Conscientizar-se é entender o Caminho

julho, 2018 | Herbert Carmo
Lema é uma frase de motivação, ela mostra uma direção a seguir. Em um dos 14 lemas do Aikidô escritos pelo sensei Massanao Ueno baseado na filosofia do O sensei Morihei Ueshiba diz: “Conscientizar-se que o Aikidô é um dos caminhos que leva a Deus;”. Mas quais são esses caminhos; Como devemos trilha-los; E qual é o seu destino?

A humanidade descobriu diversas formas de se viver sobre a terra, de caminhar sua jornada sobre ela. Alguns parecem coerentes, outros não. Alguns entenderam que se deve ter liberdade para que o indivíduo siga o seu caminho, outros que a vida deve ser seguida segundo regras restritas de comportamento, conduta e ética. No japão onde Ô Sensei Morihei Ueshiba criou o Aikidô, as religiões Xintô e a Omoto foram a base filosófica para se entender o caminho a que o Aiki se propõe, nelas não se há dogmas e suas principais características são a aceitação e a gratidão. E por essa rezão acredito que o Aikidô é recomendada pelo Shihan Wagner Bull como complemento para todas as pessoas, independente de gênero, credo ou cor, devido a suas características fundamentais filosóficas que são aceitar quem se é, e ser grato por isso.

Trilhar o caminho é o grande desafio para cada humano na terra, uma mensagem muito forte que até hoje marca o meu caminho foi quando sensei Rodrigo me emprestou o livro Coração de Diamante, nele A. H. Almaas faz um questionamento que quando o li me senti golpeado por uma lógica até o momento nunca questionada, Ele afirma que crianças esperam que lhe mostrem o caminho a que se pode trilhar, mas homens entendem que ninguém pode fazer isso por você, pois cada um tem seu próprio caminho a trilhar. C. G. Jung chamava esse entendimento de se descobrir quem é e qual sua missão no mundo de individuação. E se percebermos bem, nenhum dos grandes iluminados nos disse como trilhar o caminho, somente apontou qual seria o norte.

Ô Sensei em um de seus aforismas no livro a arte da paz (p.42) ele diz que “...muitos foram os iluminados que passaram pelo mundo em diversas épocas mas todos eles mostravam o mesmo caminho, pois todos os caminhos levam ao topo da montanha...” Por mais que pareçam e sejam caminhos obviamente destintos, onde cada uma argumenta a melhor forma de se trilhar Ô Sensei revela que todos eles tem o mesmo destino e ele deixa esse destino muito claro, “o cume da montanha é o amor”.

Provavelmente essa é a maior beleza de conscientizar-se do caminho segundo a filosofia do Aikidô. Com ele entendemos que existem diversos descobertos pela humanidade ao decorrer da história, e nenhum deles é melhor ou pior que o outro. E que o destino é o mesmo, seguindo nossa razão ou sentimentos, ou a instruções de terceiros. Em uma citação que encontrei de Elbert Hubbard nos é revelada a logica simples de tudo, ele diz: “A vida é uma viagem, uma alucinante aventura, da qual jamais sairemos vivos”. Então depois de ter essa aceitação e gratidão encontramos a harmonia das energias a que Ô Sensei nos deixou como mensagem através do Aikidô, O destino é um só o importante é a jornada, ou o caminho, você escolhe o nome que desejar, só o aceite e seja grato por ele.

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Aikido pós-guerra, unificação e elevação espiritual

julho, 2018 | Nilce Almeida
O Aikido foi criado através do conceito de unir com o ki (energia) do atacante, fazendo com que se a perceba suas intenções através da analise de seu ponto de vista. Tornando-se um só, se moldando aos obstáculos. A arte da paz foi criada visando a resolução pacífica dos conflitos, fazer o que se quer dentro do que o outro permite. Devido a essa característica o Aikido pode ser praticado por todos os tipos de pessoas, jovens, idosos, homens, mulheres e crianças, cada um treina de acordo suas possibilidades e evolui dentro deste aspecto.

Aikido pós-guerra

O Aikido expandiu-se rapidamente pelo mundo depois da Segunda Guerra Mundial. No início da Segunda Guerra Mundial, a prática do Aikido, assim como de todas as artes marciais no Japão, foi proibida. Seu criador, Morihei Ueshiba, migra da capital para uma pequena província no interior do país onde construiu um pequeno santuário e um espaço para a prática do Aikido sem o conhecimento das autoridades. Os treinos eram realizados no período da noite e também nas madrugadas na ausência de luz ou, no máximo, na presença de lua cheia para que não despertasse a curiosidade. Até então, a arte que Ueshiba praticava era de sua própria formação e se chamava Aikibudo, sendo conhecida como uma das mais eficazes técnicas de combate até então.

Após a morte do fundador, em 1969, o Aikido passou a ser administrado no mundo pelo seu filho, Kisshomaru Ueshiba, que foi o grande responsável pela segunda fase do Aikido, juntamente com nomes como Koishe Tohei, Gozo Shioda, Kenji Tomiki entre outros. Foi a era da expansão da arte fora do território japonês. Nessa fase o Aikido passou a ser praticado em países como Inglaterra, Bélgica, Itália, Estados Unidos, Argentina e Brasil, países do sudeste asiático como Tailândia, Singapura e Malásia, além de alguns países do oriente médio, fazendo enorme sucesso e adquirindo novos adeptos.

Essas figuras-chave desapreciaram algumas partes do legado do Aikido de Morihei Ueshiba. Kisshomaru e Tohei, acima de tudo, abandonaram as técnicas marciais do fundador, a teoria do Budo e metodologia de ensino. Todos chegaram a conclusão que a linguagem e explicações arcanas sobre os principais conceitos de Aikido de Morihei eram inadequados para os tempos modernos. No entanto, com exceção de Tohei, todos eram cuidadosos em suas críticas, fazendo-as em termos diplomáticos enquanto mostravam respeito exteriormente. Kisshomaru e Tohei formaram a espinha dorsal da organização Aikikai a qual a grande parte dos praticantes do Aikido em todo o mundo após a guerra deve obediência até hoje.

Tirando o aspecto da desapreciação de algumas partes do Aikido de Ueshiba ficamos com a essência, não se puxa ou empurra o oponente quando somos atacados, tampouco deve-se forçar qualquer movimento que vá contra a intenção ou força do atacante. Isso significa que quando somos empurrados devemos, somente depois desta ação, juntar as forças, criando mussubi, e a partir daí criar, desenvolver a técnica.

Unificação e elevação espiritual

O Aikido ensina a liderar e a trabalhar sob liderança sempre criando harmonia, em qualquer situação nosso potencial é desenvolvido. Trabalha-se a elevação do EU e a lapidação do caráter através das inúmeras formas de técnicas e treinamentos, auxiliando desta forma a construção da personalidade e espiritualidade.

Ao compreender os princípios conseguimos adequar nossa conduta, aprendemos os movimentos interligados e nosso aprendizado prospera cada vez mais. Descobrimos como praticar a humildade, sem inflamar o Ego nem alimentar sentimentos mesquinhos, sem querer ser melhor que os outros, apenas ser o nosso melhor a cada dia. Assim como a parábola da espiga de arroz que quanto mais se enche mais se curva.

A prática constante nos leva a obter incríveis experiências tornando-nos melhores surgindo uma admiração e respeito dos que nos rodeiam. Quando a tarefa é grande a recompensa também será, logo, se houver dedicação, com respeito, sinceridade, doação e muito esforço, consegue-se vivenciar no dia a dia os benefícios do treinamento, tornando-se evoluído e equilibrado isso nos leva a uma elevação espiritual.

“Aikido é a arte da conciliação. O homem que deseja brigar perde a ligação com o Universo. Aquele que tenta dominar as pessoas, termina dominado. Nós estamos aqui estudando a arte de resolver conflitos e não de inicia-los.

O Aikido é o caminho da harmonização do mundo que faz de toda a humanidade uma grande família” Morihei Ueshiba

Agradecimentos

Agradeço primeiramente a Deus por me conceder a dadiva da vida, a O-Sensei por compartilhar com o mundo essa arte maravilhosa de resolução de conflitos. Agradeço ao Sensei Rodrigo Mesquita e ao professor Henrique pelos ensinamentos, pela paciência e carinho. A Henrique, meu esposo, agradeço por ter me apresentado o Aikido como forma de elevação espiritual, de defesa pessoal e atividade física. Aos colegas de treino, Enzo, J. Henrique, Barreto, Viana, Ricardo, Josy, Laís, Rízia, Moisés, Ricardinho, Herbet, Fernanda, Bruna, Gustavo, a todos vocês agradeço a doação diária e amizade. A todos que estiveram conosco que sigam seus caminhos da melhor forma deixo também meu muito obrigado.

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Aikido: Autoconhecimento e lapidação do carater

julho, 2018 | Laís Nascimento
Aikido é uma arte marcial criada no Japão pelo mestre Morihei Ueshiba, o termo Aikido é composto por três caracteres KANJI:


Ai: harmonia  合

Ki: energia     気

Dô: caminho 道

"Caminho da Harmonização das Energias".


O conceito fundamental nessa arte marcial tem como principio a harmonia, seja entres os praticantes, seja entre o universo que os rodeia. Ô-Sensei (grande mestre) consciente que não poderia haver harmonia na destruição, começou a desenvolver os conceitos de sua própria arte marcial, onde não havia a ideia de vencer ou destruir o inimigo, mas pura e tão somente a de encerrar um conflito.

Aikido é BUSHIDO (caminho do guerreiro), isso significa que não são apenas técnicas, regras ou etiquetas exigidas dentro do tatame mas são experiências para a vida. O espirito de ZANSHIN é o estado do espirito que permanece, que continua. É frequentemente descrito como um estado continuado de atenção aumentada e decisão. O ZANSHIN é o estado de foco ou concentração que o UKE e o NAGE se mantêm, antes, durante e depois da execução de uma técnica.

O ser humano em sua essência é imediatista, somos levados pela emoção do momento e muitas vezes tomamos decisões precipitadas, o Aikido nos ensina a buscar a harmonia para vivermos melhor na sociedade, usando o ZANSHIN aprendemos a estar atentos a tudo que nos rodeia, perceber as oportunidades e harmonizamos as dificuldades. Estar sensível ao universo ao nosso redor, isso é ZANSHIN, é estar preparado para qualquer acontecimento, encontrar saídas e as soluções para problemas, é estar atento sem criar tensões, deixar fluir, para assim perceber e estar conectado a tudo que nos cerca.

O Aikido, com os seus lemas, atua como uma ferramenta que nos ajuda a perceber nosso estado emocional e mental, com isso ajuda-nos a alcançar o autocontrole e autoconhecimento. Os lemas devem ser utilizados como instrumentos de autoanálise.

LEMAS DO AIKIDO:

1. Manter a disciplina – A discipline é a ferramenta mais importante para tudo que se deseja alcançar, não só em relação aos treinos, mas, para tudo na vida precisamos ser disciplinados.

2. Não se enervar – O nervosismo afeta tudo que fazemos, projetos, relações interpessoais, nossas decisões, o autocontrole evita-nos de cometer erros.

3. Não se entristecer – Uma pessoa triste e negativa só atrai mais tristeza e negatividade, precisamos ser otimistas e sempre buscar ver o lado bom em tudo e em todos.

4. Não possuir sentimento hostil – Um budoca deve ser uma pessoa que busca sempre se livrar de pensamentos e sentimentos ruins, evitar hostilidades e discórdias.

5. Ser compreensivo e tolerante – Quando buscamos ser compreensivos, exercitamos a capacidade de saber ouvir, entender e aceitar as atitudes das pessoas que nos cercam.

6. Ser tranquilo – Manter-se sempre tranquilo diante das adversidades da vida é a melhor opção.

7. Ser pacífico – Devemos buscar e promover a paz no ambiente onde estamos e com as pessoas que nos cercam.

8. Manter a ética – Devemos ser exemplos de honra e honestidade, sermos corretos em todo nosso proceder.

9. Fazer amizade com todos – Ser amigáveis com todos é um dever, cortesia e educação sempre.

10.Respeitar a Deus e as pessoas – Respeito é mais que importante, nunca se sobrepor a ninguém, ciente que sobre nós existe um regente do universo que tem poder sobre tudo e todos.

11.Ser humilde – O sentimento de SHOSHIN nos ajuda a termos sempre humildade e saber que ninguém é perfeito.

12.Ser justo e honesto – O budoca só tem um juiz de sua honra: ele mesmo. As escolhas que você faz e como você trabalha para obtê-las são um reflexo de quem você realmente é. Você não pode se esconder de si mesmo.

13.Concientezar-se de que a pratica do Aikido tem por princípio o autoconhecimento – O treino de Aikido nos leva a conhecer quem somos e saber nossas limitações, nossos medos, nossa forma de agir em situações difíceis, nos faz praticar NAIKAN.

14.Concientizar-se de que o Aikido é um dos caminhos que leva a Deus – A pratica do Aikido nos faz perceber a existência de uma força superior que rege todo o universo.

“A vitória verdadeira é a vitória sobre si mesmo”
Morihei Ueshiba

Agradecimentos

Agradeço primeiramente ao meu amado mestre JESUS pela reconciliação e justificação por meio da cruz de Cristo e pelo dom da vida. Agradeço aos meus amados pais por serem meus maiores exemplos de amor, honestidade e fé, obrigado por sempre me apontar para JESUS, a razão do meu viver. Agradeço a minha amada irmã por esta comigo em todos os momentos e ao meu amado esposo Ricardo Nascimento por todo amor e cuidado para comigo e por ter me apresentado a família Naikan e por sempre me animar a perseverar.

Agradeço a todos que passaram e permaneceram na família Naikan, por terem me acolhido, por nos dias difíceis terem me incentivado a permanecer, por não desistirem de mim, sem vocês chegar ate aqui seria impossível, amo vocês.

Agradeço aos meus amados Senseis Rodrigo mesquita e Henrique Catelli por toda dedicação, toda paciência, vocês são exemplos para mim dentro e fora dos tatames, muito obrigado por me apresentarem a essência do Aikido.

A todos o meu mais sincero Domo Arigato Gozaimashita!

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Kokyu Ryoku

julho, 2018 | Rizia Santos
Atualmente muitas escolas de artes marciais direcionam seu marketing para pessoas que buscam o treinamento físico como forma de fortalecer a musculatura, aprender autodefesa, participar de competições ou até mesmo aliviar os sintomas de stress. Tendo o uso da força física como requisito primordial para a prática, o público alvo dessas escolas acaba sendo as pessoas mais jovens e fortes. Em contrapartida, o Aikidô é uma escola de arte marcial que se diferencia da grande maioria, pois sua ênfase não está no uso da força física, mas sim no uso da energia do Ki, permitindo que qualquer pessoa possa praticar.

De acordo com SHIODA (2010, p. 83), “uma das principais características que diferenciam o Aikidô das outras artes marciais é sua maneira eficiente de utilizar a energia.” Ele ainda acrescenta que é necessário o uso de muita força, porém não é somente a força física, uma vez que esta será afetada pela idade. A matéria se deteriora enquanto a energia do Ki permanece.

Rinjiro e Stevens em seu livro “O coração do Aikidô” explicam que o Ki é uma energia primária que surgiu do vazio e a partir de sua polaridade todas as coisas foram criadas, deste modo tudo no universo possui a energia do Ki. Todos nós possuímos essa energia de forma latente e como um diamante bruto, precisa ser lapidada para o vislumbre de sua beleza.

Para desenvolver essa energia é preciso exercitá-la. Mas como? Através do conhecimento e prática da respiração, ou melhor, do Kokyu Ryoku.

