do novo Hombu Dojo, e Morihei falou sobre a importância da essência das técnicas do Aikido. Mais tarde, nesse ano, Morihei daria a sua última demonstração de Aikido, no Kokaido em Hibiya, em homenagem ao término da construção do novo prédio.

No dia 15 de janeiro de 1969, Morihei participou das comemorações do ano novo no Hombu Dojo. Mesmo parecendo estar com saúde impecável, sua condição física deteriorou-se rapidamente, vindo a falecer pacificamente em 26 de abril de 1969, às 17 horas, com a idade de oitenta e seis anos. Uma vigília foi realizada no Hombu Dojo no dia 1o de maio, a partir das 19:10 e. no mesmo dia, foi consagrada ao Fundador uma condecoração póstuma pelo Imperador Hirohito. Suas cinzas foram depositadas no cemitério de Tanabe, no templo da família Ueshiba, e mechas do cabelo do Fundador foram guardadas em relicários no Santuário Aiki, em Iwama, no cemitério da família Ueshiba, em Ayabe, e no Grande Santuário de Kumano.

Kisshomaru Ueshiba foi eleito para suceder seu pai como o Aiki Doshu, por decisão unânime do Aikikai, em 14 de junho de 1970.
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Os cinco espíritos do Budo

OUTUBRO, 2009 | Dan Penrod
Shoshin: Mente de principiante
Zanshin: Mente que permanece
Mushin: Não Mente
Fudoshin: Mente Imóvel
Senshin: Espírito purificado; atitude iluminada.

Existem cinco mentes fundamentais ou espíritos do Budo: Shoshin, Zanshin, Mushin, Fudoshin e Senshin. Estes conceitos, muito antigos, são geralmente ignorados nos dojo modernos de Aikido. O budoka que se esforça para compreender as lições destes cinco espíritos em seu coração amadurecerá para se tornar um artista marcial e um ser humano forte e competente. O aluno que não se esforça para conhecer e receber estes espíritos sempre terá uma falha em seu treinamento.

Shoshin

O estado de Shoshin é aquele da mente de principiante. É um estado de atenção que permanece sempre completamente consciente, atento e preparado para ver coisas pela primeira vez. A atitude de Shoshin é essencial para continuar o aprendizado. O-Sensei uma vez disse, “Não espere que eu lhe ensine. Você deve roubar as técnicas sozinho”. O aluno deve ter um papel ativo em cada aula, observando com a mente Shoshin, para conseguir roubar a lição de cada dia.

Zanshin

O espírito de Zanshin é o estado do espírito que permanece, que continua. É frequentemente descrito como um estado continuado de atenção aumentada e de decisão. Mas o verdadeiro Zanshin é um estado de foco ou concentração antes, durante e depois da execução de uma técnica, em que uma ligação ou conexão entre o Uke e o Nage é mantida. Zanshin é o estado da mente que nos permite permanecer espiritualmente conectados, não apenas a um único atacante, mas a múltiplos atacantes e mesmo a um contexto completo: um espaço, um tempo, um evento.

Mushin

O manual da ASU define Mushin como a “Não mente, uma mente sem ego. Uma mente como um espelho que reflete e não julga”. O termo original era “Mushin no Shin”, que significa “mente da não mente.” É um estado mental sem medo, raiva ou ansiedade. Mushin é frequentemente descrito pela frase, “Mizu no Kokoro”, que significa “mente como a água”. Esta frase é uma metáfora que descreve o lago que reflete claramente o que o cerca quando suas águas estão calmas, mas as imagens são obscurecidas quando uma pedra é jogada em suas águas.

Fudoshin

Uma mente que não é abalada e um espírito que não se move é o estado de Fudoshin. É a coragem e a estabilidade demonstradas mentalmente e fisicamente. Mas ao invés de indicar rigidez e inflexibilidade, Fudoshin descreve uma condição que não é facilmente transtornada por pensamentos internos ou por forças externas. É capaz de receber um ataque forte e manter a postura e o equilíbrio. Recebe e devolve com leveza, está firmemente aterrado, e reflete a agressão de volta à sua fonte.

Senshin

Senshin é o espírito que transcende os primeiros quatro estados da mente. É um espírito que protege e se harmoniza com o universo. Senshin é um espírito de compaixão que abraça e serve a toda a humanidade e cuja função é reconciliar e dissipar a discórdia no mundo. Ele considera que todos os tipos de vida são sagrados. É a mente do Buda e é a percepção de O-Sensei da função do Aikido.

Aceitar completamente o Senshin é essencialmente a mesma coisa que se tornar iluminado, e pode ir muito além da abrangência do treinamento diário do Aikido. Entretanto, os primeiros quatro espíritos são provavelmente atingíveis por qualquer aluno sério através de atenção concentrada e treinamento firme. Abraçar estes estados da mente pode ser recompensador de diversas formas.

Shoshin pode libertar um aluno do “vale” frustrante do aprendizado, dando-lhe a visão para enxergar o que ele não poderia ver antes. Zanshin pode aumentar a atenção total, melhorando o treinamento de Randori e de Jiyu waza. Mushin pode liberar a ansiedade do aluno quando está sob pressão, capacitando-o para uma performance melhor durante um exame. Fudoshin pode lhe dar a confiança para proteger seu território em face de ataques físicos esmagadores. O aikidoka sério deve encontrar formas de incorporar estes espíritos do Budo em seu treinamento diário.

Tradução: Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo – Brazil Aikikai)

*Este artigo foi retirado de http://www.budodojo.com/FiveSpiritsOfBudo.htm
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O treino de Aiki Ken e Aiki Jo

OUTUBRO, 2009 | Roberto Matsuda
O Aikido como arte marcial tem como foco principal o Tai Jutsu, as técnicas e golpes com as mãos vazias, então por que em vários dojo os alunos treinam o Buki Waza, técnicas com armas como o Bokken e o Jo? Onde estes treinos podem ajudar ao desenvolvimento de nosso Aikido?

O-Sensei treinou vários estilos de lutas, algumas utilizavam espadas, lanças e bastões, outras desarmadas. Através dos princípios destas artes marciais foi moldado a parte técnica do Aikido. Ele dizia que as técnicas desarmadas eram as mesmas das executadas com Jo ou com a espada.

Aiki Ken

O Bokken foi inventado em substituição ao Katana para treino do Kenjutsu, como um forma mais segura para as aulas, mas o próprio Bokken é uma arma esplêndida.

No Aikido, o treino com o Bokken não deve ter como objetivo principal a capacidade de usá-lo como arma, mas sim como instrumento de treino para nosso corpo e nossa percepção.

Na série Tradicional Aikido, Saito Sensei diz que é recomendável treinar durante dois anos seguidos o Suburi (o treino solitário), para que possa se adquirir a estabilidade no quadril; outra prática recomendada é o Tanren-uchi (treinar corte em um feixe de galhos amarrados apoiado em cavaletes ou em um pneu preso em uma árvore) para desenvolver o modo correto de segurar o Bokken.

A prática do Suburi deve sempre ser feita sem utilizar a força dos braços de modo que possamos treinar 10.000 cortes sem a sensação no dia seguinte de “musculação”; a espada deve ser levantada e abaixada utilizando o Hara (centro do corpo, ou, Saika no Iten), pois dessa maneira qualquer pessoa, mesmo mulheres e crianças, podem treinar. No momento do corte o pensamento deve ser como se o Ki estivesse na ponta do Bokken; não deve parecer que está sendo usado como um machado.

Quando o aluno conseguir fazer o Suburi de modo mais natural, ele pode começar o Kumi-tachi (a luta combinada). Nesta fase aprendemos o Awase (acompanhar a técnica de maneira simultânea com o parceiro), o Maai (a distância correta), e o Musubi (ligação), a não deixar os Suki (aberturas para entrada de golpes) . A utilização do Bokken iguala as pessoas , pois não existe o fator força muscular, pois a utilização de uma arma impõe respeito entre Uke e Nage.