Ao estudarmos sobre Kokyu iremos entender que no Aikidô o ato de respirar não é algo meramente físico, mas segundo GLEASON (2013, p. 89) seu treino pode nos levar ao despertar espiritual. O autor ainda afirma, que “a prática do Kokyu nos mostra que o kitai é mais difícil de destruir que o corpo físico”, pois o Ki através do Kokyu transforma-se em um esqueleto espiritual mais forte que os músculos e ossos. É possível perceber esse tipo de poder ao vermos vídeos de aulas do O’Sensei onde alunos são lançados para longe mesmo sendo jovens e robustos, que aos olhos de leigos parece resultado de alguma força sobrenatural ou mágica. Entretanto, tudo é feito através do poder da respiração e da energia do Ki.

A primeira coisa que qualquer ser vivo faz ao nascer é inalar o ar para dentro de si, quando isto acontece ele se unifica como ambiente. Para UESHIBA (2010), “o ar é a chave para a unificação.” Todas as coisas possuem respiração e a sinergia entre elas é que forma a conexão com a energia universal. Da mesma forma, no treino é necessário que nage unifique sua respiração e seu Ki com o de seu parceiro para que consiga a unidade do movimento, para que haja conexão, o Ki-musubi.

Além disso, é preciso preparar a mente através do misogi, pois de acordo com o UESHIBA (2010) o “coração puro equilibra a energia, a inteligência, a virtude, o conhecimento e a atividade física”. Com a mente limpa nos tornamos mais conscientes de nossa respiração podendo direcioná-la e esta dirigirá o Ki, assim com a prática será possível dirigir o Ki com a intenção.

Outro ponto relevante é que uma vez que o Kokyu dita o movimento do corpo o timing do movimento será marcado pelo ritmo da respiração. Portanto, adquirir a consciência do ato de respirar é imprescindível para controlar do ritmo e o timing do movimento.

Para SHIODA (2010), o Kokyu Ryoku somente acontecerá quando se atingir o Shingitai, a unificação da mente, corpo, coração e técnica. Para tanto, é preciso muitos anos de treino, praticar a purificação da mente e buscar incansavelmente o conhecimento de si mesmo e do universo. Somente assim, compreenderemos o verdadeiro significado do Aikidô. BULL (2012) nos ensina que “Aikidô sem Kokyu Ryoku é meramente uma série de formas, com uma dança sem eficácia marcial.”

Diante do exposto, percebe-se que o Kokyu Ryoku e o Ki são pedras fundamentais do Aikidô e que nós seres humanos somos seres de luz e energia. Ao compreender verdadeiramente esses princípios poderemos mudar nossa maneira de nos relacionarmos com nosso parceiro e com o universo. Fazemos parte de um todo e um todo faz parte de nós.

Perceber o Kokyu como transporte de passagem do Ki nos ajudará em nossa evolução como aikidoka. E com essa visão em mente, em nosso treino diário poderemos perceber por nós mesmo que a aplicação desses princípios são muito mais eficientes que qualquer força física e que é possível relaxar quando o oponente usa a força, mas sem desfalecer aproveitando a energia do parceiro para controlá-lo até que ela se dissipe.

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Perseverança no caminho do Aikido através da história de Morihei Ueshiba

junho, 2018 | joão Vianna
Perseverança ou “Nintai Shinnen” como dito em Japonês, é uma qualidade daquele que persiste, que tem constância nas suas ações e não desiste diante das dificuldades.

Perseverar é conquistar seus objetivos devido ao fato de manter-se firme e fiel a seus ideais e propósitos.

Como é descrito no último lema do Aikido, “Conscientizar-se que a prática do Aikido tem por princípio o autoconhecimento” vejo total ligação com a perseverança nessa caminhada pelo autoconhecimento.

Como Saotome Sensei descreve, Ô Sensei em todo momento persistia em mostrar o verdadeiro Aikido, que mesmo no cotidiano do dia a dia era usado em ações, reações mesmo fora do tatame. 

Vendo sua caminhada desde sua infância, observa-se que Ô Sensei buscava o autoconhecimento já a partir dos seus 10 anos, com grande interesse pelo Budô e sempre que possível frequentava as academias em busca de instrução.

Tendo como primeiro mestre na escola kito de Jiu-Jitsu, Tokusaburo Tozawa. Tinha como especialidade as técnicas de projeção e exercícios formais (Koshi-no-Kata), transmitidos de geração a geração e presente em quase todas as lutas no Japão. 

Após seus 20 anos, passou ainda pelo instituto Yagyu, onde teve o aprendizado secreto de técnicas de elite, onde assimilou as técnicas de Katana, Tachi e Tanto,  que posteriormente se tornam muito importantes no Aikido de hoje, absorvendo o momento exato para se mover enquanto o adversário inicia o ataque.

Perseverante no aprendizado das técnicas existentes, Ô Sensei não descansava em conhecer, estudar movimentos mais antigos e elevados com praticantes e mestres de Jiu-Jitsu.

Em 1911, Ô Sensei conheceu Sokaku Takeda, da escola Daito de Jujutsu e começou a estudar com ele, que com o passar do tempo teve a influência técnica para a criação do Aikido.

Mostrando mais uma vez sua perseverança e objetivo para com o Aikido, Ô Sensei passou por diversas dificuldades enquanto treinava  com Sokaku Takeda, que cobrava muito caro por cada técnica que ensinava, a ponto de ganhar casa e propriedades por conta de seus ensinamentos à Ueshiba, mesmo depois de terminado seus ensinamentos, Sokaku cobrava por alunos promovidos pelo Ô Sensei, chegando mais a frente a uma grande ruptura entre ambos, conforme história passada por seu sobrinho à revista Aiki News.

Ainda procurando seu auto conhecimento Ueshiba se juntou ao reverendo Onisaburo Degushi, co-fundador da religião Oomoto ou religião da Grande Origem. Religião que o fundador seguiu sua vida inteira e o motivou aos valores filosóficos e espirituais-religiosos existentes no moderno Aikido.

Durante sua caminhada com Onisaburo, passou por muitas dificuldades ao ponto de ser resgatado pelo embaixador do Japão. Mas mesmo assim Ô Sensei usou todas as experiências desastrosas, para perceber em combate, colocando suas habilidades fantásticas, percepções e sangue frio.

Dando continuidade a sua meta, se mudou para Tóquio, e fundou um pequeno ginásio, onde iminentes pessoas praticavam o caminho do Aikido. O caminho seguia tão firme, que generais e políticos importantes frequentavam o dojo. O Aikido se tornava cada vez mais conhecido que quando Jigoro Kano (fundador do Judô) conheceu o Aikido, admirado enviou alguns de seus alunos para treinar com Ueshiba.

Após a guerra e perda de numerosos praticantes, para dar continuidade foi criada a fundação Aikikai, visando o crescimento e solides do Aikido, mesmo com a proibição dos americanos ao Budô e das artes marciais. Mesmo com a chegada dos americanos acaba que o Budô começa a ser difundido no exterior para o ocidente, com interesse maior pelos europeus e pelos norte americanos.

Após anos persistindo em divulgar e ensinar o caminho do Aikido, já com a idade avançada em seus 85 anos, Ô Sensei viu a doença e o tempo cobrar seu tributo. 

Caminhava com muita dificuldade pelos corredores, precisava de ajuda para subir e descer escadas, mas mesmo assim perseverante continuou a ensinar o Aikido. No momento que pisava no tatame, era energizado pelo universo, ao ponto de seus olhos brilharem a espera do ataque dos seus uchi deshi, todos jovens, fortes, ria com todos os ataques e tentativas de agarrá-lo sem êxito. Conseguindo se deslocar tão rápido ao ponto do Uke não perceber. 

Em seus últimos dias de vida Ô Sensei, em seu quarto cercado por seus alunos, mais uma vez mostrando a persistência no caminho do Aikido fala aos seus estudantes “não se preocupem com esse velho, toda vida física tem seu limite, mas o espírito nunca morre” entrarei no mundo espiritual, mas quero continuar protegendo este mundo onde ainda estou, esta é a tarefa de vocês.

Mediante a todo caminho persistentemente corrido por Ô Sensei, concluo que temos que ter foco em nossos objetivos, que problemas todos nós temos, cada um com sua intensidade. Mas quando entramos no Dojo temos que apagar tudo que aconteceu durante o dia e tentar entrar num plano espiritual para que possamos chegar ao nosso autoconhecimento doando-se de corpo e alma. 

Agradecimentos

Ao Ô Sensei, por sua perseverança em nos deixar seu legado físico e espiritual com o caminho do Aikido.

Ao Shihan Wagner Bull por difundir esse caminho com maestria por todo nosso país.

Ao Shidoin Alexandre Bull juntamente com todos os delegados do Brasil Aikikai por dar continuidade nos passos do Shihan Wagner Bull com seus ensinamentos, dividindo com todos nós o caminho do Aikido.

Aos Shidoin Tamotsu Kubo, Osmar Batista, Constantino Delis, Roberto Matsuda, Edgar Bull e demais delegados do Brasil Aikikai por todo tempo  e conhecimento dado para nosso crescimento. Aproveito para em especial agradecer ao Shidoin Tamotsu e Osmar por plantar essa semente a mais de 21 anos e hoje estar começando a colher os frutos.

Ao Sensei Rodrigo Mesquita e Henrique Catelli por cultivarem esse semente com todo amor que tem pelo Aikido e fazerem dela brotar os frutos. Não posso deixar de agradecer toda paciência, compromisso, dedicação à todos do Naikan Dojo. Tenho certeza que todos os aprendizados serão de suma importância por toda nossa vida.

Aos meu colegas ou melhor a minha família Naikan, por se oferecerem e doarem o bem mais preciso de cada um “nosso corpo” , Moises meus charas João Henrique e João Paulo, Ricardo, Herbet, Josy, Rizia, Lais, Nilce, Enzo a lenda e Ricardinho e demais amigos que no caminho acabaram parando mas tem meu carinho.

Deixando para fechar os agradecimentos não tenho como não agradecer a minha linda esposa Renata Reis, pelo apoio e incentivo vendo a grande importância que o Aikido tem para mim, mesmo às vezes reclamando das aulas às sextas... mas sempre me apoiando. À minhas filhas lindas por entender e não me cobrar por estar muitas vezes longe delas nos horários das aulas.

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Aikido como forma de lapidação do Ki para uma melhor fluidez dessa energia

junho, 2018 | joão Henrique pereira
O que é Ki? Na cultura ocidental, é possível recorrer a memórias, na qual remete essa ideia a um sinônimo de energia. É uma palavra que tem sua origem na China e em suas escolas de pensamento. Apesar da passagem do tempo, e das mudanças entre o significado da palavra, esta pode estar relacionada à Força Vital, Plenitude do ser ( Huai-nan-Tsu), ou até mesmo como A força que penetra em todas as coisas.

Pelo fato da sua não existência física o Ki vem sendo representado de diferentes formas, como: Kuki (ar), Taiki (atmosfera) e Joki (vapor).

O Ki, é tudo aquilo que existe, possui a qualidade e a capacidade da criação da matéria, fugindo da esfera da não existência. É uma qualidade invisível que está muito próxima da nossa experimentação sensorial. O Ki, em seu local de abrigo, o ponto um do abdômen, chamado de Saika no Item, guarda não somente essa energia, mas também a morada da alma.

Essa energia não é de fácil visualização, mas é de fácil percepção, pois apesar da sua inexistência física, dá para sentir essa energia fluindo principalmente através das extremidades do corpo físico, sendo até uma das observações feitas durante a execução de uma técnica, manter as mãos abertas para garantir fluidez dessa energia vital que tanto rodeia a existência humana.

Porém, essa energia não está presente apenas na realização de uma técnica mas também em momentos de motivação, inspiração, no foco em busca de novos objetivos, na capacidade de iniciativa dentre outros que são influenciados pela fluidez dessa força que ajuda a reger os seres vivos.

“Assim, o Ki é o principio vital, é a força dinâmica ou motora de todos os seres vivos, inclusive do homem.” (Sensei Wagner Bull)

O equilíbrio do corpo, está relacionado na forma com que o Ki tem espaço para fluir de forma ininterrupta dentro do corpo, tendo um fluxo adequado, logo sem estagnações, porém depende de certa forma de como a respiração e os exercícios podem estar relacionados para ajudar na liberação desses bloqueios internos.

“Quando existe má distribuição, a ruptura da harmonia provoca a doença.” (Sensei Wagner Bull)

O Ki pode ser considerado como o calor, a tração, a sensibilidade que é sentida e transmitida ao próximo, mesmo de forma apenas sensitiva é passado para frente um pouco desse sentimento que está em eterna fluidez, criando dessa forma uma diversa rede de trocas de energias entre diferentes pessoas e dessa forma diferentes energias. É nesse momento onde surge a imagem do Aikido nesse contexto, sendo esta, o Caminho da unificação das energias, esta arte marcial se torna claramente um ótimo viés para ajudar nas questões relacionadas ao Ki.

A técnica do Aikido, é basicamente um fluxo de energia constante, onde o Nage transmite o Ki para o Uke, sendo recepcionado com a energia que sai do atacante, fazendo com que ocorra um fluxo e um refluxo, de todo esse vapor fluido de vida que é transmitido quando há o contato entre duas energias opostas e que no final se transforma em apenas uma.

Sendo a técnica a principal ferramenta do aikido para a união de duas energias, onde pode se perceber a real presença do Ki, tanto no inicio quanto no final de cada técnica, é nesse meio tempo entre o 0 e o tudo, que pode ocorrer a moldagem da técnica, seja ele pelo meio de torções ou quedas.

O Shihan Wagner Bull fala: “Muitas técnicas de torções, quando feitas com conhecimento, servem como meios de massagem para os músculos e articulações, e 'desentopem' os canais onde a energia está estagnada, nos trazendo saúde e bem-estar.”

Sendo assim, os movimentos realizados dentro do Aikido podem ser meios de desbloqueios para diversos entraves que estão presentes e associados aos seres humanos, sendo o principal a não fluidez de sua energia vital, onde um aikidoca tem uma maior facilidade na forma com que o Ki possa estar sendo transmitindo entre todas os tecidos do corpo, permitindo desse jeito um melhor aproveitamento da sua condição física e psicológica.

“Os três lados do triângulo representam a trindade, presentes no símbolo do xintoísmo, nos mistérios do catolicismo e nas tradições religiosas. O triângulo representa a energia vital, o fluxo de Ki.”  (Sensei Wagner Bull)

“A única maneira que encontro para poder explicá-lo, é desenhar um triângulo, um circulo e um quadrado.” (Morihei Ueshiba)

Tomando como partida essas duas citações do fundador Morihei Ueshiba e do Shihan Wagner Bull, fica claro o quão parecido se torna o Aikido do Ki, transformando entre eles uma barreira muito pequena na essência dessas duas forças, mostrando uma harmonia quase que natural.

O treino de uma arte marcial como o Aikido não tem somente o objetivo final de uma melhora física ou mental, mas sim o conjunto de diversas ações que no fim resultarão  para uma fluidez total do Ki, podendo fazer com que haja harmonia entre corpo, mente e alma. Sendo esta harmonia, ajudada pelo fato de não haver pontos de estagnação dentro desse ser, podendo a energia sair do Hara e alcançar todos os pontos do corpo. Podendo desta forma demonstrar como o Aikido é uma grande ferramenta de mudança, para os diversos percalços enfrentados pelo espirito, ou seja, enfrentados pela alma.

Tomando por base os diversos significados para a palavra, a imagem de Ki na perspectiva do Aikido pode se situar como: “Fonte materna das mudanças que são ocasionadas na pulsação.” (UESHIBA, 2010). Pulsação esta que demonstra a expansão do Ki, atingindo diversos pontos do universo.