Aiki Jo

Segundo uma lenda, depois de sua derrota para Miyamoto Musashi, Muso Gonnosuke no seu retiro nas montanhas, teria sonhado com um “Bo (bastão longo) que teria quebrado e se tornado mais curto”, com este “Bo mais curto” Gonnosuke derrotou o fundador da escola Niten de Kenjutsu. Isto teria sido a invenção do Jo.

No Aikido o Jo permite treinar o Tai-Sabaki (a movimentação do corpo) devido a diversidade de formas de utilização desta arma. O Jo pode ser usado para estocadas, batidas e cortes, sendo muito versátil.

Da mesma forma que o Aiki Ken, o Jo começa com o Suburi, habilitando o praticante a desenvolver uma base forte e flexível, depois vem o Kumi-jo, o Kata com um parceiro, que ensina a movimentação dos pés e os ângulos corretos de ataque e defesa.

Deve haver no treino de Kumi-jo a ligação (Musubi) desde o primeiro golpe trocado, pois o objetivo não é o Jo, e sim dominar o centro do parceiro. Muitas pessoas pensam que no Aikido se ensina a lutar com o Jo, quando na verdade o Jo é usado como meio para treinar o Musubi nas técnicas.

Outro treino interessante é deixar o Uke tentar tirar o Jo de suas mãos, quando isto acontecer, sentir a ligação estabelecida e projetar o Uke em uma queda. Este treino permite o aprimoramento do sentir, do “feeling” no momento certo.

Conclusão

Uma das disciplinas mais fantásticas dos antigos samurais era o Yadome-jutsu, a arte de parar flechas, onde um Katana ou dois eram usados para cortar as flechas que eram atiradas contra eles. Esta arte desenvolvia os reflexos, o golpe de vista e principalmente a auto-confiança. Acredito que os samurais podiam sentir a intenção vindo antes, para protegerem-se eficazmente.

O Aiki Ken e o Aiki Jo nos permitem uma evolução em nossas técnicas de Tai Jutsu, pois estas armas devem ser consideradas como “braços mais compridos”, e utilizá-las de forma natural. Devemos fazer Aiki com o Jo e o com Bokken, e através destes fazer a ligação como o Uke.

Desta forma o treino do Aiki Ken e do Aiki Jo é muito benéfico para o aprimoramento do nosso Aikido, pois nos ensina a passar nosso Ki através de um objeto inanimado, tornando-o vivo para interagir com o Uke e com o Universo.
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Uma palavra sobre armas no Aikido

OUTUBRO, 2009 | Stanley Pranin
A discussão sobre a inclusão ou não do treinamento com armas dentro da prática do Aikido é bem grande e com frequência temos oferecido no Aikido Journal um espaço para quem apóia ou não sua existência. Tenho observado e também participado destas discussões e neste momento desejo propor alguns pontos os quais não me recordo de serem mencionados anteriormente.

Como primeiro ponto, penso que um bom começo seria revisar o que Morihei Ueshiba mencionou a respeito das armas. Sem necessidade de cair em uma grande argumentação histórica a respeito, vou ressaltar alguns pontos. Como temos documentado de forma exaustiva nos últimos dez anos, a maior influência técnica no Aikido é o Daito-ryu Aiki Ju-jutsu. O mestre de Ueshiba, Sokaku Takeda, era um grande esgrimista e um expert no manejo de armas, e passou muitos de seus anos de formação estudando uma grande variedade de armas. Takeda tomou o Ju-jutsu como fundamento essencial na instrução de suas técnicas, especialmente nos anos nos quais portar espadas estava proibido por lei. O Bu-jutsu de Takeda era inclusivo por natureza e de nenhuma maneira se pode considerar limitado exclusivamente às técnicas de Ju-jutsu. As técnicas do Daito- ryu estão concebidas sobre os princípios da espada.

Outro fato: de 1942 pelo menos até o final dos anos 50, Morihei Ueshiba passou uma grande quantidade de tempo em seu dojo campestre de Iwama experimentando com o Aiki Ken e o Aiki Jo. Um dos seus principais alunos desta época, Morihiro Saito, foi uma testemunha de primeira mão neste processo e o corpo que alberga o conhecimento que surgiu deste esforço nesta parte da vida de O-Sensei pode ser visto hoje em dia no Aikido de Saito Sensei. Uma das críticas contra esta afirmação diz algo assim: “O-Sensei simplesmente experimentava com as armas; na realidade nunca desenvolveu este aspecto do treinamento como uma disciplina completa como o seu Tai Jutsu”. O problema deste ponto de vista é que o período referido é de cerca de 20 anos. Isto seria suficiente para um artista marcial qualificado como Ueshiba para integrar este conhecimento em seu treinamento. Recorde, também, que em 1937 o Fundador tomou ações para ingressar nas artes clássicas baseadas em armas como o Kashima Shinto-ryu, em seu dojo na Kobukan. Inclusive, seu juramento de sangue encontra-se nos arquivos desta escola.

Posteriormente, ressaltarei que muitos dos termos técnicos do Aikido se derivam do Kenjutsu. Palavras como Tegatana, Shomen-uchi, Yokomen-uchi, e Shiho-nage claramente refletem um conhecimento da esgrima. Assim mesmo, uma grande quantidade das técnicas que caracterizam o Aikido, como Irimi-nage, se baseiam em movimentos de entradas claras com a espada. De fato, o conceito de Irimi, ou entrar, provém do manejo do sabre. Para ser claro, o estudo e a prática de armas foi uma paixão de muitos anos do Fundador. Aqueles que sugerirem o contrário são ignorantes da história do Aikido ou têm algum outro interesse para suas afirmações.

De toda forma, é um fato histórico que o Fundador do Aikido proibiu a prática do Ken e do Jo no Aikikai Hombu Dojo, com exceção das aulas do Saito Sensei.

Mais que um fator revelador, poderei perguntar-me: deveria ser surpreendente que o Hombu Dojo de hoje tem afirmado publicamente – refiro-me às afirmações públicas do Sandai Doshu, Moriteru Ueshiba, e o 8o dan Masatake Fujita - nas quais se diz que o treinamento com armas não é parte do Aikido?

A resposta à pergunta sobre se o Aikido inclui ou não o treinamento de armas depende da definição da autoridade a quem você consulte. Não existe um acordo universalmente aceito sobre o que o Aikido é, técnica ou filosoficamente. Entretanto, o praticante médio observa a seu instrutor imediato como a autoridade final com respeito à arte. Inclusive, uma organização não pode impor seu ponto de vista no conteúdo e nível de treinamento de um dojo a não ser que se adote um rígido esquema de regulamento. Esta aproximação inibe de maneira séria o crescimento e influência do grupo como já se demonstraram várias vezes.

Como exemplo, dentro da organização do Aikikai – cuja posição oficial, como vimos, exclui o treinamento de armas – professores de renome como Shoji Nishio, Nobuyoshi Tamura, Kazuo Chiba, e Mitsunari Kanai, entre muitos outros, incorporam Iaido em seu currículo. Nenhuma ação foi tomada para prevenir-lhes de fazer isto. Na minha opinião, o debate se concentra em um elemento semântico. Não haverá uma resposta satisfatória para a pergunta que relaciona Aikido e armas que convença todo mundo.

Todas as argumentações no mundo acerca das virtudes e vícios neste tipo de treinamento, não mudaram este fator. Aqueles em quem seus professores promovam o treinamento, ou quem, de maneira independente chega a concluir que as armas são um complemento importante ao treinamento de Tai Jutsu, procederão de acordo com suas convicções. Aqueles que foram persuadidos sobre o perigo do treinamento de armas e como isso é inadequado frente ao progresso no Tai Jutsu, rechaçaram as armas e herdaram um grupo de prejuízos que lhes servirão para justificar suas posições.

É esta a última palavra sobre o assunto? Duvido, porém, espero haver contribuído com novas perspectivas no que diz respeito ao debate.

Tradução: Nelson Wagner
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Sangen no Hosoku, a Lei do Três

OUTUBRO, 2009 | Wagner Bull
Em todo estudo esotérico a Lei do Três está sempre presente, da mesma forma, no xintoísmo e no Aikido, tudo pode ser entendido como componentes com três partes e entendido sobre três aspectos. No esoterismo ocidental denomina-se esta verdade como a famosa Lei do Triângulo: Pai, Filho e Espírito Santo, ou Presente, Passado e Futuro, ou Pai, Mãe e Filho, ou Tese, Antítese e Síntese... e assim sucessivamente em todas as coisas. Estes três componentes são representados no Aikido e no xintoísmo pelo Triângulo, pelo Círculo e pelo Quadrado. Assim, Sangen no Hosoku (a Lei do Três) é uma cosmologia baseada preliminarmente nos três estados da matéria: o sólido, o líquido e o gasoso. Depois, vem San no Hikari, as três luzes: o Sol, a Lua e as Estrelas que iluminam nossa existência. Estas três formas são a base das técnicas do Aikido. O triângulo representa o aikidoka fazendo a técnica em Irimi (Hanmi); nossa intenção em fazer a técnica circular representa o círculo espiralítico em que a técnica evolui; e finalmente, os pés naturalmente fazem o movimento “quadrado” (retangular, em bloco). O Fundador escreveu: Tai Wa San Men (o corpo está triangular), Kokoro Wamaru (o espírito redondo), Ashi Wa Shikaku Gen Noari (pés com movimento quadrado).

A Lei do Três também está nos três momentos estratégicos ao se realizar uma técnica, ou seja, Maai, Deai e Zanshin.

Maai é o momento em que os dois aikidoka se encontram na distância ideal, física e psicológica, para estar pronto para a defesa e ao mesmo tempo para o ataque. Deai é o momento do contato físico. Zanshin, após concluir a técnica, é o estado de alerta que o aikidoka deve guardar para perceber tudo ao seu redor. Zanshin é uma das qualidades principais para que uma pessoa realmente aprenda o Aikido, bem como é o fator fundamental para a boa realização de qualquer atividade. Se os indivíduos têm Zanshin estarão atentos às oportunidades que acontecem na vida profissional, aproveitando-as, bem como é a qualidade que permite ao aluno perceber o que o mestre está fazendo e ao tentar copiá-lo, fazê-lo com perfeição.

Um grande mestre de Aikido disse: “A qualidade de seu Aikido é a qualidade de seu Zanshin.” Assim, um bom professor de Aikido saberá sempre desenvolver estas qualidades nos alunos, sendo muito importante praticar as técnicas marciais do Aikido como se o menor descuido significasse a morte. Esta atitude constante no tatami desenvolve o Zanshin.

Quando estamos realizando as técnicas do Aikido, não podemos fazer força nos ombros e braços separada daquelas oriundas do quadril, mais particularmente do nosso Hara (centro). Existem linhas de Ki (linhas de força) que partem do Hara e passam pelos membros inferiores e superiores, alcançando os dedos. Estas linhas são sempre curvas e espiralíticas. Devemos evitar dobrar exageradamente os braços, bem como deixá-los retos. Os braços devem ser arqueados de acordo com a linha do Ki que flui naturalmente por eles. Daí é basilar para que as técnicas fiquem perfeitas, que o Maai seja correto para que o corpo do aikidoka possa se mover unificado e agindo segundo as linhas de força, tornando as técnicas poderosas como arte marcial para a defesa pessoal propriamente dita, bem como permitindo que o Nage (quem faz a técnica) possa deslocar-se com seu centro emocional e mental centralizado e equilibrado, em conjunto com seu corpo, fazendo a integração Ki-Kon-Tai (energia, mente e corpo), produzindo movimentos espiralíticos de extrema harmonia e estética.

O símbolo do Instituto Takemussu, criado pelo autor em 1986, integra as três formas. Ele se baseou em desenhos do próprio Fundador do Aikido e estas formas podem ajudar o praticante a entender não somente a parte técnica, mas também a complexidade dos conflitos e escolhas que são feitas diante dos mesmos. O triângulo representa as respostas que têm o movimento focado como resistência a um ataque direto ou então uma forma de se mover objetiva, atingindo algum ponto. É também a atitude positiva, combativa, que não recua diante da dificuldade, não fugindo do problema mas entrando nele; é o princípio do Irimi. O quadrado representa a energia estável, centrada, embora sem muito se movimentar, apresenta a consistência, a segurança e a resistência às agressões. Implica também na harmonia de dois triângulos, que é o que ocorre no momento do deai nas técnicas de Aikido ou em qualquer conflito verbal. O quadrado indica a idéia de permanecer firme, mantendo a posição. É a estratégia da imobilidade, é o princípio Osae do Aikido. O círculo faz o papel de representar o “jogo de cintura”, a fluidez, o rolar, o “ir levando”, conduzindo o agressor e o agredido para uma posição de equilíbrio satisfatória para ambos, necessária na hora de se negociar e colaborar; é o princípio do Tenkan do Aikido. Um grande erro de muitos praticantes é pensar que a resposta a um conflito é sempre um círculo, pois isso não é verdade. O triângulo e o quadrado também são formas iniciais de agir que resolvem conflitos, produzindo harmonia. A essência de uma resposta apropriada ao conflito é se estar aberto a todas as possibilidades. O que não se pode é ficar preso apenas a uma forma. O importante é criar a paz e uma atitude construtiva nos relacionamentos.

Cada pessoa diante de uma crise ou conflito tem uma tendência fixa a reagir. A atitude do triângulo implica em comprometimento, objetivos concretos e determinação. A resposta do quadrado é a estabilidade, a firmeza e a defesa firme dos pontos de vista. A atitude do círculo é a da flexibilidade, da adaptação, da busca da convergência.

Assim como acontece tecnicamente, quando perdemos nosso centro nos desequilibramos em um conflito. A atitude do triângulo descentrado se torna nervosa, agressiva, manipuladora e cheia de tensão. A do quadrado se torna autoritária, dogmática, e dona da razão. Quanto à do círculo, no lugar de fluir, perde sua mobilidade, ficando presa, descontrolada, indecisa. Treinar Aikido nos permite sempre ter uma postura física, emocional e mental equilibrada e assim usando o potencial máximo de cada atitude, resolvendo positivamente os conflitos.

Fonte: Aikido, o Caminho da Sabedoria - A Teoria (Wagner Bull, Ed. Pensamento).
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Sagawa-Ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu

OUTUBRO, 2009 | Paul Wollos
Yukiyoshi Sagawa Sensei e seu sistema Daito-ryu sempre foram encobertos por obscuridade. Mesmo atualmente, existem muito poucas informações em inglês. Espero que os leitores do Aikido Journal aproveitem este relato sobre minhas experiências com este impressionante sistema de Daito-ryu. Este artigo foi escrito com a permissão do Sr. Tatsuo Kimura, 10º Gen Shihan do Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu.

Pesquisa pessoal

Minha paixão pelas artes marciais, e especialmente pelo Daito-ryu, começou em 1981. Depois disso, eu fiquei fascinado pela arte do Daito-ryu, e pesquisei os aspectos técnicos e históricos de vários ramos do Daito-ryu. Eu estava buscando por algo misterioso, mas sempre havia uma forma lógica para explicar as técnicas.