Nesse sentido, Kisshomaru Ueshiba nos diz que:
"As mudanças delicadas na pulsação causam movimentos sutis do ki no vazio. Às vezes os movimentos são impetuosos e potentes, outras vezes são lentos e impassíveis. Por essas mudanças pode-se avaliar o grau de concentração ou unificação da mente e corpo. Quando a concentração impregna a mente e o corpo, o poder da pulsação individual torna-se um com o universo, expandido-se suave e naturalmente até o limite último, mas ao mesmo tempo a pessoa se torna cada vez mais autocontida e autônoma. Desse modo, quando a pulsação torna-se individual trabalha junto com o universo, a essência espiritual invisível torna-se uma realidade no interior da pessoa, envolvendo, protegendo e defendendo o eu. Essa é uma introdução à essência profunda do Ai-Ki."

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Aikido como forma de alinhamento das emoções para atingir a plenitude do ser

junho, 2018 | joão paulo barreto
Vivemos num mundo de excessos. Diariamente temos uma explosão de informações pelos mais diversos meios, o que faz com que nosso pensamento não pare momento algum, estamos sempre aflitos e com preocupações exacerbadas. Seja no nosso trabalho, ambiente familiar ou qualquer outro acontecimento em nossas vidas. 

Como sociedade estamos cada vez mais ansiosos e vivendo um imediatismo descomedido, pois com o avanço das redes sociais e internet tudo está na palma de nossas mãos, dessa forma queremos mudanças extremamente rápidas em nossas vidas, mas toda e qualquer mudança exige de nós tempo, paciência e resiliência para atingir a transformação real. Como disse Lao-Tsé: “ Uma longa caminhada começa com o primeiro passo.”

Essa insatisfação com tudo que temos, com o que poderíamos ser, com a vida que estamos levando, nos joga num círculo vicioso: Criamos expectativas demais, ficamos ansiosos, lembramos do que poderia  ter acontecido, sentimos angústia e ficamos com medo do futuro. Grande parte da população cai nesse círculo e não se desprende, pois estamos muito preocupados com o exterior, com o racional, com a matéria. Perdemos nosso centro, nos desalinhamos com a verdadeira essência do nosso ser. 

Segundo os orientais, a problemática do nervosismo e das tensões está   envolvida com a relação entre o sujeito e o objeto. Quando com nossa mente ocidental examinamos ou fazemos alguma coisa, imaginamos sempre nós e o objeto, não existe uma unidade entre as duas coisas. Qualquer atividade para a qual o homem careça de experiência torna-o cônscio de uma tensão entre o sujeito que deseja algo sem ainda o ter realizado, e o objeto, que a ele se nega. Essa tensão, impede a execução harmoniosa. Um homem atinge a perfeição técnica através de longa prática, a fim de fazer no momento algo que não lhe custe esforço consciente, qualquer que seja o fenômeno, ele sente agora que sobrepujou a tensão original sujeito-objeto. Na base de tensão ou discrepância original, ele experimenta um sentimento de libertação, ou satisfação profunda, ante a harmonia do sujeito e do objeto. (BULL, 2011, p.202) 

Percebe-se que na cultura oriental não há distinção entre indivíduo e objeto, quando há essa harmonia estamos no mundo, mas não perdemos nossa essência. No livro coração de diamante do autor A.H. Almaas há uma expressão muito interessante em que ele diz: “ devemos estar no mundo sem ser do mundo.” - isso significa que devemos continuar a fazer o que fazemos, cumprir nossas funções sociais, no entanto, temos que entender que esse não é o objetivo principal e sim tentar compreender o nosso eu verdadeiro e tentar reavivá-lo. 

(...) Ao descobrirmos nossa essência pessoal, o que fazemos no mundo perde a importância. Escolheremos o que irá aprimorar e realçar nosso verdadeiro eu. Não pode haver realização duradoura sem que tenhamos compreendido a nossa essência. Nada pode substituí-la. (ALMAAS, 1992, p.15) 

Diante dos fatos demonstrados como poderemos encontrar nossa verdadeira essência? Como podemos aceitar melhor as situações que nos causam stress, angústia, raiva e ansiedade? Dentro destes conflitos Morihei Ueshiba deixou uma inigualável solução: O Aikido. Onde através da prática de exercícios físicos, mentais e espirituais possamos evoluir em direção da nossa essência.

Por meio desse caminho podemos nos realizar em vários campos de nossas vidas. Seja nos meios físico, moral, espiritual e psicológico, podemos elevar os níveis de nosso propósito. Há algumas práticas no Aikido que aponto como essenciais para externar para nossas vidas, fazer diariamente para que possamos obter os benefícios dessas práticas que devem extrapolar o dojo. 

Misogi  

Morihei Ueshiba dizia: 

Aikido é o exercicio de estarmos sendo ensinados pelos Kamisama (deuses), sobre as vibrações da criação universal (tamashii). Eu não criei o Aikido pois ele é o caminho dos Kami e nasceu por desejo deles. O Aikido começou com o Deus criador do Universo Ame No Minaka Nushi No Kami. Levante-se cedo pela manhã, inspire, profundamente e exapanda-se até os confins limítrofes do Universo, depois expire e absorva todo o universo dentro de você. Em seguida respire toda a fecundidade e vibração da Terra como se fosse a sua própria e torne-se a vida vibrante. Sua mente e seu corpo se sentirão bem, as depressões e os sentimentos desagradáveis se dissiparão e você se sentirá cheio de gratidão (kansha).

Misogi é uma das práticas de extrema relevância para controlarmos nossas emoções. Misogi significa purificação, nos purificamos para alcançar a conexão ( mussubi) com o divino. O ritual de purificação é feito em todas as aulas com finalidade de que sejamos unos com as leis universais (Daishizen). E seguindo esses princípios poderemos viver uma vida de forma sincera (Makoto), ser sincero consigo mesmo, não ir contra os princípios naturais nos faz ter uma vida de felicidade e harmonia. Retornando ao nosso centro, a nossa essência.  

O misogi é feito para ser a purificação de vários aspectos de nosso ser. Purificação do corpo, dos sentimentos, da mente, do ambiente externo a nós e também a purificação do espírito. Vamos tratar do aspecto que é o termômetro do nosso estado: os sentimentos. Segundo o Shihan Wagner Bull na purificação dos sentimentos devemos nos livrar de preconceitos e neuroses, tornando-nos assim um ser humano mais otimista para que percebamos o movimento da natureza, entrando em harmonia e assim manifestar o sentimento de gratidão (Kansha). Ainda segundo o Sensei Wagner Bull o objetivo é conseguir os seguintes atributos: Akaki Kokoro ( Sentimentos puros e alegres, limpos, claros e brilhantes como sol); Kiyoki Kokoro ( Sentimentos claros, definidos, e sem dubiedade); Makoto Kokoro (Sentimentos de sinceridade constante); Naoki Kokoro (Sentimentos puros sem a intenção de enganar); Tadashiki Kokoro (Sentimentos sempre de justiça). 

Se praticarmos o misogi para além do treinamento do Aikido, poderemos colher esses atributos para que tenhamos uma vida harmoniosa e regida pelas leis universais. Não adianta colocarmos a água mais pura e límpida numa xícara suja, em poucos instantes toda água estará contaminada. Por isso a importância da purificação para que possamos receber a água da fonte e mantê-la com sua composição para que possamos fazer a real conexão com os Kami.  

Os três elementos

“Em todo estudo esotérico a lei dos três está sempre presente, da mesma forma, no xintoísmo e no Aikido, tudo pode ser entendido como componentes com três partes e entendido sobre três aspectos.” (BULL,2011, p.190)

Dentro do Aikido temos três formas de agir: Sankaku (Triângulo), Shikaku (Quadrado) e Maru (Círculo). Segundo o Shihan Wagner Bull, o triângulo representa uma atitude mais aguerrida, objetiva, em “Irimi”. O quadrado representa a estabilidade, estar centrado, o princípio “Osae” do Aikido. Já o círculo tem como papel a fluidez, condução, princípio do tenkan do Aikido.

Cada uma dessas formas podem ser trazida perante nossa realidade diária, sendo cada uma delas uma forma de agir, tornando-se uma resposta diferente para cada situação. Muitas vezes, agimos de determinada forma e atribuímos à nossa personalidade, sem preocupação com a harmonia que geramos para o ambiente e para nós mesmos.

“Não há nada de errado em termos uma personalidade. Ao contrário, ela é necessária e, sem ela, não poderíamos sobreviver. Entretanto, se tomarmos nossa personalidade por nosso verdadeiro Eu, distorcemos a realidade, pois não somos a nossa personalidade.” (ALMAAS, 1992, p.12)

Nossa personalidade, é um constructo que veio através de estímulos externos, portanto, não correspondem com a natureza de nossas essências. Dessa forma somos inflexíveis a mudanças, por isso damos as mesmas respostas a todos os conflitos que chegam a nós. Por isso, os praticantes de Aikido que carregam as formas Sankaku, Shikaku e Maru, tendem a ter um maior repertório para lidar com embates Físicos, Emocionais e Mentais. Pois, com o conhecimentos dessas formas, temos a resposta correta para cada tipo de conflito. 

Conclusão  

A prática do Aikido trazem uma infinitude de benefícios, mas se pudermos extrair pequenas práticas, e aos poucos adicionarmos em nosso cotidiano, teremos um caminho em consonância com as leis do universo e seremos mais felizes e plenos. Citando o Sensei Rodrigo Mesquita em seu artigo Aikido: A busca da verdade: 

O resultado do início deste trabalho é o desembaraçamento mental. O praticante enfim começa, aos poucos, a se libertar dos grilhões do ego, e vai se encaminhando para a Unidade. A harmonia começa enfim a se manifestar não apenas em sua técnica, mas em toda a sua vida. Uma coordenação altamente desenvolvida aparece como resultado direto  dessa harmonia, coordenação que abrange não somente o físico, mas o emocional e o psicológico, além do aperfeiçoamento da conjunção dos três. Este trabalho interno unido à prática constante, árdua e disciplinada leva ao equilíbrio dos corpos físico, emocional, mental e espiritual, como disse O-Sensei: "Ki no Myoyo (o uso elevado do Ki) permite que os indivíduos harmonizem seu corpo e mente, assim como permite que alcancem a harmonia com o Universo mais amplo.” 
 
Agradecimentos

Gratidão a Deus pela dádiva da vida.

A minha família, que foi basilar para que eu pudesse trilhar este caminho e tentar ser melhor todos os dias.

A Rebeca Diniz, companheira de todas e horas, e que me apoia sempre em qualquer projeto de minha vida.

A Morihei Ueshiba por mostrar ao mundo um caminho para que possamos nos harmonizar conosco e o universo.

Ao Shihan Wagner Bull, por seu grande exemplo de dedicação de toda uma vida para que pudéssemos ter um Aikido de tão alto nível em nosso país.

Aos Shidoin Alexandre Bull, Tamotsu Kubo, Constantino Delis, Roberto Matsuda, Osmar Batista, Alexandre Borges e Edgar Bull. E os e demais delegados do Brasil Aikikai, que tanto se dispuseram a passar seus conhecimentos para que pudéssemos ascender em busca da verdade.

Ao Sensei Rodrigo Mesquita e ao Sensei Henrique Catelli que me abriram as portas para um caminho de toda uma vida, agradeço também pela amizade e toda paciência que tiveram comigo durante todos esses anos. Não consigo descrever com palavras o quanto sou grato a tudo que fizeram por mim.

Isis Mesquita, uma mãe que me acolheu e me tornou como parte de sua família durante todos esses anos. 

Aos meus grandes companheiros de jornada, que partilharam todos os bons momentos e se doaram integralmente para que eu pudesse chegar aqui. Moisés Santana, João Henrique, João Vianna, Franklin Quadros, Fernanda Queiroz, Sérgio Ricardo, Herbert Marques, Josyêdda Matos, Rizia Soane, Laís Lessa, Nilce Almeida, Enzo Almeida, Ricardo Santana. E a todos os amigos que estiveram comigo nessa trilha e permanecerão para sempre em meu coração.

​Domo Arigatou Gozaimashita!    
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Aikido como refinamento do ego dentro da perspectiva
junguiana

Novembro, 2017 | moisés santana
Carl Jung, ao dar nascimento à sua psicologia analítica, arguiu que todos nós já trazemos conosco uma essência, chamada por ele de si-mesmo, ou self, que representa o nosso potencial mais pleno, a nossa totalidade. Para atingirmos a nossa plenitude, esta essência deverá tornar-se consciente para então se desenvolver ao longo da vida.

O self em Jung é apresentado como um dos seus arquétipos, representando a unificação da consciência e do inconsciente em
uma pessoa, e dentro dessa totalidade, está refletido a psique como um todo. Deixemos claro desde então, que o si-mesmo
em Jung não representa o costumeiro pensamento da noção de egoísmo, se cairmos neste pensamento estaríamos em uma confusão conotativa entre o si-mesmo e o ego. O self na psicologia junguiana é produto da individuação[1], da integração da personalidade, o self é representado como um círculo, e o ego, o ponto central.
O si-mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é o centro da consciência. (Jung, 1990, p.51)

O ego aparece aqui como o centro da consciência, onde o self é a totalidade, incluindo a consciência, inconsciência e o ego. Podemos afirmar que o self é ao mesmo tempo o todo e centro. O ego se torna um pequeno ser central, circunscrito à sua forma autônoma, formando uma unidade bastante coesa para transmitir impressão de continuidade e de identidade consigo mesma[2].

Para Jung o ego é a organização da mente consciente, sendo composição de recordações, pensamentos e sentimentos, onde mesmo ocupando uma parte pequena do total da psique, ele se torna o vigia da consciência, onde a individuação acontece nos momentos em que o ego permite que as experiências se tornem conscientes, o ego começa a se tornar a consciência de nós mesmos, agindo de maneira seletiva, fornecendo direção para nossa vida consciente. Todo ser humano desde o seu nascimento consegue ter a sensação deste ‘todo’, do si-mesmo, mas o desenvolvimento do aparato ego-consciência cristaliza a sensação de unidade, para Jung, essa cristalização comumente ocorre na primeira metade da nossa vida.

Como área adjacente ao ego, temos o inconsciente, o desconhecido que nos afeta de imediato, uma região contida de experiências que já foram conscientes, mas que foram suprimidas, combinações de ideias ainda demasiado fracas e indiferenciadas; traços de acontecimentos ocorridos durante o curso da vida e perdidos pela memória consciente; recordações penosas de serem lembradas, dentre outras.

Observamos aqui que o conhecimento da personalidade egóica é diferente do conhecimento do self. Neste momento há o nascimento dos perigos do self, quando a pessoa atinge uma consciência da sua identidade do ego, e confunde isto com o conhecer a si mesmo de maneira plena, esquecendo-se que o ego admite apenas os seus próprios conteúdos, e não o material psíquico real provindo do inconsciente que é o ser experimentador de sensações, e desconhecido pelo sujeito. Adentramos num lado negro do self, onde através do seu grande poder podemos ser vitimados pelo excitamento de termos atingindo o conceito do todo e de nós mesmos, do universo enquanto criador e criatura, enquanto sequencialmente perdemos o toque com a realidade latente.