Desde 1995 o foco de minha curiosidade foi uma escola em particular: o Daito-ryu Sagawa Dojo. Mas as informações sobre esta escola eram muito raras, e minhas pesquisas foram bastante difíceis, se não impossíveis. Tudo o que pude descobrir sobre Yukiyoshi Sagawa Sohan (“Sohan” um título de Sagawa Sensei em sua arte do Daito-ryu Aiki Bu-jutsu) estava no livro de Stanley Pranin intitulado “Conversas com mestres de Daito-ryu”. Apesar de ser claro que Sagawa Sensei não aceitava alunos estrangeiros, eu decidi escrever uma carta a ele. Eu queria ser aceito para treinar com Sagawa Sohan. Por vários anos eu mandei muitas cartas ao Sagawa Dojo, com apenas uma resposta.

“Sentimos muito, mas seu pedido não pôde ser atendido...”. Sagawa Sensei faleceu, mas eu continuei tentando obter o máximo de informações do Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu- jutsu. Eu pesquisei na Internet, inclusive em sites japoneses, aonde encontrei pedaços de informações. Gradualmente, mais e mais pessoas souberam sobre meu interesse sobre o Sagawa Dojo e o Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu. Naquela época, eu pensava que, como eu já tinha algumas habilidades básicas, eu podia aprender o Sagawa-ha Daito-ryu e "promovê-lo" fora do Japão. Logo eu descobri que minha forma de pensar era estúpida. Meu pedido foi rejeitado novamente, mas eu não podia desistir de minhas aspirações.

O primeiro contato

O acesso ao Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu não é restringido apenas em relação aos estrangeiros. Mesmo os japoneses nativos devem fazer um requerimento por escrito ao Sagawa Dojo, e seus requerimentos frequentemente são rejeitados.

Meu primeiro passo foi dado quando fiz contato com o professor Tatsuo Kimura, que possui o mais alto nível técnico em Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu. Eu recebi permissão para participar de uma aula “experimental” em seu dojo na Universidade Tsukuba. Eu parti para o Japão imediatamente.

O primeiro encontro

Kimura Sensei parece ser um homem comum. Na verdade, ele parece bem mais jovem do que realmente é (53 anos). Ele certamente não parece ser alguém que possui habilidades marciais assustadoras. Olhando o professor Kimura ou as fotografias de Sagawa Sensei, nada indica que eles poderiam ter alguma capacidade ou habilidade extraordinária. Kimura Sensei está sempre sorrindo, brincando, e parece estar constantemente feliz.

Kimura Sensei era 3o dan em kendo e 5o dan em Aikido quando conheceu Sagawa Sensei. Após ter experimentado o “Aiki”, o Sr. Kimura imediatamente pediu para ser aluno de Sagawa Sensei, mas foi rejeitado. Sagawa Sensei lhe disse que ele provavelmente apenas “roubaria” algumas técnicas para melhorar seu Aikido. O Sr. Kimura foi forçado a esperar. Ele persistiu, escreveu cartas, e finalmente teve permissão de treinar no Sagawa Dojo, mas com uma condição. Sagawa Sohan não lhe ensinaria nada pessoalmente! Parece que passou muito tempo antes que Sagawa Sensei se decidisse que o Sr. Kimura era merecedor de receber instruções diretas. Não apenas o sonho de Kimura Sensei se tornou realidade, mas ele também recebeu uma recompensa muito maior, pois lhe foi ensinado todo o sistema, incluindo os "segredos internos" desta arte.

Kimura Sensei me disse que sua primeira inspiração sobre o Aiki veio em 14 de Setembro de 1997. Três dias depois, Sagawa Sohan ficou doente. Ele faleceu em 24 de março de 1998.

Mas um dia antes de sua morte, Sagawa Sohan arremessou o Sr. Kimura com Aiki continuamente por uns 15 minutos. Às vezes era com muita força, e o Sr. Kimura bateu com a cabeça com força no tatami umas três vezes. Isso é apenas um fato.

Ele explicou que quando uma pessoa tem pela primeira vez uma inspiração sobre o Aiki, ainda leva muito tempo até que ela consiga executar Aiki em todas as técnicas. Mas a diferença se apresenta na execução de todas as técnicas. “A diferença aparece depois, pois o caminho do progresso é muito diferente com Aiki”, explica Kimura Sensei.

Atualmente, ele está no nível técnico mais alto do Sagawa-ha Daito-ryu, como 10º Gen Shihan. (Yukiyoshi Sagawa Sohan organizou as técnicas do Daito-ryu em 10 níveis, chamados de “Gen”, começando com o 1o Gen seguindo até o 10º Gen).

As técnicas

Kimura Sensei me encontrou em seu escritório na Universidade Tsukuba em 27 de fevereiro de 2001. Após assinar seu livro de registro (eimeiroku), ele me disse que o agarrasse pelos braços. Kimura Sensei me disse que eu deveria usar toda a minha habilidade para resistir, e que ele só começaria a técnica quando eu dissesse que estava pronto. Eu o segurei com muita firmeza, mas com cuidado para que eu pudesse reagir rapidamente a qualquer movimento desde o início (ou, pelo menos, era isso o que eu pensava). Quando eu disse “estou pronto” fui atirado instantaneamente para trás em um sofá que ele tinha no escritório. Eu repeti a tentativa várias vezes, e todas as vezes parecia que minha força ou minha resistência era completamente inútil. Eu cheguei a pensar que meu corpo inteiro estava se recusando a me obedecer. No momento, não pude resistir, nem pude usar nenhuma força. Parecia que toda a minha força tinha desaparecido, ou que eu tinha me esquecido completamente como usá-la. Não só meu ataque não tinha intensidade, mas também as técnicas funcionavam contra a energia que eu estava aplicando, sem a união que é típica do Aikido. Isso ia contra todos os princípios que eu conhecia. O que era mais surpreendente, eu não conseguia me soltar dele para evitar o arremesso!

Depois disso, eu coloquei os braços na minha frente e fui arremessado no momento em que Kimura Sensei fez contato, mesmo com um leve toque. Eu pensei, “OK, como será com uma pegada relaxada e leve, ou mesmo com apenas um toque?” Kimura Sensei novamente me chamou, desta vez para tentar qualquer pegada suave, ou que eu tocasse sua mão, ou que apenas pegasse levemente na manga de sua roupa com meu dedo mínimo e o polegar. Eu tentei tudo isso, de várias formas diferentes, e em todas as vezes eu fui arremessado no sofá. Eu não senti nenhuma força sendo usada, mas o impacto de minhas quedas era grande, mesmo caindo sobre uma superfície macia e confortável. Eu senti como se estivesse sendo arremessado pelo vento. Kimura Sensei então me convidou a dar socos para demonstrar Aiki-Kempo. Assim que a mão dele que bloqueava fazia contato com meu braço, eu era jogado para trás. Aconteceu a mesma coisa quando ele me disse que bloqueasse seu soco, que era lento e fácil de ser recebido. No momento que meu braço bloqueava seu golpe, meus pés saíam do chão. Pela primeira vez eu senti que tinha encontrado algo misterioso em minha pesquisa sobre artes marciais. Imediatamente eu soube que estava diante de um verdadeiro mestre. Kimura Sensei ria e brincava todo o tempo (se divertindo muito em mostrar seu Aiki), mas eu não conseguia rir. A razão disso é simples: este encontro tinha um significado muito especial para mim, e eu me sentia profundamente honrado por me encontrar com uma pessoa assim.

Além de mim, outros dois convidados especiais estavam lá naquele dia. Um era Laurent, um estudante francês da University Tsukuba, o outro, um artista marcial japonês, Sr. Hasegawa (ele é professor do Katori Shinto ryu, 5o Dan de Aikido, e tinha sido campeão da Prefeitura de Saitama de Kyokushin Karate). Lembro que ele tinha uma pegada muito forte, e sua base era realmente forte. Mas, nas mãos de Kimura Sensei, ele parecia uma criança. Ele não conseguia resistir a nenhuma técnica, e era arremessado no sofá como eu tinha sido. Então me pediram que o empurrasse no sofá (segurando-o pelos braços). Na verdade, foi muito difícil fazer com que ele se movesse para trás. Tudo o que eu podia fazer era realmente usar a força física. Então Kimura Sensei me mandou relaxar, e tocou a parte de trás de meus cotovelos. Para a nossa surpresa, meu parceiro imediatamente caiu para trás no sofá. Tudo isso aconteceu em segundos. De outra vez, Kimura Sensei tocou minha costas, fazendo que meus dois parceiros voassem (cada um deles segurava meus baços com ambas as mãos, resistindo com toda a força que tinham).