Ô Sensei nos diz que:

Aqueles que sinceramente desejam progredir no Aikido devem ter sempre esses princípios em mente: perceber o universo como ele realmente é, fundamentar todas as ações ali e abrir a sua porta pessoal para a verdade. O momento presente é a era do materialismo. Entretanto precisamos nos esforçar para fazer a flor do espírito desabrochar e produzir frutos espirituais. Dessa maneira, o elemento espiritual se tornará mais pronunciado. Se isso não for feito, esse mundo nunca melhorará. (Ueshiba, 2010, p.19-20)

O Shihan Wagner Bull em seu livro Aikido: o caminho da sabedoria – A teoria, aponta que os japoneses importaram muito da sua cultura e assim adaptaram para suas necessidades dentro do seu ambiente, e deixa claro que os japoneses não aceitaram a ideia de se retirar o ego como um caminho para se chegar a Deus[3]. Ô Sensei ignorava o Zen, pois buscava a construção de um grande ego, e não eliminá-lo, e voltando aos estudos de Jung, sabemos que o ego é algo indissociável do que nós somos e de como agimos.

(...) somente com o desenvolvimento do “ego” (autêntico) harmônico, é que o indivíduo pode se libertar das tensões e angústias e realizar-se plenamente como ser humano e ser realmente feliz. O segredo da verdadeira liberdade é aprender a fazer tudo o que queremos sem prejudicar o interesse daqueles que nos cercam. Neste sentido a prática do Aikido é uma grande ferramenta. (BULL, 2013. p.217)

Atentemos para o fato de que não há vida sem ego, este faz parte de tudo e todos, mas a modéstia deve vir do entendimento de que toda vida é limitada, Mitsugi Saotome em Aikido e a harmonia da natureza, escreve que se não há ego, não há amor, mas ficar preso a um ego centrado em si mesmo é criar um amor débil, sentimental e estreito. Todos os grandes mestres possuíram e possuem egos, só se ensina algo a partir do ego. O ego em Jung é o centro do círculo, e para Ô Sensei, um círculo com um ponto no centro representa a imobilidade e o desenvolvimento do espírito. É o fluxo circular que cria uma miríade de técnicas (Ueshiba, 2010, p.48).

Um dos lemas do Aikido versa que devemos nos conscientizar-se que a prática do aikido tem por princípio o autoconhecimento, e é neste ponto que o Aikido se apresenta como uma ferramenta para o refinamento do ego, quando deixa de ser apenas uma prática puramente física (...) o aikidoísta vai lentamente libertando-se de seu ego pensante, egoísta e vai sentindo-se como parte de uma realidade maior, deixando de temer a morte, o fracasso, a dor, a perda, pois vai compreendendo que tudo é parte do mundo divino, que seu ego pensante imagina ignorantemente, poder individualizar e separar. (BULL, 2013. p.217)

A prática correta do Aikido fará com que o estudante elimine as ilusões que o ego possa aflorar, e não uma ideia de morte do mesmo, começando a desenvolver o que os japoneses chamam de Mitama Migaki, o polimento da alma, elevando e colocando o discernimento no ponto mais alto do agir, atingindo o julgamento intuitivo. A escalada do desenvolvimento do aikidoísta inicia-se com a pura força, depois atinge a busca da técnica através do uso adequado da energia, com mais resultados e menos esforço corporal e por fim, o nível de harmonia/liberdade, com habilidades de se mover independente de obstáculos ou resistência. Esse nível fabuloso vem de dentro do praticante, não podendo ser dado por outrem, é a resolução mental harmoniosa dentro dos conflitos que se apresentam, a solidificação apurada da personalidade, como Jung previra, com o interno (ego) e o externo (self) e sua interdependência, mas sem ilusões, apenas com a verdade (makoto) que o iniciará na conexão com o Universo.

Agradecimentos

À força intangível que nos rege, por me legar, até o presente momento, moradia nessa ilha estacionária.

Ao Ô Sensei por seu admirável exemplo de vida, e por nos deixar um imensurável legado físico e espiritual.

Ao Shihan Wagner Bull por pavimentar no nosso país a estrada à qual sigo hoje.

Aos Shidoin Alexandre Bull, Tamotsu Kubo, Constantino Delis, Roberto Matsuda, Osmar Batista e os Fukushidoin Alexandre Borges e Edgar Bull, e demais delegados do Brasil Aikikai, por toda preocupação e esforços largos em dividir e multiplicar seus conhecimentos.

Ao Sensei Thiaggo Campelo por me aceitar como seu aluno e toda a paciência para com um iniciante absurdamente desajeitado.

Ao Sensei Rodrigo Mesquita e ao professor Henrique Catelli, meus mais sinceros agradecimentos, nada há que pague o que vocês fazem dentro e fora do tatame para cada um dos seus alunos. Sou extremamente grato e sortudo em tê-los como meus mentores.

Aos meus colegas de treino, agradeço por inúmeras vezes partilharem em conjunto das dores e felicidades da nossa trajetória, e em particular a Jeffrey Cox (in memoriam), aos “Joãos” (Henrique, Barreto, Viana), Sérgio Ricardo Nascimento, Herbert Marques, Josyêddade Matos, Nilce Almeida e demais amigos que, ao extrapolarem as barreiras do simples companheirismo, lapidam em minha alma, intensa admiração.

Por fim, mas não menos importante, agradeço especialmente à minha esposa Rizia Soane por todo o incentivo e companheirismo ao longo dos anos.
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Kokyu: a compreensão do binário e o caminho para Unidade

AGOSTO, 2017 | RODRIGO MESQUITA
O Aikido é dito um caminho para a harmonia que tem como ferramenta de estudo as operações possíveis entre forças antagônicas, ou, dizendo de forma simples, o estudo da dualidade, do Yin-Yo japonês (ou Yin-Yang chinês). Seria possível que essa prática focada na experimentação com a dualidade resultasse na compreensão da unidade? Como, do estudo do Dois, podemos chegar a conhecer o Um? Acredito que atingir essa unidade em seus planos físico, psíquico e emocional é o que possibilita o estado de harmonia do qual nos fala o Aikido, e me esforçarei para esboçar uma resposta a essas questões.

Muitas religiões e tradições espirituais nos contam através de suas cosmogonias como a Unidade Imanifesta criou e ordenou todo o universo, como no seguinte excerto de Lao-Tse:

"O Grande Princípio gerou Um. Um gera Dois, Dois gera Três, Três gera Dez mil coisas. Dez mil coisas se tornam harmonizadas quando combinam as forças do positivo e do negativo. Atingir a auto-realização na Terra é viver dupla existência: uma cumpre os deveres do mundo, outra, interna, fica mergulhada na paz universal do 'Do'."

Esse Grande Princípio de que nos fala Lao-Tse é tratado na tradição como o Absoluto, a Verdade, a realidade última; Aquele que, imóvel e permanente, move todas as coisas impermanentes. É a força motriz universal, terrível e sempre desconhecida. Porém, a criação do universo não ocorre antes que seja criada a dualidade. A Unidade Imanifesta tem necessidade de gerar uma segunda unidade; uma manifesta e limitada, embora ainda totipotente, pois no reino do limitado o ilimitado não pode agir diretamente, caso contrário, a criação se esfacelaria pela quebra de suas regras e leis. Na Kaballah, chamamos essa unidade de Kether (a coroa), e a partir dela é que são geradas Binah e Chokmah - juntas, representam o binário, a dualidade, as duas colunas que sustentam o templo (a criação) - Izanagi e Izanami na cosmogonia xintoísta. "O binário é a unidade multiplicando-se por si mesma para criar", nos diz Eliphas Levi, um proeminente ocultista do século XIX.

Com alguma reflexão percebemos que a natureza da dualidade é a unidade: um objeto único e indivisível apresenta dois pólos, caracterizados como uma espécie de gradiente de concentração. Caso o equilíbrio entre esses pólos seja harmônico - os gradientes estejam na devida proporção - os pólos serão complementares, e um buscará o outro. Caso não ocorra esse equilíbrio, os pólos serão contraditórios, e um irá repelir o outro. Isso é expressado perfeitamente no símbolo do Tao (conhecido como Yin-Yang). Dia e noite, verão e inverno, o masculino e o feminino, sim e não, são, em essência, a mesma coisa. A aparência de diferença é, de certa forma, ilusória. O sábio reconhece essa ilusão, e a ultrapassa, repousando seu interior de forma serena no Tao, na Unidade Indissolúvel. A geração da luz na matéria torna necessária a existência da sombra; o branco não é mais do que a presença de todas as cores, ao passo que o preto é simplesmente a ausência delas; o alto só existe em relação ao baixo, assim como o calor e o frio estão na relação um do outro. E por qual razão, para que aja a manifestação do universo perceptível, a dualidade é necessária? Até o momento, divago que a dicotomia fundamental parece ser um mecanismo de aprendizado da Unidade, ou seja, da Verdade. A bíblia cristã nos traz a mensagem de que tem mais valor o pecador arrependido do que o justo que não necessita de arrependimento. Assim também, a queda de Lucifer e a precipitação de Sofia do pleroma mostram este pretenso axioma: ao tempo em que a luz é gerada, se gera a sombra. Para se ter o conhecimento pleno da obra, é necessário compreender ambas as polaridades da unidade, por isso a descida de Lucifer/Sofia; é preciso que o preto conheça e compreenda o branco e vice-versa; para atingir a Unidade, é preciso averiguar em detalhes cada pólo da suposta dualidade. Essa é a mesma ideia contida na saída de Adão do paraíso, quando ele come o fruto da árvore da ciência do bem e do mal e se torna capaz de perceber a dualidade existente em todas as partes da criação. Naquele momento ele inicia uma jornada de conhecimento cujo objetivo é o retorno dele à matriz inicial com uma percepção e saber plenos.

O Aikido, ao meu ver, é uma arte completamente focada no estudo e prática da dualidade, e isso fica claro em diversos escritos e conceitos deixados pelo O-Sensei, Morihei Ueshiba. Em uma de suas explicações sobre a natureza da arte, ele disse que o Aikido era Ichi Rei, Shi Kon, San Gen, Hachi Riki (uma origem, quatro almas, três princípios, oito poderes). Esses oito poderes são apresentados em pares, e descritos como: movimento e inércia, solidez e adaptação, contração e distensão, unificação e divisão. Essas oito qualidades se apresentam não só como bases físicas das técnicas do Aikido, mas, mais ainda, como bases conceituais que perpassam todos os planos: o físico, o psíquico, o emocional e o espiritual. Em seu livro Aikido, Takemussu Aiki, o Shihan Wagner Bull nos traz uma valiosa análise desse sistema:

"Quando questionado por seus alunos sobre uma definição do Aikido, o Fundador dizia: Ichi Rei, Shi Kon, San Gen, Hachi Riki.

(...) Somente depois de muitos anos estudando a teoria e a prática do Aikido é que o praticante pode realmente compreender a grandiosidade desse ensinamento de Morihei Ueshiba que explica a essência de todas as técnicas da arte, ou seja, o Kokyu, a alternância entre os contrários e a consequente harmonia que ocorre quando duas energias vibratórias se encontram, transformando-se numa só, também pulsante.

(...) Tudo no universo pulsa e se alterna. Esta divisão em 1, 3, 4 e 8 é uma chave esotérica para ajudar os praticantes do Aikido a terem um modelo de entendimento dos princípios e da forma de comportamento do corpo, da alma e do espírito."

Como bem explanado por Bull Shihan, o Kokyu - a alternância entre os contrários - é um princípio basilar que encontra-se presente em todas as técnicas do Aikido e que parece ser o produtor direto da harmonia. Quando analisamos o aspecto técnico da arte, este processo inicia através do Zanshin (a permanência do estado de consciência) e de Meikyo Shisui (a clareza mental que permite a percepção dos pensamentos/sentimentos do oponente). No momento em que o oponente decide-se pelo ataque, o Aikidoka "estabelece" o Musubi (conexão) possibilitando uma leitura instantânea do seu atacante para agir em estrita relação de complementaridade com a energia que o oponente desencadeou. A complementaridade existente nos pares dos Hachi Riki (os oito poderes) será aí demonstrada de forma natural e expontânea, produzindo Kokyu e gerando movimentos de extrema harmonia. O resultado da alternância desses poderes/qualidades será movimentos que, ora trazem o atacante fazendo uso da força centrípeta ao redor de um centro firme e estável, ora mantém o equilíbrio entre as forças, direcionando e dissipando a energia do ataque inicial, e ora expulsam o atacante do centro fazendo uso da força centrífuga. Este processo, contudo, não é pensado ou mensurado, e talvez nem mesmo mensurável. Se corretamente executado, ele é instantâneo e ocorre em frações de segundo. Claro que um iniciante no Aikido não executará técnicas nesse nível. São necessários muitos anos de dedicação e um treinamento sério e diligente para o praticante começar a atingir esse elevado grau técnico e espiritual. O Aikidoka para alcançar esse nível deve estar livre dos grilhões do ego, do "querer fazer acontecer”. O seu querer deve ser o querer do universo; daí a frase que o Shihan Wagner Bull sempre utiliza para ilustrar esse peculiar estado: “fazer sem querer, querendo”. Somente uma mente livre é capaz de apresentar Zanshin, desenvolver Meikyo Shisui, e executar um Musubi apropriado, não só em relação ao oponente, mas à tudo, gerando assim seu próprio Kokyu à partir do Kokyu universal.

Este processo de Kokyu não diz respeito apenas à dimensão física; ele é aplicado e verificado em todas as dimensões do ser humano, e este é o pré-requisito para que, da fase da dualidade, passemos à unidade. A característica de harmonia percebida no Aikido parece vir exatamente da produção do Kokyu: com a prática física o Aikidoka aprende a unificar duas ou mais energias em aparente oposição, criando um ensaio cinestésico que lhe dá a conhecer as forças do binário. Com a internalização dessa prática física, ensinamos de forma inconsciente às nossas mentes a trabalhar essas forças antagônicas de forma sempre positiva, buscando a conciliação dessas energias e trazendo-as em uma unidade harmônica. Ensinamo-nos a moderar a força ativa através da passiva; que o vazio sempre busca o cheio; que o fixo anseia pelo móvel; que a rigidez exige flexibilidade, e que o que está dividido pede unificação. Assim também a pluralidade de "eus" existentes em nossa psique começa a dar lugar, naturalmente, a um centro firme e estável, a uma persona unificada ao invés da persona dividida e fragmentada que usualmente apresentamos. As energias em movimento em nosso interior irão girar em torno desse centro estável. Isso é possível através de Mitama Migaki e Chitsujo Migaki, o polimento do espírito e o polimento da nossa percepção quanto à verdadeira ordem natural das coisas. Esta unificação mental desencadeia, por sua vez, um estado emocional equilibrado e condizente com esta unidade, ou seja, harmônico. O praticante que atinge este nível não estará mais sucessível à inconstância emocional que nos é tão comum nos tempos atuais. Sua mente será focada, e ele se sentirá capaz de realizar qualquer intento de forma plena. As energias então se somam e podem ser direcionadas de forma ordenada para um único propósito. No plano espiritual, a desarmonia entre a força centrífuga da matéria e a força centrípeta do espírito começará a desaparecer, dando lugar a uma perfeita justificação: a complementaridade entre a energia de alta vibração (espírito) e a de baixa vibração (matéria). O processo de Kokyu interno então passará a reverberar com o Kokyu universal, aquele responsável pelo equilíbrio das grandes forças geradoras e mantenedoras do universo, e verdadeiros milagres serão possíveis. Acredito que um dos momentos de iluminação do O-Sensei tenha sido exatamente este alinhamento dos Kokyu:

"Na primavera do ano de 1925, quando estava solitário em um jardim, eu tive a impressão de que o Universo começou a tremer e que um espírito dourado saiu do solo e me envolveu em ouro; eu podia entender a linguagem dos pássaros. Naquele momento eu fui iluminado, o amor de Deus é a fonte e a razão do Budo, o amor que protege todo o Universo."

"A harmonia resulta da analogia dos contrários", dizia um antigo sábio. A Unidade gera o Dois, e o retorno ao Um só é possível através do Dois, ou seja, a Unidade só pode manifestar-se pelo binário. O mergulho na Unidade só é possível através das partes que se conhecem e se compreendem: as duas naturezas se contemplam e ganham ciência uma da outra, para então se perceberem em unidade profunda, realizando todos os mistérios. A conciliação/unificação entre o que é aparentemente contraditório é a chave maior que o Aikido nos ensina, e a aplicação bem sucedida dessa chave em nossas vidas pode significar ir além da natureza humana, qualquer que seja o fim dessa jornada.
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A mulher no Aikido

maio, 2017 | josyêdda matos
Aikido significa: Ai:harmonia, integração, união e amor; Ki: energia, energia vital vida; Dô: caminho, modo de vida, de forma podemos dizer que é o caminho da harmonia entre as pessoas. Tem como fundador o Morihei Ueshiba na década de 40 o aikido vai muito além de ser um esporte, é uma arte marcial que também treina seu lado espiritual.
O-Sensei disse:

"Aiki significa a união entre o corpo e o espíríto e é a manifestação dessa verdade. Mais do que isso, Aiki nos permite harmonizar o céu, a terra e a humanidade.”

O fundador não criou o aikido para ter distinção de sexo ou classe social, qualquer um pode praticar aikido, o propósito dele ele para que cada um crescesse interiormente e evoluísse espiritualmente.

A história da mulher nas artes marciais vem de anos atrás, na China as mulheres aprendiam a lutar para defender suas famílias, foi preciso adaptação nas técnicas pois as mulheres tinham estatura e tipo físico diferentes dos homens, mas não as impediu de aprenderem as técnicas as tornando fortes e decididas.

Assim podemos dizer que as mulheres nos dias atuais continuam com o mesmo sentimento que as mulheres nos tempos antigos, que precisavam ser fortes para proteger suas famílias na ausência do marido. Ser uma mulher de que faz artes marciais não quer dizer que deixa de ser feminina, até por que fazer aikido precisa ter sensibilidade característica natural nas mulheres. Percebe-se isso devido ao aumento de mulheres dentro dos dojos.

O aikido é uma arte marcial que a igualdade entre os indivíduos existe de fato pois não é feita pela força bruta, é muito, além disso. O fundador Morihei Ueshiba é um grande exemplo que o aikido pode ser feito por qualquer indivíduo, ele era um homem de visão interior, e capacidades extraordinárias, até hoje se sabe histórias dele que muitos podem nem acreditar, fisicamente de estatura baixa porém muito forte, é o exemplo a ser seguidos por todos. Ele desejava que um tesouro como o aikido deveria estar ao alcance de todos, ele ensinava aos seus alunos pessoalmente, como usar a força do parceiro e não a sua. Não tinha distinção entre as pessoas, explicava gradativamente para que cada um entendesse no seu próprio tempo, tudo que ele pedia era o interesse verdadeiro no aikido. Não se faz aikido simplesmente por fazer, dessa forma não entenderá o sentimento verdadeiro.

Como a característica do aikido não é medir quem é mais forte e sim ser sensível aos movimentos, sutileza, energia, elegância, disciplina, precisão para poder fazer as técnicas e respeito. Qualidade na maioria das vezes encontradas facilmente nas mulheres. Sendo ainda mais fácil de adaptação para elas, e passando segurança para aplicação das técnicas.

O corpo da mulher se modifica, mas não ficando sem sua feminilidade, mas passa a ter mais flexibilidade, resistência, pois à medida que se treina seu corpo,ele se adapta aos movimentos que são necessários. Os exercícios de respiração são também de extrema importância, trazendo paz e controle ao seu corpo. Fazendo muitos benefícios ao seu corpo, faz regular o sistema do corpo humano, como cardiovascular, respiratório. Como também ajuda no controle de ansiedade e até o stress.

O aikidoka aprende a harmonia com universo, isso é uma realidade para os que treinam, ao longo dos dias os praticantes começam a experimentar interiormente o desejo de viver sem conflitos. Nos lemas do aikido exemplifica isso claramente, em cada um deles, se for colocados em prática do seu dia-a-dia se tornará uma pessoa melhor para o universo.

O aikido faz dos praticantes pessoas melhores, as mulheres que a praticam se tornam mais sensatas e equilibradas, pois seus treinos são para o físico e o psíquico, adquire-se capacidade de avaliação das ações com mais firmeza e clareza. Normalmente se vê a mulher como um sexo frágil, pelo fato de ser emocionalmente mais fácil de demonstração de suas emoções, e físico inferior, mas isso não significa ser fraca e sim ser mais cristalina com o que se sente. Quando se pratica o aikido aprende o autocontrole. Percebe que não é necessária demonstração de auto ego, por que isso não leva a vitória nenhuma e nem se torna mais especial. Dentro dos tatames ninguém é melhor ou sabem mais, todos estão para aprender um com os outros, cada um tem em si, algo para ensinar e algo para aprender, é nesse mesmo pensamento que devemos colocar dentro de si. É nessa energia que devemos enviar para dentro do nosso ser, para fazer a mudança que necessita em cada um.
O O-sensei dizia:

"O propósito do Aikido é construir um céu na terra organizando as pessoas num convívio de amizade e harmonia. Eu ensino esta arte para ajudar meus alunos aprenderem como servir seus próximos.”

Agradecimentos

A todos sou grata, pois cada um trás para nos uma mensagem um ensinamento, agradeço a Deus por ter me permitido que o aikido entrasse em minha vida. Que de fato fez profunda mudança no meu ser. A minha família pelo apoio de todos os dias para seguir e enfrentar os obstáculos que tive durante meus treinos. E em especial a minha filha Ana Júlia que para ela sou exemplo. Ao meu amigo e parceiro de treino Sérgio Ricardo por ter acreditado e me apresentado ao aikido e por todos os incentivos que recebi.

Agradeço profundamente ao Sensei Rodrigo Mesquita, por ter me dado um voto de confiança em permitir fazer parte desse dojo. Exemplo de sensei que se percebe a dedicação que se tem para fazer de seus alunos melhores aikidokas e melhores pessoas, muitíssimo obrigada. Ao professor Henrique Catelli que sempre me incentivou e me apoiou, em todos os momentos, me passando seus ensinamentos para que pode-se aprender cada dia mais.

Nessa caminhada agradeço aos professores que vieram no dojo ao longo desse tempo que estou aqui, que traz consigo muitos ensinamentos para nós.

E aos meus companheiros de treinos que sem eles não poderia ter alcançado meu melhoramento interior a todos meu muito obrigada.

A todos vocês o meu mais verdadeiramente Domo Arigato Gozaimashita!
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Seleção natural

maio, 2017 | sérgio ricardo nascimento
Fui iniciado no Aikido em 30 de abril de 2013 pelos ilustres Senseis Rodrigo Mesquita e Henrique Catelli. Ainda me lembro quando os vi pela primeira vez, Sensei Rodrigo, um homem de estatura e porte físico bem comuns, mas que impunha muito respeito, era notória a admiração dos alunos para com ele, e o Sensei Henrique, ele demonstrava uma postura marcial ímpar, típica de um grande guerreiro.

A primeira aula que assisti foi uma experiência e tanto, ver os Senseis executando os movimentos e técnicas com tamanha harmonia e destreza me deixou impressionado, naquele momento percebi que era o Aikido o caminho marcial que eu deveria seguir. Claro que não foi assim tão fácil fazer parte do NAIKAN DOJO – ou da família NAIKAN, como costumamos chamar. NAIKAN DOJO é o DOJO dos Senseis Rodrigo e Henrique, DOJO tradicional de Aikido situado em Itabuna-BA. Ainda me foi necessário passar por uma entrevista e uma semana de aulas experimentais, contudo, já me achava decidido.

Lembro-me das primeiras perguntas que o Sensei Rodrigo fez em minha entrevista: – O que achou da aula que assistiu? Era o que você esperava?
Tolamente respondi que sim, e que já tinha pesquisado sobre a arte, mal sabia a totalidade do que o Aikido tinha a me oferecer – quero abrir um parêntese aqui para dizer algo que a vida me ensinou, você pode conhecer todas as teorias sobre determinado assunto ou coisa, mas nada é tão revelador quanto a pratica.

Com os anos de pratica percebi o quanto a resposta que eu dera ao Sensei tinha sido rasa e o quanto o Aikido tinha a oferecer, muito além de posturas e técnicas, chaves e torções, digo isso com a experiência de um Kyu, ciente de ainda ter muito aprendizado pela frente.

Logo na semana de experiência pude perceber o ambiente de companheirismo e harmonia, todos extremamente amistosos, sempre sorridentes e educados, todos sempre se curvando e deflagrando cumprimentos calorosos. Um ambiente bem descontraído, mas sem perder o rigoroso respeito e a busca pela lapidação de si mesmos, em nem uma outra academia de artes marciais vi tamanha disciplina e etiqueta.

Para mim foi muito fácil decidir, ao fim da semana de experiência eu estava certo em continuar no DOJO. Na mesma época um amigo também decidiu ingressar na arte, e logo fizemos parte do grupo de faixas brancas, no total éramos sete faixas brancas, todos muito empolgados e sedentos para aprender o máximo sobre esse BUDO. No entanto ao chegar no primeiro exame de faixa que participei éramos apenas seis, o amigo que iniciou junto comigo já havia desistido nessa época. Hoje só permanecem no DOJO três dos antigos faixas brancas de quando comecei a treinar. Nesse intervalo de tempo entre meu início no Aikido até hoje, passei a observar o fluxo de pessoas que passaram pelo DOJO e percebi que muitos desistiram da arte, alguns ainda na faixa branca, outros mesmo já mais graduados e com uma vasta bagagem também acabaram desistindo pelo meio do caminho, vendo isso comecei a tentar entender o porquê que algumas pessoas simplesmente abandonam uma coisa tão positiva, algo que agrega tantos bons princípios e atina nosso físico e nossa mente, por que abrir mão de algo de tamanho valor?

Com o tempo percebi que o Aikido é uma arte muito intima, em muitos aspectos é um caminho de introspecção, percebi o quanto a arte nos coloca em um duelo constante com nós mesmos. O mais interessante é que o Aikido parece possuir uma balança muito justa, só recebemos algo do Aikido enquanto nos doamos nesse caminho. Costumo dizer que o Aikido é uma arte seletiva, não uma seleção por raça, cor, gênero ou condição financeira, todavia uma seleção pelo nível de entrega de si mesmo, pelo nível de doação de si mesmo, pelo nível de confrontamento e busca pelo aperfeiçoamento de si mesmo.

Alguns iniciam nesse BUDO, porém, não entendem o caminho e logo perdem o interesse pela arte, outros treinam por um tempo até perceberem o quanto o fim do caminho é muito mais difícil de ser alcançado do que se imaginava, ainda existe aqueles que não se encaixam na posição de constante confrontamento e lapidação interior, alguns com o ego inflado de tal forma a ponto de não conseguirem examinar e absorver mais nada além do que já têm.

Acredito que mesmo sem a entrevista ou as aulas experimentais como etapas para ingressar no Aikido, acredito que ainda assim teríamos os mesmos membros tais quais temos hoje. O universo conspirou e nos conduziu para isso, e quem diria, em meio a tantos que passaram pelo DOJO, seriamos nós, Moisés Santana, João Henrique, João Vianna, Fernanda de Queiroz, João Paulo, Herbert Carmo, Josyêdda Mattos, Marta Miranda, Bruna Souza, Rizia Soane, Laís Lessa, Nilce Almeida, Enzo Almeida, Ricardo Pedroso e eu, que teríamos essa honra e o privilégio de continuar nesse caminho tão desafiador e ao mesmo tempo tão gratificante que é o Aikido, e não poderia deixar de destacar o papel fundamental e indispensável dos nossos Senseis, com toda doação, dedicação e paciência de ambos em nos conduzir neste caminho. Como eu disse antes, o Aikido possui uma balança muito justa, quem mais se doa mais recebe, acredito que todo o potencial que nossos Senseis possuem vem de todos esses anos de empenho e entrega, todo o sacrifício os fez alcançar o nível que possuem hoje.

Todo esse tempo observando o fluxo de pessoas no DOJO me fez entender, o que nos mantém nesse BUDO não é nossa capacidade de aprender as técnicas, não é nossa destreza marcial, nem mesmo nosso porte e desenvoltura física, todos esses elementos são secundários e adquiridos com a pratica de qualquer arte marcial, o que nos mantém nesse caminho é o sentimento de SHOSHIN, a vontade de aprender cada dia um pouco mais, é sempre se ver como um jarro cheio, porem furado em sua base, precisando sempre renovar o seu conteúdo para que possa se manter ao mesmo tempo cheio e também fluido, e somado a tal sentimento uma constante atitude de polimento pessoal, buscando sempre exprimir o melhor de nós mesmos com toda harmonia e humildade.

Agradecimentos

Antes de qualquer outra coisa, agradeço a Deus pelo fôlego de vida a mim concedido, e pela reconciliação e justificação por meio da cruz de Cristo. Agradeço aos meus pais por serem sempre o maior exemplo de honra, dignidade, caráter e fé, agradeço por eles me colocarem no caminho e me ensinarem a caminhar com sobriedade e discernimento, agradeço por terem me apresentado Jesus Cristo, o qual é a pessoa mais importante em minha vida. Agradeço a minha amada esposa, Laís Lessa, por todo amor, cuidado, companheirismo, amizade e cumplicidade.

Agradeço a toda família NAIKAN, cada um de vocês soma em meu desenvolvimento de uma forma indizível, é uma grande honra treinas ao lado de vocês. Também sou muitíssimo grato aos Senseis Rodrigo e Henrique por tudo que já foi ditoaqui sobre eles e também pelo enorme carinho e dedicação que ambos têm por essa família.

“Um corpo não pode existir sem células, células não podem subsistir fora de um corpo.”
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Aikido, Trindade Interpenetrada

JUNHO, 2016 | HENRIQUE CATELLI
A natureza da ciência moderna ou da ciência provisória é analítica-desmembrada. À essa época analítica-desmembrada, a cultura é também desmembrada. A intenção de desmembrar e analisar é o meio para se chegar a síntese e à integração; ao que parece, esta intenção original ficou esquecida. A ciência deve ser ciência divina. O que o homem crê ser ciência, não passa de teoria, tecnologia e química. O progresso que se obteve em todas as áreas é extraordinário, mas será que foi dado algum passo em direção à verdadeira ciência?! Algumas frases de célebres cientistas nos trazem à tona essa “consciência adormecida”. “A ciência do Ocidente, que partiu da matéria, acabou, no final, chegando ao conceito de ‘vazio’ do Oriente”, Albert Einsten; “A ciência atual finalmente conseguiu chegar à mesma conclusão a que os antigos já tinham chegado através da meditação”, Sullivan; “As células do corpo humano contêm imensas quantidades de substâncias orgânicas e bilhões de átomos, mas sequer conhecemos a força que controla uma célula, que é a unidade básica da vida”, Spencer Gibson.

Caso os horizontes de domínio da ciência e religião não sejam cerceados arbitrariamente, algum dia elas se agregar-se-ão. Algo praticamente inevitável. Quando isso se der, parecido com o que aconteceu no século passado, a ciência terá passado por uma transformação tão profunda que estará apresentando um desenho, uma configuração difícil de ser compreendida até pelos cientistas da atualidade. A compreensão sobre religião também terá evoluído fazendo com que as duas, ciência e religião, ganhem mais força. Dr. Massafumi Inoki disse “A ciência e a religião são coincidentes no ponto em que consideram que o mundo material não é exatamente como o que captamos através dos cinco sentidos. Entretanto, elas divergem na forma de interpretá-lo. Como o mundo material não é aquele perceptível apenas pelos cinco sentidos, a religião considera que o que realmente existe é o pensamento. E a ciência, diferentemente, que é ‘algo material’ que existe independentemente do pensamento.”