Depois disso, Kimura Sensei nos encorajou a atacá-lo juntos. E éramos arremessados como pedaços de papel, todos ao mesmo tempo. Às vezes éramos arremessados em direções diferentes, e em outras aplicações nós caíamos uns sobre os outros. Kimura Sensei pediu ao Sr. Hasegawa que o atacasse da maneira do kenjutsu. No momento do contato, o Aiki seria aplicado através de qualquer objeto que estivesse sendo segurado. O Sr. Hasegawa realmente não acreditou nesta possibilidade. Ele mirou e atacou. Para sua incredulidade, realmente aconteceu, e ele desabou sobre o sofá. Isso foi uma demonstração de Aiki Ken.

Após esta exaustiva experiência, recebemos uma explicação sobre o que aconteceu. Era a rara e mística habilidade do Aiki. Kimura Sensei era capaz de aplicá-la em qualquer pessoa, em qualquer momento, e sob quaisquer condições. Aiki sempre funciona. Era mais do que eu esperava. Imediatamente eu me senti envergonhado por ser um tolo, acreditando que aprendendo apenas as técnicas (a “forma” externa, a “moldura” do Aiki Ju-jutsu) uma pessoa poderia promover o Daito-ryu. O convidado japonês e eu fomos para o dojo com Kimura Sensei.

A verdadeira experiência de treinamento

Ao nos aproximarmos das portas fechadas do dojo, minha excitação aumentou. Não é todo mundo que pode estar presente em uma sessão de prática no Dojo de Kimura Sensei, mesmo em uma simples “aula experimental”. Após uma reverência de joelhos e uma saudação de "konbanwa" ("boa noite" em japonês), rapidamente colocamos nossos dogi brancos (e faixas brancas, é claro) e nos juntamos à turma. Todos os membros estavam ocupados treinando. Primeiro, Kimura Sensei me deu uma rápida explicação sobre umas poucas técnicas básicas (sua “aparência” ou “forma”).

As técnicas ensinadas em cada aula de “experiência” consistiam de seis técnicas na posição sentada (zadori), incluídas no curso de primeiro mês do Sagawa Dojo.

Assim que eu tentava começar uma técnica, encontrava uma grande resistência, com minhas mãos sendo seguradas com “punhos de aço” ou era simplesmente arremessado. Parecia que o mais leve movimento que eu fizesse (ou o menor contato) era suficiente para iniciar Aiki. Por outro lado, quando eu tentava aplicar uma técnica contra Kimura Sensei, que não resistia, cada movimento meu gerava um contra-ataque e eu era arremessado. Na aula de Kimura Sensei todas as técnicas são aplicadas contra oponentes que resistem com firmeza. Recebi ordens de mudar de parceiros, começando com os mais graduados (faixas pretas), e gradualmente trabalhando com os demais até chegar nos faixas brancas, mas estes “novatos” não pareciam verdadeiramente “novatos” para mim. Eu fiquei muito surpreso com as habilidades de todos. Eles eram muito bons. Eu não consegui aplicar nenhuma técnica em ninguém naquele dojo, o que ocorreu foi o oposto, qualquer um deles podia facilmente aplicar suas técnicas em mim, me jogando para a esquerda e para a direita, para frente e para trás. É importante notar que todas as técnicas que me foram ensinadas eram feitas apenas em zadori. Estas são as técnicas do primeiro mês do Sagawa-ha Daito-ryu.

Eu tive a honra de ser o Uke de Kimura Sensei algumas vezes. A cada vez eu era arremessado para cima e para longe, seriamente preocupado com a aterrissagem. Minhas habilidades com Ukemi (rolamentos) se mostraram muito úteis, mas de forma limitada. Eu não conseguia sentir nenhuma força sendo usada pelo Sensei, mas podia sentir o impacto de cada técnica... no tatami! Compreendi que não existe Ju-jutsu sem Aiki no Daito-ryu. Sem imobilizações de juntas que causam dor, mas um desequilíbrio imediato do agressor, forçando seu corpo a cair. Na verdade, eu não caía simplesmente, geralmente meus pés saíam do chão, como se eu realmente estivesse sendo arremessado no ar. Eu nunca senti algo assim em qualquer outro dojo, de Daito-ryu ou de Aikido.

A aula terminou em duas horas. Eu estava completamente confuso (assim como meu colega, o Sr. Hasegawa), e eu não podia me conformar com a idéia de não poder treinar novamente. Mas essa era a condição de Kimura Sensei, apenas uma aula de introdução!

Naquela noite não consegui dormir. No dia seguinte fiquei doente, incapaz de pensar. Minha mente estava distorcida. Eu consegui contatar Kimura Sensei, mas não poderia praticar mais. Entretanto, eu me decidi a manter o contato.

Uma bênção

Mais de um mês se passou depois de minha primeira experiência com o Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu. Decidi contatar Kimura Sensei novamente. Neste dia, Kimura Sensei permitiu que eu treinasse novamente.

Cada vez que eu ia a Tsukuba era um dia especial para mim. Cada prática era uma honra, e tudo o que eu desejava era treinar Sagawa-ha Daito-ryu Aiki Bu-jutsu ensinado por Tatsuo Kimura Sensei.

Quase todas as práticas consistiam em técnicas na posição sentada. Acho que as técnicas básicas (para o primeiro mês de prática no Sagawa Dojo) feitas na posição sentada são os pontos chaves para muitas técnicas de Aiki no Daito-ryu. Só posso dizer que havia técnicas de imobilização de juntas (como eu disse antes, eu não sentia dor, mas meu corpo era arremessado), técnicas básicas de Aiki, e algumas variações na posição de pé. Era diferente do Aikido, em que a pessoa cai para o parceiro. Todas as técnicas de Aiki de Sagawa-ha devem ser aplicadas contra parceiros que resistem 100% todo o tempo. Havia momentos em que as técnicas devem ser praticadas de forma relaxada, para que se domine a “forma”, mas a prática real é feita através da aplicação eficiente de cada técnica contra oponentes que resistem completamente. Não pode ser usada nenhuma força física! Obviamente, eu não conseguia fazer nenhuma delas com sucesso, hoje em dia, como experiência, eu as pratico diariamente na esperança de uma iluminação.

Então, o que é o Aiki?

“Mesmo que você seja segurado (atacado) com força, faça a técnica com leveza!” (Sagawa Sohan)

O Aiki é um poder da energia Ki? É Kiko (Qigong)? – Não!

É um tipo de alucinação, hipnose? – Não!

O Aiki pode ser obtido através da meditação? – Não!

Ele se baseia nas leis da física? – Não!

Na anatomia humana? – Não

É mágica? – Não!

Então o que é?

Bem, primeiro eu devo informar aos leitores que Sagawa Sensei desenvolveu uma forma diferente de Aiki, mais avançada. Assim, esse Aiki é diferente do que foi aprendido de Sokaku Takeda Sensei. Sei que encontrarei críticas, mas para mim parece ser o único Aiki real, prático. Posso até ir mais além, declarando que se o único foco do Daito-ryu é o Aiki, então só deve haver um Daito-ryu, como uma arte completa.