Destarte, é indispensável compreender o princípio da trindade espírito, mente e corpo, sendo que o espírito é o principal, a mente (alma) obedece e o corpo (físico- matéria) acompanha e, assim como podemos relacionar os cinco espíritos do Budo (Shoshin, mente de principiante; Zanshin, mente que permanece; Mushin, não mente; Fudoshin, mente imóvel; Senshin, espírito purificado- atitude iluminada), com os cinco principais sentidos do corpo (visão, olfato, paladar, audição e tato), traçar um paralelo, compreendendo que a prática do Aikido traz em si, a busca da Trindade Interpenetrada, o sermos um, a junção da carne e do espírito, da ciência e religião, sermos de uma mesma e completa natureza.

A prática passa por várias etapas que visam preparar o praticante em diversos níveis, conduzindo-o a um fortalecimento físico através da execução de várias formas de exercícios, principalmente alongamentos, movimentação dos pés – Sabaki e o Hanmi (movimentação e posturas) – Ukemi (quedas) – passando por uma compreensão das formas de conexão – Mussubi – entendendo como posicionar as mãos, como fazer a “ligação” com o parceiro para executar uma técnica com leveza, sem o uso desnecessário da força e, por consequente, esta etapa não se acaba, elevando a prática a um nível digamos, espiritual, o Kokyu Ryoku. Nesta altura, o praticante já demonstrou interesse em descobrir mais sobre o Aikido através de pesquisas e leituras buscando conhecimento através das diversas literaturas existentes, esta é uma fase do treinamento que dificilmente é alcançada quando não se quer buscar algo mais “profundo”. Kokyu Ryoku, literalmente podemos dizer que significa o “poder da respiração”, não se avança verdadeiramente neste caminho quando não se adquire esta consciência. É certo que o ato de respirar é tanto involuntário como voluntário, Kokyu Ryoku é a busca do estado pleno destes dois atos, voluntário e involuntário, é ciência e religião, é ciência que fica paralítica sem a religião e religião que fica cega sem a ciência. Concluímos que a prática deve se dar de forma que nosso espírito, mente e corpo estejam trabalhando de forma uníssona. Passamos de um nível físico-mental para um patamar mais elevado, o do sentimento, da consciência. Devo citar que não é mera coincidência a semelhança do princípio da Trindade Interpenetrada com os diversos princípios que abordam os estudos exotéricos; Pai, Filho, Espírito Santo; Presente, Passado e Futuro; Tese, Antítese, Síntese; Sol, Lua, Terra; Quadrado, Triângulo e Círculo etc.

Observamos agora, que o Aikido trabalha nosso físico, nossa mente e nosso espírito criando um estado de consciência que antes não existia; a partir deste momento, estamos cientes que somos três, unimos nossa trindade, somos unos, completos: espírito, mente e corpo. Aikido, o caminho da união, essa é a trilha que devemos seguir para que possamos evoluir cada vez mais. Através da ciência e da religião, temos nos perdido por vários caminhos em busca da felicidade, por muitas vezes focando no “ter” ao invés do “ser”. Muitos “têm”, continuando no entanto, vazios, enquanto muitos que não “têm”, sentem-se preenchidos.

O Aikido tornou-se minha ciência e minha religião, apesar de, desde sempre ter consciência de que somos espírito, mente e corpo, através das diversas práticas espirituais que vivenciei. Vislumbro um longo e iluminado caminho através desta fantástica ferramenta de aprimoramento espiritual. Alcançar o estado de “Sunao”, a elevação do “Sonen” mais profundo, a compreensão do mundo invisível da força é algo mais valioso que o acúmulo de bens e fortuna, alcançar o verdadeiro estado de saúde, harmonia e prosperidade; divinizar, é o bem maior.
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A busca pela paz interior

JUNHO, 2016 | durval passos
O Aikido foi desenvolvido pelo mestre Morihei Ueshiba, sendo um conjunto entre as palavras AI (harmonia), KI (energia) e DO (caminho), definindo esta arte como um "caminho harmônico da energia". Representa não só uma arte marcial, como também é uma filosofia de vida e pode agregar às nossas vidas, como na concentração e dedicação com algo. Criar um ambiente harmônico no qual encontraremos paz. Porém, como uma arte marcial pode nos conceber paz interior?

Muitas concepções modernas definem paz interior como um estado de se estar mentalmente ou espiritualmente em paz, isto é, em oposição a estar tenso ou ansioso, sendo relacionado à felicidade e à prática de oração e meditação, podendo ser associada ao budismo e ao hinduísmo. Acredito que para alcançar a paz interior dependemos de nós mesmos, seja no que fazemos ou no que cultuamos e cremos no dia a dia. Entretanto, como a prática do Aikido pode nos levar a este estado de harmonia?

Tenho em mente que o Aikido é uma ferramenta de repouso rumo à paz, ao realizar sua prática, estamos meditando em certos momentos, trabalhando a respiração para evitar a tensão e cultivar a felicidade ao estar no convívio com amigos, sem falar que o Aikido foi influenciado por práticas religiosas como o xintoísmo, seja no fato de cumprimentar o Kamiza e no respeito ao próximo. Ademais, os lemas do Aikido que melhor especificam esta situação são: "ser pacífico", "ser tranquilo" e "não possuir sentimento hostil".

O ambiente em que o Aikido é praticado tem amor, cuidado, harmonia, técnica e dedicação, que são somados aos aspectos físicos também proporcionados pela arte. O treinamento do Aikido envolve resistência, flexibilidade e pouco uso da força muscular, sendo comum a temática: "use a força do oponente (uke) contra ele mesmo" ou "quanto maior a força, melhor para aplicar a técnica". É importante ressaltar que em sua prática, diversos músculos são trabalhados, daí a grande diversidade das técnicas, proporcionando um grande desenvolvimento físico e mental, nos preparando para a vida concreta e espiritual. É de suma importância aspectos como: projeções, desvios, torções e contusões, pois também fazem parte do Aikido.

As técnicas de Aikido são realizadas por no mínimo dois parceiros, mais especificamente falando são o Uke (atacante) e o Nage (executante), sendo ambos considerados elementos essenciais para a prática do Aikido, a função do nage é executar de maneira coerente a técnica, visando a postura e base, já o Uke tem a função de realizar um ataque, visando a força do ataque e como acompanhar o movimento do Nage. Se o Uke e o Nage estiverem entrosados, isto é, em sintonia, presenciaremos uma técnica bem realizada. As quedas são muitas e possuem grande importância aos movimentos do Aikido, atuando como uma resposta a eles e como uma forma vantajosa para o Uke quando recebe a técnica do Nage, visando não se machucar. As quedas juntamente com as bases são exigidas da faixa branca até a faixa preta e devem serpraticadas cuidadosamente pelo praticante e no tempo certo. Algo que torna o Aikido uma arte marcial diferenciada é o fato de que não tem competição, o que em minha opinião, torna os praticantes mais unidos.

A prática do Aikido pode nos conduzir ao respeito e à obediência, uma vez que é constituída por uma série de regras de etiqueta, tais como: "ao entrar e sair do dojo deve- se cumprimentar o Kamiza", "reverenciar o parceiro no início e término da técnica", "ficar em Seiza quando o sensei ou shidoin lhe der instruções", "não cruzar os braços dentro do dojo", "não arregaçar as mangas dentro do dojo", "manter o dogi limpo". São estas regras que tornam respeitável e agradável o ambiente, sem desordem e bagunça. Observação:dogi é composto por duas palavras (do – caminho gi – vestimenta). O Aikido nos faz valorizar a vida e saber fazer as escolhas de maneira coerente, sem falar que melhora a saúde, o estado de espírito e a concentração, também é uma forma de relaxar mediante aos problemas e preocupações do dia a dia.

Como parte da vestimenta de um Aikidoca teremos o hakama, uma calça utilizada para diferenciar o faixa preta do aprendiz. Para usá-lo deve-se saber cair bem, ter boa base, respeitar a etiqueta no Dojo e entender os princípios do Aikido sabendo aplicá-los em qualquer ataque, além de demonstrar fluidez ao executar os movimentos. De acordo com a temática geral do Aikido, "o motivo pelo qual se usa a calça hakama reside no fato de que por suas sete pregas tem-se a representação das sete virtudes do samurai, das quais uma é a etiqueta (respeito), pelo que um Aikidoka deve dar muita atenção, principalmente dentro de um dojo".

Nos dias de hoje, o Aikido pode ser encontrado em qualquer parte do mundo, porém com ideologias diferentes, mas todos devem respeitar a etiqueta imposta e ter cuidado com o parceiro na hora de aplicar a técnica. É de suma importância que as redes de ensino do Aikido possam cultivar um ambiente respeitável e de boas energias, visando alcançar a paz interior de cada indivíduo.

Agradecimentos

Agradeço à tudo e à todos, especialmente ao O-Sensei, Morihei Ueshiba, pela criação e dedicação ao Aikido; ao Sensei Rodrigo Mesquita e Sensei Henrique Catelli pelo respeito, dedicação em ensinar perseguindo sua visão de excelência em tudo que faz, aprendi a pensar mais antes de agir, a não impor minhas idéias e que cada pessoa é um ser único. Agradecendo a todos os meus colegas de jornada no Naikan Dojo e à minha família.
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Zanshin: a arte de se fazer presente

JUNHO, 2016 | joão paulo barreto
Existem algumas traduções para o termo Zanshin: Mente contínua, A mente que permanece, A mente sem resto, Mente alerta. Todas, no entanto, passam o mesmo sentimento que devemos ter ao praticar as mais diversas artes marciais japonesas. Por exemplo, no Kyudo, o zanshin é demonstrado mantendo a postura após o tiro, após a seta ser lançada o tiro continua não devendo perder a postura. No Karate, deve-se manter uma postura sólida pelo menos algum tempo após a realização do kata.

No Aikido a técnica ocorre em três momentos: Maai, Deai e Zanshin. Maai é o momento em que Nage e Uke estão numa distância adequada para o início da técnica. Deai é quando existe o contato físico. Zanshin acontece após o contato, sendo o estado de alerta e seriedade que deve existir depois da técnica.

Saotome Sensei nos fala sobre o zanshin nos seguintes termos: “Nunca devemos perder a concentração; nunca devemos baixar a guarda nem por um segundo. Temos de ficar constantemente alerta, cônscios do nosso parceiro de exercício, cônscios de todos os movimentos à nossa volta, prontos para o deai seguinte, prontos para o inesperado que vier de qualquer direção. Não afastemos nunca a nossa concentração do parceiro; não deixemos jamais que nosso espírito se separe dele ... zanshin é o futuro, mas também o agora. A qualidade do nosso zanshin é a qualidade do nosso Aikido.”

Há também de se perceber que o Zanshin não deve ser somente usado após a finalização de uma técnica. É necessário que estejamos alerta antes mesmo do início da técnica, nossa postura ao entrar no dojo é de sempre estar vigilante, desperto, atento, ou seja, em zanshin. Pois, devemos lembrar que o Budo (Artes marciais japonesas) tem sua origem no Bujutsu (Artes japonesas para guerra). Onde qualquer descuido ou desatenção poderia custar a vida do guerreiro.

Ao enveredarmos no caminho do Aiki, nos é ensinado que todos os aprendizados que recebemos ali, devem ser extrapolados para nossas vidas. Isso não deve ser diferente com o cultivo do Zanshin, sendo essa uma das características mais importantes do Aikidoísta, pois ele deve estar atento aos perigos e oportunidades que o dia a dia nos oferece, levando disso um aprendizado único, que seria perdido caso estivesse desatento. A humanidade em sua grande maioria não se faz presente, tendo dois grandes problemas: Ou se encontram com a mente no passado, remoendo o que poderia ter sido feito. Ou no futuro, angustiado por algo que nem existe. O zanshin é o estado de harmonia com a realidade, por mais paradoxo que isso possa parecer, pois ao iniciante dessa arte pode parecer que a pessoa que está em zanshin parece estar tensa, preocupada e inquieta. Sendo o sentimento exatamente o contrário a esse, no estado de zanshin a mente deve estar relaxada, tranquila e conectada ao ambiente que nos cerca.

A partir do momento em que adquirimos o hábito de praticar o zanshin não só dentro do dojo, mas também fora dele podemos perceber aspectos importantes em nossas vidas. Existem níveis de apuração do zanshin, para o qual podemos usar dentro do aikido, mas também em nossas vidas. Esses três níveis são: Percepção de si, Percepção do ambiente e percepção do outro. Todos esses aspectos são uma só coisa a partir do momento em que estivermos completamente conectados e em harmonia com o universo.

O primeiro nível é a consciência de si próprio. Dentro do aikido, por exemplo, podemos nos atentar a nossa etiqueta, a maneira como fazemos a técnica, como reagimos ao ataque. Em nossas vidas, podemos aplicar esse primeiro degrau ao observar a nós mesmos nos mais diversos ambientes: Lar, trabalho, sociedade. Vendo cada reação e onde nosso ego está agindo e onde está sendo alimentado, observando nossos defeitos e qualidades.

O segundo nível é a percepção de nós e do nosso ambiente. Na prática do aikido, podemos observar isso ao realizar técnicas em nage waza observando onde arremessamos nossos companheiros de treino, observar se alguém que foi projetado pode colidir e apurar nossos sentidos e sentimento para os perigos que nos cercam. No nosso dia a dia, podemos utilizar observando cada ambiente que entramos e sentindo a aura do local, saber que tipo de energia pulsa naquele local que nos cerca, se estamos num lugar com boas ou más energias agregando ao primeiro passo que é saber como reagimos a cada situação e ambiente.

O terceiro degrau é a percepção de nós, o ambiente e outro. Transformando isso numa coisa única, harmoniosa e totalmente interligadas. Dentro do Aikido uma das maiores expressões desse alto grau de zanshin é a execução de um Jiyu Waza, onde você tem que conectar consigo mesmo, o ambiente e todos os oponentes, fazendo com que o universo encontre a solução mais harmoniosa para aquele embate. Em nossa vida isso se expressa numa mente em equilíbrio com o que está dentro de nós e ao nosso redor. Não mais sendo influenciado por nossos pensamentos, pois só pensamos no agora. Ou pelo ambiente que nos cerca, pois temos total consciência dele, não o temendo. E por fim não entrar em conflito com o outrem, pois podemos nos ver no outro, estando totalmente conectados com as pessoas e em consonância com o cosmos.

Há uma frase do poeta William Blake que diz: “Veja o mundo num grão de areia, veja o céu em um campo florido, guarde o infinito na palma da mão, e a eternidade em uma hora de vida!”. Este é o espírito que devemos cultivar ao praticar o zanshin, pois essa é a arte de estar consciente e se fazer presente em nossa curta passagem pelo mundo.

Agradecimentos

Sou grato a várias pessoas e situações pelas quais passei e me levaram até esse caminho maravilhoso onde me encontro. Gostaria de agradecer a Deus, por iluminar e guiar cada passo que dei até hoje. Em segundo lugar aos meus pais que me deram educação e também me enveredaram a fazer o bem de forma desmedida.

Também sou muitíssimo grato ao Sensei Rodrigo Mesquita, que além de sensei também se tornou grande amigo e exemplo de pessoa. Pessoa a qual me inspirou a realizar esse artigo, pois quase sempre está atento a tudo e também me ensinando a ser um grande aikidoka e um homem honrado. Agradeço também ao professor Henrique, por tanta paciência e determinação para que eu aprenda cada dia mais.