Só posso descrever o que eu aprendi sobre Aiki da prática em Sagawa-ha Daito-ryu. Aiki não é Kiko (Qigong em chinês), não é hipnose nem mágica, e não tem muito a ver com o nosso modo lógico de pensar. A única forma é pensar nas várias formas ao aprender uma técnica eficiente de Aiki. DEVE SER FEITO COM LEVEZA. Qualquer excesso de força física é inaceitável. Através do treinamento constante da "forma" contra vários graus de resistência, talvez seja possível que um dia o praticante adquira a maestria desta habilidade. Para mim, o Aiki não é algo que possa ser encontrado em nosso mundo. Além disso, só Kimura Sensei possui esta habilidade única. Diz-se que ninguém além de Kimura Sensei atingiu um nível tão alto de compreensão do Aiki, e ele realmente o pratica.

“Aiki é a habilidade de tirar do oponente todo o seu poder no instante do contato.” (Sagawa Sohan)

“O Aiki existe em uma dimensão completamente diferente.” (Tatsuo Kimura, Jugen Shihan)

Treinar muito todos os dias não trará os resultados desejados. O treinamento físico sem um desejo intenso será inútil, e vice-versa, e desejo por si só não fará com que a pessoa se torne um mestre de Aiki sem o treinamento sincero. E para finalizar este longo artigo, só posso dizer que eu estava muito cético quanto à parte mística de várias artes marciais antes de encontrar Kimura Sensei. A oportunidade que ele me deu mudou completamente minha forma de pensar. E mudou todo o meu conceito sobre o Daito-ryu.

Eu gostaria de demonstrar minha grande gratidão a Tatsuo Kimura Shihan por ter me dado uma oportunidade assim. Ao escrever este artigo, a ajuda de Kimura Shihan foi enorme. E também ao Sr. Stanley Pranin, porque sem seu Aikido Journal seria muito difícil dar este relato sobre o Sagawa-ha Daito-ryu.

Domo arigato gozaimashita.

Tradução: Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo - Brazil Aikikai)

Nota de Wagner Bull Shihan

Cada pessoa percebe uma experiência de acordo com a sua própria anterior. Em minha viajem ao Japão, agora em maio de 2007, tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Mestre Kimura, e a sorte dele permitir que eu treinasse em seu Dojo. Foi uma experiência muito interessante e a comprovação de muitas coisas que venho percebendo no meu treino do dia-a-dia e de outras que ainda não sei bem como fazer, mas algo ficou claro: os aikidoka não podem se acomodar com a forma de treinar que a maioria dos praticantes e professores estão fazendo atualmente em termos da arte ser eficiente como luta de defesa pessoal. É preciso se aprofundar nas raízes deste caminho sob o ponto de vista técnico, que é o Daito-ryu; falta base, conhecimento de certos princípios que parece que se perderam na maioria das escolas de Aikido. O Aikido desenvolveu-se maravilhosamente na sua proposta ética e filosófica, mas a parte técnica neste processo sofreu com isto. É preciso ir mais na fonte, buscar as razões pelas quais os movimentos são feitos. É o que já vínhamos fazendo no Instituto Takemussu, e depois desta experiência que tive com Kimura Sensei, pretendo intensificar ainda mais o treinamento neste sentido. Aikido é sim um caminho de iluminação espiritual, mas tem que estar alicerçado em uma arte marcial eficiente para realmente transformar o indivíduo e fazê-lo sentir-se integrado com o Universo; esta é a minha conclusão até aqui.
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Principais formas de Waza

OUTUBRO, 2009 | Paolo Corallini
Questões sobre as diferenças entre Oyo Waza e Henka Waza são muito frequentes, então é importante tornar claro algumas dúvidas a este respeito.

Kihon Waza é a “técnica básica”, a forma pura que é executada quando você é atacado ou agarrado firmemente. O Fundador recomendava estudar profundamente este nível - chamado Kotai - até a graduação Sandan (3o Dan). No Kihon Waza quaisquer variações das técnicas são permitidas.

O Ki no Nagare Waza inclui todas as “técnicas fluidas”, ou seja, técnicas executadas em movimento. O Nage (quem recebe o ataque) funde-se com o ataque do Uke (quem ataca), ou segura-o e executa técnicas de controle ou de projeção sem qualquer interrupção até o fim. Existem diferentes níveis de Ki no Nagare Waza para cada série de técnicas. O-Sensei recomendava iniciar a prática de Ki no Nagare Waza de Sandan em diante.

Oyo Waza significa literalmente “técnicas aplicadas”, sendo estas caracterizadas quando o Nage é atacado de uma forma muito particular, ou por um oponente muito forte, ou ainda por um oponente mais alto/baixo, tendo então que “adaptar” a técnica básica, sem variações significativas.

Henka Waza significa “variações”. Estas devem ser consideradas como técnicas avançadas e só devem ser praticadas depois que as técnicas básicas (Kihon Waza) e as técnicas fluídas (Ki no Nagare Waza) tiverem sido aprendidas muito bem. No Henka Waza é possível reconhecer o princípio utilizado, que vem das técnicas básicas, mas a execução da mesma é muito ou totalmente diferente da técnica original.

O Kanren Waza inclui uma série de técnicas “ligadas”. Isto quer dizer que quando o Nage executa uma técnica básica e o Uke reagir de forma inesperada, ou cair e levantar novamente, o Nage tem que aplicar uma outra técnica. Durante a execução do Kanren Waza, mais de duas técnicas podem ser ligadas.

Kaeshi Waza significa literalmente “técnica de reação”. O Fundador considerava estas técnicas como técnicas secretas (Himitsu Waza) e por este motivo não deveriam ser mostradas em público e só deveriam ser ensinadas à poucos alunos de confiança no fim de nossa vida de treinos.

Esta tradição, típica das artes marciais, vem do risco que um mestre, mesmo um muito habilidoso, poderia correr ao enfrentar um oponente mais forte, ou até mesmo um de seus próprios alunos. Então, esta série de técnicas muito especiais representavam a última chance de vencer e sobreviver.

Normalmente, Kaeshi Waza são aplicados quando o oponente comete um erro ou se ele hesita, e, se executadas de forma adequada, não permitem uma nova reação por parte do Uke.

É recomendado distinguir claramente estes tipos de técnicas para que se possa evitar confundí-las, e preservar assim a tradição do Aikido.

Tradução: Rodrigo Mesquita
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Ki no Nagare: o fluxo do Ki

1921-1999 | Kisshomaru Ueshiba
O Ki é um dos conceitos centrais do pensamento oriental que contribuiu para o alto nível filosófico que nós asiáticos herdamos de nosso passado distante. E mais, nossos antepassados acreditavam que o “Ki” era a própria vida. É uma forma de conceitualizar a força vital, ou o poder do espírito. Inclusive hoje em dia, em nossa vida diária, utilizamos muitas palavras que refletem esta herança. Por exemplo, sentimos que não se pode conseguir nada se uma pessoa “tiver perdido seu Ki” (estar desanimado), ou se seu “Ki enfraquecer/secar” (estar deprimido). A doença, em caracteres japoneses, se escreve literalmente “Ki enfermo” e, portanto, é um conceito associado em nossas mentes à idéia da morte. Uma ativação máxima e livre manifestação do Ki que qualquer ser humano possui, permite um inconcebível poder e possibilita a ele viver a vida de forma mais livre e vigorosa. Aqui reside a importância da existência do Aikido, já que o treinamento correto na arte ensina a capacidade de manifestar livremente seu Ki.

Para dominar esta sensação, devem estar de acordo o Ki contido no Kokyu-Ryoku (poder respiratório) humano e o Ki original, onipresente no Universo. A característica que distingue os movimentos do Aikido reside na harmonização com a ordem do Universo e no ajuste espontâneo à suas mudanças. Portanto, se pratica o Aikido com o fim de realizar a unificação do Ki individual com o do Universo, fomentando o Kokyu-Ryoku. Quando este poder respiratório se estende de todas as partes do corpo e se projeta através de ambas as mãos, as técnicas do Aikido se vivificam e manifestam todo o seu valor. Isto, por sua vez, faz da pessoa uma encarnação da totalidade da natureza.

Não é possível personificar em si mesmo a forma da Mãe Natureza se nossos movimentos estão baseados dentro do ego. Ao contrário, deveríamos conduzir o adversário e nos tornar uno com ele no estado mental que se pode chamar “o reino do não-ego”, no qual se sente o fluir do Ki vital. Quando alguém é capaz de dominar a técnica Aiki até o ponto de tê-la livremente às suas ordens, moverá seu adversário em qualquer direção que queira mediante o fluxo do Ki vivo; haverá aprendido a absorver o fluxo do Ki do adversário e a controlar-lhe por meio desta unificação, e não mediante a oposição.

Esta utilização correta do fluxo do Ki só pode ser dominada através do treinamento constante no Aikido e do esforço rigoroso para fomentar o Kokyu-Ryoku. Assim, podemos definir o fluxo de Ki como o estado em que toda a força vital concedida a qualquer ser humano adquire seu máximo desenvolvimento e manifestação.

Tradução: Rubens Caruso Jr.
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A importância das técnicas básicas

1928-2002 | Morihiro Saito
A importância de uma sólida compreensão das técnicas básicas não pode ser deixada de lado. Muitas escolas de Aikido ensinam principalmente Ki no Nagare, ou seja, técnicas com fluidez de Ki. Neste tipo de treinamento, as técnicas são executadas a partir de um movimento inicial dispensando totalmente a prática básica onde você permite ser agarrado firmemente. Este tipo de prática pré-arranjada é bem sucedida somente quando ambos os parceiros cooperam completamente. Problemas ocorrem, no entanto, quando estudantes acostumados somente com este tipo de treinamento são confrontados com um oponente forte e não cooperativo. Treinando-se somente Ki no Nagare fica-se totalmente despreparado para a força e ferocidade de um ataque real. Os ataques fracos e não diretos realizados neste tipo de treinamento são comuns no moderno Aikido, no entanto este modo de treinamento é totalmente contrário aos princípios marciais ensinados pelo Fundador.

Aqueles que praticam as técnicas básicas, opostamente àqueles que treinam exclusivamente as técnicas em Ki no Nagare, aprendem como lidar progressivamente com ataques fortes. A fim de realizar isto, você deve estar certo de que quando estiver agarrando seu parceiro de treinamento, esteja fazendo-o firmemente e com uma real intenção. Se seu parceiro é incapaz de mover-se, então diminua a força de seu ataque até que ele ou ela seja capaz de executar uma técnica apropriada. Sempre regule a intensidade de seu ataque ao nível de seu parceiro.

No treinamento básico, todas as técnicas começam a partir de um Hanmi, ou postura preparatória. O Hanmi no Aikido é uma postura triangular com o pé da frente voltado para frente e o pé de trás perpendicular ao frontal e voltado para o lado. A capacidade de mudar de posição rapidamente mantendo-se estável e girando os quadris completamente, depende de um apropriado Hanmi. As duas posições mais comuns são: Gyaku Hanmi (posição invertida) e Ai Hanmi (posição igual). Em Gyaku Hanmi você e seu parceiro têm os pés opostos à frente, enquanto que em Ai Hanmi ambos têm o mesmo pé à frente. Esta distinção é muito importante e, na maioria das vezes, o sucesso na execução das técnicas do Aikido dependerá de iniciá-las no Hanmi apropriado.

Uma deficiência comum no treinamento de hoje é a falta da prática dos Atemi, ou ataques em pontos vitais. Os Atemi são usados para enfraquecer ou neutralizar um ataque do oponente para criar-se assim uma situação favorável na qual pode-se executar uma técnica. Em muitas situações é virtualmente impossível desequilibrar um oponente forte, suficientemente para aplicar uma técnica sem recorrer-se ao Atemi. Aqueles que afirmam que o uso de tais ataques (executados com o intuito de tirar a atenção do oponente do objetivo principal da técnica) é muito violento ou “não é Aikido” ignoram os conceitos do Aikido ensinados pelo Fundador, que dava grande ênfase sobre a necessidade de tais movimentos durante o treinamento. Os Atemi são uma parte essencial das técnicas básicas e também avançadas, e não devem ser omitidos de sua prática.

O Fundador sempre iniciava as sessões práticas com os exercícios de Tai no Henko e Morotedori Kokyo-ho. Ele terminava cada prática com o treinamento de Suwari Waza Kokyu-ho. Os exercícios de Tai no Henko constituem a base dos movimentos Ura, ou movimentos girando, e os dois Kokyu-ho, ou métodos de respirar, ensinam como respirar corretamente, a coordenação apropriada do corpo e como estender o Ki intensamente.

No treinamento do Aikido nós abrimos nossos dedos para estender o Ki através dos braços. Abrir os dedos é uma forma de aprender as técnicas básicas, um treinamento que permitirá a você executá-las sem usar qualquer força. Abrindo os dedos quando seu pulso é subitamente agarrado torna-o mais grosso, e dá à você uma vantagem. Para aqueles aprendendo defesa pessoal é dito para abrirem seus dedos quando agarrados porque o braço torna-se difícil de segurar.

O Ki é algo adquirido naturalmente através da correta prática dos fundamentos básicos. Se você se preocupar demais com o Ki, você será incapaz de mover-se. O Ki se manifestará por si mesmo naturalmente se você estiver treinando corretamente. Uma vez que você tenha desenvolvido o Ki, este fluirá livremente através de suas mãos mesmo quando seus dedos estiverem relaxados.

O Fundador considerava as técnicas de Ikkyo até Sankyo como sendo movimentos preparatórios no Aikido. No Ikkyo você treina seu corpo; no Nikyo você dobra seu pulso para dentro estimulando e fortalecendo as juntas; no Sankyo você move seu pulso para fora na direção oposta. Através da prática destas técnicas, você desenvolve um corpo capaz de derrotar um inimigo com um único golpe. Estas técnicas básicas são sua preparação, e o treinamento nas técnicas do Aikido começa através delas.

Outra parte essencial do treinamento dos fundamentos do Aikido é o domínio da entrada e dos movimentos de giro. Se você decide avançar, você deve avançar totalmente. Se você decide girar para trás deve fazê-lo completamente. É difícil avançar depois de desviar um golpe, a menos que você possua uma vantagem em força. Portanto, gire sempre que necessário, como quando estiver em uma situação onde você seja incapaz de bloquear. A prática de técnicas girando é também necessária para se aprender como mover-se livremente.

Recentemente, o termo “Takemusu Aiki” tem sido usado bastante livremente, porém parece que poucas pessoas compreendem seu significado. Takemusu Aiki refere-se à um estado onde técnicas nascem infinitamente como resultado do estudo dos princípios do Aikido. No treinamento do Aikido – que inclui técnicas de mãos vazias (Tai Jutsu), Aiki Ken e Aiki Jo – é importante fazer claras distinções. Estas incluem as distinções entre Ikkyo e Nikyo, Omote e Ura, técnicas básicas e Ki no Nagare, e técnicas aplicadas (Oyo Waza). Em uma recente viagem à Itália, experimentei executar tantas técnicas quanto podia. Concentrando-me apenas sobre as técnicas básicas, Ki no Nagare, variações e técnicas aplicadas, acabei por realizar mais de 4 centenas de técnicas, e estou certo de que o número teria subido para mais de 6 centenas caso tivesse incluído técnicas partindo da posição sentada, Hanmi-handachi (atacante em pé, defensor sentado), e técnicas de contra-ataque.

Não importa o quão esplendidamente as pessoas escrevam sobre Takemusu Aiki, elas devem ser capazes de executar estas maravilhosas técnicas por si mesmas, se elas estão sendo consideradas como professores. Se vocês continuam a praticar assiduamente de acordo com o método tradicional, alcançarão o estágio onde serão capazes de executar um número infinito de técnicas desde as básicas até as mais avançadas.