Agradeço também a todos os professores que vieram de tão longe trazer luz, tanta harmonia e um vasto conhecimento para nós. Shidoin Roberto Matsuda, Shidoin Alexandre Borges, Fukushidoin Edgar Bull, Shidoin Tamotsu Kubo, Shidoin Osmar Batista e Shidoin Alexandre Bull.

Por fim, mas não menos importante, meus companheiros de treino e verdadeiros amigos que fiz no Dojo: Bruna, Durval, Enzo, Franklin, Herbert, João Viana, João Henrique, Josy, Laís, Marcelo, Marta, Moisés, Nilce, Ricardo Cordeiro, Ricardo Nascimento, Rízia e tantos outros que passaram pelo dojo.

A todos estes reverencio e dou o mais profundo Domo Arigato Gozaimashita!
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Aprendendo a entender o significado do Aikido

JUNHO, 2016 | joão vianna
O Aikido foi criado entre 1912 e 1942 pelo mestre Morihei Ueshiba, conhecido também como O-SENSEI. Antes da criação, o Fundador quando criança era muito incentivado a fazer artes marciais e natação para assim se fortalecer, pois era muito fraco. Passou por diversas artes marciais e consequentemente por muitos desafios, principalmente quando estava no exército.

Ele usava muito o sumô e alguns estilos de jujutsu, e até então nunca tinha perdido uma luta. Foi quando conheceu SOKAKU TAKEDA, mestre de aikijujutsu do estilo Daito- ryu. O-SENSEI treinou com Takeda por um bom tempo, chegando a ser um dos alunos mais próximos dele. Em seguida foi chamado para dar aula de artes marciais na marinha.

Após muitos estudos marciais e de crenças religiosas, é criado o AIKIDO.

Na visão do Fundador, o Aikido é um caminho do espírito harmonioso, e através dele um ataque de um oponente pode ser unido à sua defesa sem atrito, assim podendo resistir e inibir seu oponente utilizando sua energia. O praticante atacado utiliza a força de seu oponente, assim podendo imobilizá-lo ou projetá-lo para sua defesa.

A partir de 1920, o AIKIDO começa a se afastar do Daito-ryu, em parte devido ao envolvimento de O-SENSEI com a religião Oomoto-Kyo, originária do Shinto, noutra mão, a despeito da origem belicosa da arte, por não se opor ao adversário e sim envolvê-lo e utilizar sua própria agressividade e energia. Com isso a divisão do nome AIKIDO.

Ki, uma energia natural que flui no corpo humano; Ueshiba depois de muitos estudos entendeu o controle/harmonização desse ki. Outra importante colocação desta arte é seu foco no desenvolvimento espiritual, tendo O-Sensei um de seus mentores o Onisaburo Deguchi, líder da seita Oomoto-Kyo no Japão.

No intuito de conhecer mais a fundo a palavra AIKIDO, temos uma maneira de dividir a palavra em partes, assim temos:

AI – Harmonia, Equilíbrio
KI – Energia universal
DO – Caminho

Aprendendo a entender o significado do Aikido

Aikido tem um significado muito importante para minha vida, voltando há 19 anos no passado, eu com meus 18 anos de idade, sem maturidade, com uma vida bem tumultuada, tinha acabado de me mudar para Santos-SP, trabalhava num restaurante com minha mãe, estudava pela manhã e só queria saber de farra, confusão, etc.

Quando na escola conheci o Márcio, colega de classe também agitado como eu, mas via nele a cada dia mais uma calmaria. Quando depois de nos aproximarmos ele disse que iria confessar que fazia uma arte marcial e que sempre sentia algo diferente quando falava nela, mas tinha vergonha de falar com os colegas de classe. Um dia insisti de ir com ele assistir uma aula. Quando vi, fiquei intrigado: nossa! Como um professor tão pequeno (Tamotsu Sensei) poderia fazer isso com um homem tão alto e grande como o Elídio?! No fim da aula fui recebido pelo Sensei Osmar, homem alegre que de imediato disse: você é amigo de Márcio? Venha treinar conosco, você vai gostar. Como um jovem imaturo, pensei: vou fazer essa arte marcial e assim ninguém vai se meter comigo daqui em diante.

Comecei a treinar, sempre revezando as aulas entre Sensei Tamotsu e Osmar e assim fui automaticamente me distanciando das ruas, confusões, e junto com meu colega de escola melhorando nos estudos, e o melhor de tudo: fazendo novas e verdadeiras amizades, sem segundas intenções.

Mas nem sempre tudo são mil maravilhas: com minha mãe desempregada e eu também, tinha que parar o Aikido e mais uma vez tive a prova de que o Aikido não era uma simples academia de arte marcial, e sim uma nova família. O Sensei Osmar e Tamotsu liberaram minha contribuição até que eu pudesse arcar com as mensalidades novamente, e assim foi por mais alguns meses até que por obra do destino tivemos que sair de Santos, parte de minha vida que não gosto nem de lembrar.

Com tudo isso, fiquei afastado do Aikido por mais de 15 anos, mas com certeza a semente havia sido plantada, precisando somente ser cultivada para crescer. A vida tem dessas peças... trabalho, família... nessa rotina toda de trabalho no turismo vim parar na Bahia, mais especificamente em Itabuna. Depois de me estabilizar profissionalmente, comecei a procurar cuidar do pessoal. Precisava de alguma atividade física; começava algo, mas nada me prendia, até que passei na frente de uma academia e vi escrito “AIKIDO”. Nossa! Vi o filme de minha vida toda em minha mente, o quanto me fazia bem... Demorei ainda um bom tempo para ir assistir uma aula, pois tinha que organizar minha vida pessoal, pois iria entrar para não sair mais!

No dia que assisti à aula senti logo uma paz interior, que não sabia como explicar para a minha esposa, só dizia que iria fazer. Fui recepcionado pelo Sensei Rodrigo, e numa breve conversa combinamos de eu começar.

Primeiro dia de aula, bases iniciais e etiqueta e com isso em minha mente vinha o passado no presente. O corpo em estado de êxtase! A cada Tenkai Ashi sentia uma energia tão boa que não cansava de repetir. Nessa mesma época que comecei tinham ainda outros iniciantes, e com eles fui criando uma amizade que não entendia, pois é como se já nos conhecêssemos há muito tempo. A cada aula que passava, mais ainda sentia minha alma leve.

Numa bela noite conheci pela primeira vez o professor Henrique. Nossa! Como se fosse há 19 anos, aula super dinâmica e intensa, e no fim da aula eu com o corpo exausto, mas com o espírito alegre e feliz... não conseguia entender. Chegando em casa comecei a lembrar da aula e a comparação foi espontânea: Sensei Rodrigo, homem com uma postura japonesa que exigia os pequenos detalhes do Aikido e tudo isso com uma energia impressionante; professor Henrique, com seu jeito mais ocidental, sempre exigindo físico e postura, mas sempre com um toque de humor. Duas energias que juntas transformavam o dojo, no meu entendimento, num plano superior que a cada dia me prendia ainda mais! Sentia então o mesmo que senti com os Sensei Tamotsu e Osmar.

Com o passar das graduações, comecei a enxergar a vida com outros olhos, e também a me portar de outra maneira. Vi a importância que a família tem, comecei a ter uma percepção sobre as atitudes que tomava e tomo sobre minha vida e dos outros à minha volta.

Hoje, com o pouco conhecimento que tenho sobre o Aikido, posso dizer que seus lemas têm, não só haver com a arte marcial em si, mas com certeza com o nosso dia a dia. Destaco alguns que para mim eram muito difíceis, e hoje consigo tranquilamente exercer como: “Não se enervar”, “Não possuir sentimento hostil”, “Ser Compreensivo” e “Conscientizar-se de que a prática do Aikido tem por princípio o autoconhecimento”. Esse último, em especial, pois a cada dia procuro me conhecer melhor.

Agradecimentos

Agradeço de coração, primeiramente à minha mãe Maria Marta, que sempre me incentivou e me ensinou a ser o homem que sou; à minha esposa e filhas pelo apoio sempre: amo vocês!

Não poderia deixar de agradecer aos Sensei Tamotsu e Osmar pela semente plantada, ao colega Márcio, que me levou para o Aikido, onde quer que esteja; aos instrutores que vieram para abrilhantar nossos seminários durante esses anos: Sensei Alexandre Bull, Edgar Bull, Matsuda, Alexandre Borges, e aos amigos Marcos e Fabi. À minha família Naikan, em especial aos irmãos que começaram comigo no Aikido, e que com certeza iremos muito longe: João Paulo, Fernanda, Durval, João Henrique, Moisés, Eduardo, Franklin... Não poderia de deixar à parte o meu agradecimento aos Sensei Rodrigo e Henrique por toda paciência e dedicação. Domo Arigato Gozaimashita!
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Aikido: a busca da verdade

maio, 2013 | rodrigo mesquita
O Nidai Doshu, Kisshomaru Ueshiba Sensei, nos disse que de todas as artes marciais o Aikido talvez fosse a mais rígida, pois focalizava-se na busca da verdade. Para mim, isto define muito bem o Aikido. Mas, o que é a verdade? E como uma prática marcial pode conduzir uma pessoa à verdade?

Em muitas correntes esotéricas, filosóficas e místicas a verdade é considerada a realidade última, o Imanifesto, às vezes chamado de Deus. De forma geral e sintética, muitos desses conhecimentos se reafirmam: o Um gerou o Dois, o Dois gerou o Três, e daí por diante. A Unidade Transcendente manifestou-se de forma dual, e esse é um pilar da criação. Gosto de pensar que o estudo profundo do Aiki é o estudo da dualidade, e sua compreensão completa torna aquele que a possui realizador em potencial de todas as coisas. Especulo ainda, que aquele que atinge o âmago do binário, compreende (ou começa a compreender) a Unidade, uma vez que In e Yo são dois lados de uma mesma moeda; e a essência do binário é a unidade.

Agora, como uma simples pessoa pode atingir essa Unidade Transcendental através dessa prática marcial? Bom, vamos esboçar uma tentativa de resposta para essa pergunta... Um dos lemas do Aikido condensados por Ueno Sensei é "Conscientizar-se de que o Aikido é um dos caminhos que levam à Deus". É difícil para nós, ocidentais, imaginar como uma prática marcial pode conduzir uma pessoa à Deus, ou seja, à realidade última. Comecemos pela frase gravada no Oráculo de Delfos: "(...) homem, conhece a ti mesmo e conhecerás os Deuses e o Universo". Em seguida temos outro lema de Ueno Sensei: "Conscientizar-se de que a prática do Aikido tem por princípio o auto-conhecimento". Sabemos também que a maioria dos sistemas/práticas que tem por foco a evolução espiritual do ser humano, são inteiramente, ou parcialmente, baseados no auto-conhecimento. Começamos a divisar então, que no Aikido, a porta de entrada para este caminho que leva à Deus é o auto-conhecimento, embora, saliento, isto seja só a ponta do iceberg. À partir daí, vamos começar a montagem desse quebra-cabeças.

É bem sabido que o treino de Aikido, se conduzido de forma apropriada, aumenta exponencialmente a intuição e outras capacidades latentes do praticante, permitindo o desenvolvimento interno do mesmo de forma vasta e ininterrupta, concedendo-o, assim, ferramentas indispensáveis na busca da verdade. Quando atinge a faixa preta, o praticante deve começar a utilizar essas capacidades para trabalhar seu próprio desenvolvimento no caminho, percebendo, com esse auxílio e o direcionamento que o Sensei lhe dá, seus erros e acertos, e se auto-aperfeiçoando à partir daí. Agora, o que viria a ser essa "forma apropriada" de treinar Aikido? O O-Sensei nos diz que ao praticar devemos analisar o que estamos fazendo. Wagner Sensei diz que é necessário treinar buscando se conscientizar dos princípios e razões que fizeram com que aqueles exercícios e técnicas fossem criados. E estes são apenas alguns dos indicativos a seguir. Segue um excerto do O-Sensei sobre a forma apropriada de se praticar:

"O Aikido é um caminho para a verdade e seu treino deveria ser entendido como tendo o objetivo de encontrar a verdade. Na disciplina do Aikido, quando você treina arduamente, pratica sabiamente e analisa o que está fazendo, o Kami Waza surgirá.
No Aikido, quando você treina da maneira descrita a seguir, seu corpo absorverá o poder da verdade imutável:

1. Treine para harmonizar sua mente com os movimentos do Universo;
2. Treine para harmonizar seu corpo com os movimentos do Universo;
3. Treine para harmonizar seu Ki, que une mente e corpo, com os movimentos do Universo.

Somente aqueles que são capazes de treinar nesses três modos ao mesmo tempo, não na teoria, mas no dojo e em sua vida diária, podem ser chamados de praticantes de Aikido.

(...) Treinar o corpo requer primeiramente que a pessoa trabalhe e prepare tanto a mente como a alma de modo completo. Em seguida, ela deve polir, ou limpar, e purificar a vitalidade do Nen (sentido ou sentimento) e finalmente unir o corpo e a mente. Desse modo, cria uma base da qual pode surgir infinitas Waza (técnicas).

(...)Preferencialmente, o Nen encontra sua raiz na conexão apropriada do Ki da pessoa com o Ki do Universo, e cresce à partir daí. Nesse nível, o Nen dá origem a poderes mais que naturais. Como resultado, a pessoa adquire o poder de perceber claramente o menor movimento de seu oponente. Esse é o estado de Meikyo Shisui (uma mente clara que reflete como as águas calmas)."

Doravante, percebemos que a simples repetição das técnicas, e a simples freqüência ao treino, mesmo durante anos, não são suficientes para progredir corretamente no caminho. Claro, há sempre que se considerar que cada um tem seus motivos para treinar, embora isso me pareça, a priori, mais um subterfúgio, pois, se alguém não conhece algo e decide que quer aprender esse algo, mas utilizando apenas uma parte que julga saber ser o melhor para si - considerando ainda que essa pessoa muito provavelmente não conhece nem a si de forma razoável - isso me parece um simples caso de arrogância e impertinência. Por isso acredito que a postura daquele que busca é ser totalmente receptivo, sem "mas" nem "porém". Quem não sabe, e quer saber, não pode se arrogar o luxo de dar palpites em "como" virá a saber. Por isso a escolha de um bom mestre, a quem se possa confiar sua própria vida, é fundamental.