Tradução: Rubens Caruso Jr.
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Conceitos básicos para iniciantes

OUTUBRO, 2009 | rodrigo mesquita
Com o intuito de ajudar os iniciantes, estamos disponibilizando um pequeno resumo dos pontos principais abordados nos primeiros meses de treinamento. Com este resumo e o auxílio dos instrutores espera-se que os praticantes possam compreender melhor alguns conceitos básicos como Tai Sabaki, Ukemi, Mokuso e outros.

Tai Sabaki significa “movimentação/esquiva do corpo”. Quando uma pessoa inicia na prática do Aikido, a primeira coisa que ela aprende é o Tai Sabaki - que no Aikido consiste no conjunto de movimentos partindo de uma determinada postura - e os Ukemi (quedas). As posturas do Aikido têm por finalidade criar um centro de gravidade estável, através do qual o praticante poderá executar as técnicas de forma firme e segura, sempre agindo como centro do movimento, hora utilizando a força centrípeta, hora a força centrífuga.
O Kamae básico do Aikido é o Hanmi, que significa literalmente “metade do corpo”. Kamae é qualquer posição/postura de guarda que abranja, além da postura física propriamente dita, uma atitude mental de alta sensibilidade e preparação para desencadear qualquer técnica. Ao lado vemos como executar corretamente o Hidari Hanmi (Hanmi esquerdo, ou seja, com a perna esquerda à frente) e o Migi Hanmi (Hanmi direito).

Cabe salientar que o Hanmi normalmente é feito com o pé da frente apontando diretamente para frente, enquanto que o pé de trás fica num ângulo de 90º em relação ao pé da frente, deixando o corpo ligeiramente de lado (daí o nome da postura ser “metade do corpo”), fazendo do mesmo um alvo menor. Através da influência de alguns mestres como Gozo Shioda, algumas escolas de Aikido adotaram um Hanmi um pouco diferente (o mesmo da imagem acima) - com a ponta dos pés ligeiramente voltada para fora da linha de ataque - que é o que utilizamos no Naikan Dojo e que nos foi ensinado pelo Shihan Wagner Bull.
O modo como executamos corretamente este Hanmi é com a perna da frente flexionada, mantendo cerca de setenta por cento do peso do corpo nela, e a perna de trás completamente esticada, com cerca de trinta por cento do peso do corpo nela. Isso varia bastante, uma vez que ao mudarmos de um Tai Sabaki para outro é comum ocorrerem mudanças no peso depositado em cada perna, variando ainda em decorrência do tipo de técnica que executamos. É importante também apoiar-se sempre na parte dianteira da sola do pé, nunca apoiando o peso do corpo sobre os calcanhares.

Partindo do Hanmi, temos alguns movimentos básicos de esquiva normalmente utilizados dentro das técnicas do Aikido, que são: Tenkai Ashi (pivô sobre os pés), Goho Tenkan (girar nas “cinco” direções, realizando uma esquiva) e o Irimi Tenkan (entrar/avançar no espaço do atacante, posteriormente realizando uma esquiva).

Abaixo disponibilizamos um esquema gráfico dos movimentos citados, para auxiliar os iniciantes. As marcas pontilhadas (dos pés) indicam a posição inicial, e as marcas preenchidas indicam a posição final. A cor vermelha representa o pé esquerdo, e a azul o direito. A numeração indica a ordem em que os movimentos são feitos. O pequeno círculo branco indica o ponto de apoio para se realizar o movimento com os pés.
Além destes Tai Sabaki existem outros, porém, nos ateremos à apenas mais três: Okuri Ashi, Tsugi Ashi e Ayumi Ashi. Estes três movimentos não se tratam de esquivas, mas sim de deslocamentos. São o modo correto de “andar” dentro da postura Hanmi. Segue a ilustração:
Como se pode perceber, no Okuri Ashi e no Ayumi Ashi a distância percorrida é praticamente a mesma. Já no Tsugi Ashi, alcança-se uma distância maior. 

Além do Tai Sabaki, existem alguns conceitos básicos no Aikido com os quais o iniciante deve se familiarizar. São eles: o Mokuso (concentração), Ki Wo Dasu (estender o Ki), e os Ukemi (quedas).

Mokuso é a concentração feita em Seiza (postura sentado sobre os calcanhares, com o peito dos pés contra o Tatami) realizada no começo e final de cada aula, onde se busca limpar a mente de tagarelices e pensamentos, buscando assim um sentimento de calma e concentração. Neste momento colocamos todas as nossas energias no Saika no Iten (centro energético que fica localizado à aproximadamente cinco centímetros abaixo do umbigo), e permanecemos nesta postura até sentirmos um estado de unificação com o Universo. É importante manter uma postura correta, com a coluna ereta, cabeça alinhada e o corpo relaxado. No Aikido, procura-se realizar as técnicas com o mesmo sentimento interior de Mokuso, buscando assim que essa atitude acabe por se estender em todos os momentos da vida do praticante.
Além da prática do Mokuso, temos o Ki Wo Dasu, ou prática de estender o Ki. Através dela, fazemos com que a energia concentrada no Saika no Iten flua para o exterior através dos braços e dedos. Aprender a estender a energia, que flue do Saika no Iten, é fundamental para se praticar Aikido corretamente. Por isso a importância de manter os braços e dedos das mãos sempre estendidos, a fim de que o Ki flua livremente, sem estagnar. A partir desta prática aprendemos que no Aikido os braços se tornam fortes, porém flexíveis, ficando as articulações livres para se moverem de acordo com a necessidade da técnica.

Por fim, temos os Ukemi, as quedas do Aikido. O Ukemi é também conhecido como a Arte de Receber a Técnica. O iniciante no Aikido deve aprender os Ukemi para que possa ser arremessado ou imobilizado sem se machucar. Mesmo após aprender a fazer as quedas básicas, o Aikidoka deve continuar a se esforçar para fazê-las cada vez melhor, de forma que se tornem naturais e harmônicas. Segundo o Shihan Wagner Bull, para se realizar um bom Ukemi são necessários três elementos: flexibilidade, determinação (sem imprudência ou exibicionismo) e, o mais importante, entregar-se para seu parceiro, sem tensão, de forma relaxada e atenta para qualquer eventual mudança no movimento e na força aplicada. O Nage (aquele que executa a técnica) deve prestar atenção à segurança do Uke (o que recebe a técnica), seguindo o movimento natural do seu corpo e emitindo apenas o poder necessário para concretizar a técnica.

No Oriente, a maestria de um artista marcial é medida não apenas pelo seu potencial de ataque, mas principalmente pela sua capacidade de defender-se usando somente a força e a energia mínima necessárias, sem lesar seu(s) atacante(s) em ambos os casos.

Dentro dos Ukemi básicos do Aikido temos: Mae Kaiten Ukemi, Ushiro Ukemi e Ushiro Kaiten Ukemi. O Mae Kaiten Ukemi consiste em transformar o corpo em uma esfera, rolando para a frente. O Ushiro Ukemi é a queda de costas contra o Tatami, executada quando não há espaço para se rolar e levantar de uma distância mais segura. O Ushiro Kaiten Ukemi é o inverso do Mae Kaiten Ukemi, ou seja, uma queda em que se transforma o corpo em uma esfera, rolando para trás.

Além das quedas básicas, existem outras muito utilizadas no Aikido, como o Yoko Ukemi (queda de lado), Ushiro Otoshi Ukemi (queda de costas com projeção), Ushiro Otoshi Kaiten Ukemi, Mae Zempo Ukemi, e os Henka Waza (variações das quedas básicas).

Todas as quedas e rolamentos devem continuar com o Uke se colocando de pé o mais rapidamente possível, sempre olhando para o Nage e mantendo o Zanshin.

*Este artigo contém citações diretas e adaptações retiradas de http://www.aikikai.org.br/e_tec.html
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