O Universo dotou o ser humano com diversas capacidades; se utilizamos e estimulamos apenas algumas delas, isso será um verdadeiro desperdício. Claro, não há dúvidas de que a intuição tem papel fundamental no desenvolvimento do praticante Yudansha, mas, também o têm a reflexão, e em menor grau, o raciocínio. Alguém disse uma vez "(...) é necessário conjugar o rigor do raciocínio com a intuição e a inspiração." É nossa mente objetiva, fazendo uso da lógica e do raciocínio, que é capaz de duvidar, equacionar, fundamentar, investigar aquilo que estamos fazendo. Um praticante que não tem dúvidas sobre sua própria técnica, que não se coloca em cheque, pára de evoluir. É necessário ter um sincero e ardente desejo de evoluir, de aprender tudo quanto seja possível, testar as mais variadas formas de uma mesma técnica e avaliar paulatinamente cada uma delas para conhecer seus pontos fortes e fracos. Repetir, repetir, repetir, até à exaustão. Não há que se confundir essa postura com insegurança, algo que do nível de Shodan para cima, tende a ir diminuindo com o progresso do praticante. Hoje em dia é comum as pessoas terem em alta conta suas próprias idéias e conceitos - inclusive sobre si mesmas - de forma que os defendem com "unhas e dentes", não pela verdade que possa haver nestes, mas por uma pura questão de ego. Uma pessoa razoavelmente madura deve ser capaz de abrir mão de suas próprias idéias quando percebe que existem idéias mais bem fundamentadas ou que correspondam melhor à verdade. Da mesma forma, é necessário pensar sobre nossa execução técnica e evolução no caminho com sinceridade, o que podemos melhorar, como podemos melhorar, o que está ficando razoavelmente bom, o que está ruim, por que está ruim, etc. Obviamente as coisas começam no nível físico, mas se expandem ao psicológico e emocional, e muitas vezes falhas cruciais que impedem uma execução e prática perfeitas (ou mais próximas à isso) têm sua origem nestes campos. Há ainda que se investigar e estudar cuidadosamente a literatura - que graças ao Sensei Wagner é bastante extensa em nossa língua - pois sem conhecer a origem do Aikido, a vida do Fundador, os princípios e origens por detrás de toda execução técnica, para apenas falar no básico, fica impossível se chegar a algum lugar. Bom, essas capacidades mentais, por estarem ligadas à mente objetiva e aos sentidos físicos, têm grande propensão ao erro, ao sofisma, embora, ao meu ver, não seja o erro/acerto por detrás delas o que verdadeiramente importe, e sim o simples fato de utilizá-las para auto-investigação, para o auto-conhecimento de que nos fala Ueno Sensei.

A consequência do exercício dessas capacidades da mente objetiva, de certa forma, é a reflexão. Reflexão é o movimento de volta sobre si mesmo, ou movimento de retorno a si mesmo. O praticante tem de ter a capacidade de refletir, ou, se não a tiver, ela deve ser estimulada pelo seu Sensei. Alguns encaram a reflexão como função da mente objetiva, outros, porém, a percebem de forma intermediária entre a mente objetiva e o inconsciente. Uma boa reflexão, ou até mesmo uma autêntica reflexão, ocorre quando focamos nossa atenção em algo em particular, mas ao invés de ativarmos a mente objetiva e suas funções, a relaxamos e entramos num estado de atenção sem tensão, atentos para qualquer canto de onde possam advir as respostas que buscamos, seja da inspiração, da intuição, ou do aparente "acaso" que permeia todo o Universo, e que, para aqueles em constante estado de atenção, são nada além da Providência. A reflexão, ao contrário do raciocínio, nos traz clareza, nos faz ver as coisas de forma mais real, como elas realmente são.

A inspiração é, assim como o ato de captar o ar que nos rodeia para dentro de nós, trazer algo de fora para dentro. Esse algo pode ser uma emoção, um pensamento, uma energia, etc. Digamos, por exemplo, quando uma pessoa se sintoniza com um Kami em específico, com uma força, ela está inspirada por essa força, e age com a influência dela. O praticante deve sempre procurar inspiração na natureza e no Universo, buscando o estado de união com todas as coisas de que nos fala o O-Sensei.

Já a intuição é o tão falado sexto sentido, que advém da conjugação da naturalidade, do relaxamento e da atenção. À bem da verdade, a intuição está sempre lá, mas devido à má educação que temos em nossas vidas diárias, somos forçados a não lhe dar atenção, e com o tempo deixamos de percebê-la. É preciso ser natural, ou seja, seguir e deixar a natureza seguir seu curso natural, evitando o atrito, buscando agir conforme a água, sempre abraçando e se adequando à todas as coisas sem lhes oferecer resistência. Para ser natural, é necessário estar relaxado; esse relaxamento, na verdade, está intrinsecamente ligado ao estado de naturalidade. Para captar as "ondas" de intuição que temos é necessário a atenção. Devido a nossa má postura mental, rechaçamos qualquer intuição que nos chegue, e se acaso a percebemos, encaramos-na como um pensamento tolo, fora de lugar, ou improvável. A mente objetiva tenta abafar a intuição. Somente quando aquela intuição se confirma pelo desenrolar dos fatos é que de imediato retrucamos: "nossa, acabei de pensar isso!"

Todos esses pilares são fundamentais para uma forma apropriada de treinar Aikido. O raciocínio, a reflexão, a intuição e a inspiração. Agora, partindo da idéia de que estamos praticando de forma apropriada o Aikido, ou seja, como o Fundador preconizou e idealizou este Budo, conseguimos aos poucos fortalecer essas capacidades, para em seguida utilizá-las em nosso próprio benefício, no nosso desenvolvimento no caminho. À partir daí a capacidade de auto-introspecção do praticante começa a fluir, e ele deve começar a exercitar o que chamamos de Naikan, a percepção interior. Naikan é olhar para dentro, procurar perceber nossos mecanismos internos, como funcionamos em um nível mais profundo. Esse é o começo de um verdadeiro auto-conhecimento. Conhecer as molas e engrenagens internas que movem nossas ações no dia-a-dia, de onde surgem nossas emoções, onde estão ancorados nossos pensamentos, etc. Este é o ponto da leitura, da percepção e refinamento da atenção. O passo seguinte é o trabalho sobre si mesmo. O praticante deve prosseguir com a "limpeza" e correção. Este é o ponto do Mitama Migaki e Chitsujo Migaki, o polimento do espírito e o polimento da nossa percepção quanto à verdadeira ordem natural das coisas. Este é um ponto extremamente delicado, pois o praticante que se aventura de forma despreparada aqui poderá incorrer em erros que acarretarão grave dano para si mesmo. Faz-se indispensável a condução e acompanhamento do mestre neste passo, uma pessoa que já chegou neste ponto e que está familiarizado com ele, sendo capaz de guiar de forma segura o praticante no caminho. Muitas vezes o aluno não compreende o comportamento do Sensei para com ele, porém, este sabe com precisão como trabalhar o ego de seu aluno.

O resultado do início deste trabalho é o desembaraçamento mental. O praticante enfim começa, aos poucos, a se libertar dos grilhões do ego, e vai se encaminhando para a Unidade. A harmonia começa enfim a se manifestar não apenas em sua técnica, mas em toda a sua vida. Uma coordenação altamente desenvolvida aparece como resultado direto  dessa harmonia, coordenação que abrange não somente o físico, mas o emocional e o psicológico, além do aperfeiçoamento da conjunção dos três. Este trabalho interno unido à prática constante, árdua e disciplinada leva ao equilíbrio dos corpos físico, emocional, mental e espiritual, como disse O-Sensei: "Ki no Myoyo (o uso elevado do Ki) permite que os indivíduos harmonizem seu corpo e mente, assim como permite que alcancem a harmonia com o Universo mais amplo." Então, principiamos pela prática das técnicas, que em si encerram princípios e mecanismos da verdade, e que embora possamos ignorá-los e desconhecê-los, ainda assim surtem seus devidos efeitos - embora seja indubitável que se conhecermos a realidade por detrás destes princípios e mecanismos, sua prática seja infinitamente superior em termos de benefício para o praticante. Essa prática desperta nossa sensibilidade interna, ao mesmo tempo que pacifica, equilibra e "alinha" nossos corpos, conduzindo-nos assim ao auto-conhecimento. Avançando com o auto-conhecimento, nos direcionamos à unidade de nosso próprio ser. Uma vez em unidade, ligamo-nos ao centro Universal, e começamos a reverberar com todo o Universo, e aí, em minha opinião, deve principiar a compreensão da Unidade. À partir disso, o caminho segue na dimensão espiritual.

O Aikido é um caminho tão vasto quanto o é a capacidade de desenvolvimento do ser humano. Sabemos por muitas histórias e exemplos do quão baixo e do quão alto o ser humano pode alcançar no curso de uma vida. O Kaiso foi, até agora, a pessoa a atingir o mais alto grau de desenvolvimento neste caminho, mas, como ele mesmo disse, não foi ele quem criou o Aikido, ele apenas nos apresentou-o. Como disse antes, conhecer tamanha dádiva e não realizá-la em todo o seu potencial (ou pelo menos se esforçar com esse intuito), seria um grande desperdício, uma pérola atirada ao lixo.
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Conceitos básicos para iniciantes

OUTUBRO 2009 | rodrigo mesquita
Com o intuito de ajudar os iniciantes, estamos disponibilizando um pequeno resumo dos pontos principais abordados nos primeiros meses de treinamento. Com este resumo e o auxílio dos instrutores espera-se que os praticantes possam compreender melhor alguns conceitos básicos como Tai Sabaki, Ukemi, Mokuso e outros.

Tai Sabaki significa “movimentação/esquiva do corpo”. Quando uma pessoa inicia na prática do Aikido, a primeira coisa que ela aprende é o Tai Sabaki - que no Aikido consiste no conjunto de movimentos partindo de uma determinada postura - e os Ukemi (quedas). As posturas do Aikido têm por finalidade criar um centro de gravidade estável, através do qual o praticante poderá executar as técnicas de forma firme e segura, sempre agindo como centro do movimento, hora utilizando a força centrípeta, hora a força centrífuga.
O Kamae básico do Aikido é o Hanmi, que significa literalmente “metade do corpo”. Kamae é qualquer posição/postura de guarda que abranja, além da postura física propriamente dita, uma atitude mental de alta sensibilidade e preparação para desencadear qualquer técnica. Ao lado vemos como executar corretamente o Hidari Hanmi (Hanmi esquerdo, ou seja, com a perna esquerda à frente) e o Migi Hanmi (Hanmi direito).

Cabe salientar que o Hanmi normalmente é feito com o pé da frente apontando diretamente para frente, enquanto que o pé de trás fica num ângulo de 90º em relação ao pé da frente, deixando o corpo ligeiramente de lado (daí o nome da postura ser “metade do corpo”), fazendo do mesmo um alvo menor. Através da influência de alguns mestres como Gozo Shioda, algumas escolas de Aikido adotaram um Hanmi um pouco diferente (o mesmo da imagem acima) - com a ponta dos pés ligeiramente voltada para fora da linha de ataque - que é o que utilizamos no Naikan Dojo e que nos foi ensinado pelo Shihan Wagner Bull.
O modo como executamos corretamente este Hanmi é com a perna da frente flexionada, mantendo cerca de setenta por cento do peso do corpo nela, e a perna de trás completamente esticada, com cerca de trinta por cento do peso do corpo nela. Isso varia bastante, uma vez que ao mudarmos de um Tai Sabaki para outro é comum ocorrerem mudanças no peso depositado em cada perna, variando ainda em decorrência do tipo de técnica que executamos. É importante também apoiar-se sempre na parte dianteira da sola do pé, nunca apoiando o peso do corpo sobre os calcanhares.

Partindo do Hanmi, temos alguns movimentos básicos de esquiva normalmente utilizados dentro das técnicas do Aikido, que são: Tenkai Ashi (pivô sobre os pés), Goho Tenkan (girar nas “cinco” direções, realizando uma esquiva) e o Irimi Tenkan (entrar/avançar no espaço do atacante, posteriormente realizando uma esquiva).

Abaixo disponibilizamos um esquema gráfico dos movimentos citados, para auxiliar os iniciantes. As marcas pontilhadas (dos pés) indicam a posição inicial, e as marcas preenchidas indicam a posição final. A cor vermelha representa o pé esquerdo, e a azul o direito. A numeração indica a ordem em que os movimentos são feitos. O pequeno círculo branco indica o ponto de apoio para se realizar o movimento com os pés.
Além destes Tai Sabaki existem outros, porém, nos ateremos à apenas mais três: Okuri Ashi, Tsugi Ashi e Ayumi Ashi. Estes três movimentos não se tratam de esquivas, mas sim de deslocamentos. São o modo correto de “andar” dentro da postura Hanmi. Segue a ilustração:
Como se pode perceber, no Okuri Ashi e no Ayumi Ashi a distância percorrida é praticamente a mesma. Já no Tsugi Ashi, alcança-se uma distância maior. 

Além do Tai Sabaki, existem alguns conceitos básicos no Aikido com os quais o iniciante deve se familiarizar. São eles: o Mokuso (concentração), Ki Wo Dasu (estender o Ki), e os Ukemi (quedas).

Mokuso é a concentração feita em Seiza (postura sentado sobre os calcanhares, com o peito dos pés contra o Tatami) realizada no começo e final de cada aula, onde se busca limpar a mente de tagarelices e pensamentos, buscando assim um sentimento de calma e concentração. Neste momento colocamos todas as nossas energias no Saika no Iten (centro energético que fica localizado à aproximadamente cinco centímetros abaixo do umbigo), e permanecemos nesta postura até sentirmos um estado de unificação com o Universo. É importante manter uma postura correta, com a coluna ereta, cabeça alinhada e o corpo relaxado. No Aikido, procura-se realizar as técnicas com o mesmo sentimento interior de Mokuso, buscando assim que essa atitude acabe por se estender em todos os momentos da vida do praticante.
Além da prática do Mokuso, temos o Ki Wo Dasu, ou prática de estender o Ki. Através dela, fazemos com que a energia concentrada no Saika no Iten flua para o exterior através dos braços e dedos. Aprender a estender a energia, que flue do Saika no Iten, é fundamental para se praticar Aikido corretamente. Por isso a importância de manter os braços e dedos das mãos sempre estendidos, a fim de que o Ki flua livremente, sem estagnar. A partir desta prática aprendemos que no Aikido os braços se tornam fortes, porém flexíveis, ficando as articulações livres para se moverem de acordo com a necessidade da técnica.

Por fim, temos os Ukemi, as quedas do Aikido. O Ukemi é também conhecido como a Arte de Receber a Técnica. O iniciante no Aikido deve aprender os Ukemi para que possa ser arremessado ou imobilizado sem se machucar. Mesmo após aprender a fazer as quedas básicas, o Aikidoka deve continuar a se esforçar para fazê-las cada vez melhor, de forma que se tornem naturais e harmônicas. Segundo o Shihan Wagner Bull, para se realizar um bom Ukemi são necessários três elementos: flexibilidade, determinação (sem imprudência ou exibicionismo) e, o mais importante, entregar-se para seu parceiro, sem tensão, de forma relaxada e atenta para qualquer eventual mudança no movimento e na força aplicada. O Nage (aquele que executa a técnica) deve prestar atenção à segurança do Uke (o que recebe a técnica), seguindo o movimento natural do seu corpo e emitindo apenas o poder necessário para concretizar a técnica.

No Oriente, a maestria de um artista marcial é medida não apenas pelo seu potencial de ataque, mas principalmente pela sua capacidade de defender-se usando somente a força e a energia mínima necessárias, sem lesar seu(s) atacante(s) em ambos os casos.

Dentro dos Ukemi básicos do Aikido temos: Mae Kaiten Ukemi, Ushiro Ukemi e Ushiro Kaiten Ukemi. O Mae Kaiten Ukemi consiste em transformar o corpo em uma esfera, rolando para a frente. O Ushiro Ukemi é a queda de costas contra o Tatami, executada quando não há espaço para se rolar e levantar de uma distância mais segura. O Ushiro Kaiten Ukemi é o inverso do Mae Kaiten Ukemi, ou seja, uma queda em que se transforma o corpo em uma esfera, rolando para trás.

Além das quedas básicas, existem outras muito utilizadas no Aikido, como o Yoko Ukemi (queda de lado), Ushiro Otoshi Ukemi (queda de costas com projeção), Ushiro Otoshi Kaiten Ukemi, Mae Zempo Ukemi, e os Henka Waza (variações das quedas básicas).

Todas as quedas e rolamentos devem continuar com o Uke se colocando de pé o mais rapidamente possível, sempre olhando para o Nage e mantendo o Zanshin.

*Este artigo contém citações diretas e adaptações retiradas de http://www.aikikai.org.br/e_tec.html
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