Kokyu: a compreensão do binário e o caminho para Unidade

AGOSTO, 2017 | RODRIGO MESQUITA
O Aikido é dito um caminho para a harmonia que tem como ferramenta de estudo as operações possíveis entre forças antagônicas, ou, dizendo de forma simples, o estudo da dualidade, do Yin-Yo japonês (ou Yin-Yang chinês). Seria possível que essa prática focada na experimentação com a dualidade resultasse na compreensão da unidade? Como, do estudo do Dois, podemos chegar a conhecer o Um? Acredito que atingir essa unidade em seus planos físico, psíquico e emocional é o que possibilita o estado de harmonia do qual nos fala o Aikido, e me esforçarei para esboçar uma resposta a essas questões.

Muitas religiões e tradições espirituais nos contam através de suas cosmogonias como a Unidade Imanifesta criou e ordenou todo o universo, como no seguinte excerto de Lao-Tse:

"O Grande Princípio gerou Um. Um gera Dois, Dois gera Três, Três gera Dez mil coisas. Dez mil coisas se tornam harmonizadas quando combinam as forças do positivo e do negativo. Atingir a auto-realização na Terra é viver dupla existência: uma cumpre os deveres do mundo, outra, interna, fica mergulhada na paz universal do 'Do'."

Esse Grande Princípio de que nos fala Lao-Tse é tratado na tradição como o Absoluto, a Verdade, a realidade última; Aquele que, imóvel e permanente, move todas as coisas impermanentes. É a força motriz universal, terrível e sempre desconhecida. Porém, a criação do universo não ocorre antes que seja criada a dualidade. A Unidade Imanifesta tem necessidade de gerar uma segunda unidade; uma manifesta e limitada, embora ainda totipotente, pois no reino do limitado o ilimitado não pode agir diretamente, caso contrário, a criação se esfacelaria pela quebra de suas regras e leis. Na Kaballah, chamamos essa unidade de Kether (a coroa), e a partir dela é que são geradas Binah e Chokmah - juntas, representam o binário, a dualidade, as duas colunas que sustentam o templo (a criação) - Izanagi e Izanami na cosmogonia xintoísta. "O binário é a unidade multiplicando-se por si mesma para criar", nos diz Eliphas Levi, um proeminente ocultista do século XIX.

Com alguma reflexão percebemos que a natureza da dualidade é a unidade: um objeto único e indivisível apresenta dois pólos, caracterizados como uma espécie de gradiente de concentração. Caso o equilíbrio entre esses pólos seja harmônico - os gradientes estejam na devida proporção - os pólos serão complementares, e um buscará o outro. Caso não ocorra esse equilíbrio, os pólos serão contraditórios, e um irá repelir o outro. Isso é expressado perfeitamente no símbolo do Tao (conhecido como Yin-Yang). Dia e noite, verão e inverno, o masculino e o feminino, sim e não, são, em essência, a mesma coisa. A aparência de diferença é, de certa forma, ilusória. O sábio reconhece essa ilusão, e a ultrapassa, repousando seu interior de forma serena no Tao, na Unidade Indissolúvel. A geração da luz na matéria torna necessária a existência da sombra; o branco não é mais do que a presença de todas as cores, ao passo que o preto é simplesmente a ausência delas; o alto só existe em relação ao baixo, assim como o calor e o frio estão na relação um do outro. E por qual razão, para que aja a manifestação do universo perceptível, a dualidade é necessária? Até o momento, divago que a dicotomia fundamental parece ser um mecanismo de aprendizado da Unidade, ou seja, da Verdade. A bíblia cristã nos traz a mensagem de que tem mais valor o pecador arrependido do que o justo que não necessita de arrependimento. Assim também, a queda de Lucifer e a precipitação de Sofia do pleroma mostram este pretenso axioma: ao tempo em que a luz é gerada, se gera a sombra. Para se ter o conhecimento pleno da obra, é necessário compreender ambas as polaridades da unidade, por isso a descida de Lucifer/Sofia; é preciso que o preto conheça e compreenda o branco e vice-versa; para atingir a Unidade, é preciso averiguar em detalhes cada pólo da suposta dualidade. Essa é a mesma ideia contida na saída de Adão do paraíso, quando ele come o fruto da árvore da ciência do bem e do mal e se torna capaz de perceber a dualidade existente em todas as partes da criação. Naquele momento ele inicia uma jornada de conhecimento cujo objetivo é o retorno dele à matriz inicial com uma percepção e saber plenos.

O Aikido, ao meu ver, é uma arte completamente focada no estudo e prática da dualidade, e isso fica claro em diversos escritos e conceitos deixados pelo O-Sensei, Morihei Ueshiba. Em uma de suas explicações sobre a natureza da arte, ele disse que o Aikido era Ichi Rei, Shi Kon, San Gen, Hachi Riki (uma origem, quatro almas, três princípios, oito poderes). Esses oito poderes são apresentados em pares, e descritos como: movimento e inércia, solidez e adaptação, contração e distensão, unificação e divisão. Essas oito qualidades se apresentam não só como bases físicas das técnicas do Aikido, mas, mais ainda, como bases conceituais que perpassam todos os planos: o físico, o psíquico, o emocional e o espiritual. Em seu livro Aikido, Takemussu Aiki, o Shihan Wagner Bull nos traz uma valiosa análise desse sistema:

"Quando questionado por seus alunos sobre uma definição do Aikido, o Fundador dizia: Ichi Rei, Shi Kon, San Gen, Hachi Riki.

(...) Somente depois de muitos anos estudando a teoria e a prática do Aikido é que o praticante pode realmente compreender a grandiosidade desse ensinamento de Morihei Ueshiba que explica a essência de todas as técnicas da arte, ou seja, o Kokyu, a alternância entre os contrários e a consequente harmonia que ocorre quando duas energias vibratórias se encontram, transformando-se numa só, também pulsante.

(...) Tudo no universo pulsa e se alterna. Esta divisão em 1, 3, 4 e 8 é uma chave esotérica para ajudar os praticantes do Aikido a terem um modelo de entendimento dos princípios e da forma de comportamento do corpo, da alma e do espírito."

Como bem explanado por Bull Shihan, o Kokyu - a alternância entre os contrários - é um princípio basilar que encontra-se presente em todas as técnicas do Aikido e que parece ser o produtor direto da harmonia. Quando analisamos o aspecto técnico da arte, este processo inicia através do Zanshin (a permanência do estado de consciência) e de Meikyo Shisui (a clareza mental que permite a percepção dos pensamentos/sentimentos do oponente). No momento em que o oponente decide-se pelo ataque, o Aikidoka "estabelece" o Musubi (conexão) possibilitando uma leitura instantânea do seu atacante para agir em estrita relação de complementaridade com a energia que o oponente desencadeou. A complementaridade existente nos pares dos Hachi Riki (os oito poderes) será aí demonstrada de forma natural e expontânea, produzindo Kokyu e gerando movimentos de extrema harmonia. O resultado da alternância desses poderes/qualidades será movimentos que, ora trazem o atacante fazendo uso da força centrípeta ao redor de um centro firme e estável, ora mantém o equilíbrio entre as forças, direcionando e dissipando a energia do ataque inicial, e ora expulsam o atacante do centro fazendo uso da força centrífuga. Este processo, contudo, não é pensado ou mensurado, e talvez nem mesmo mensurável. Se corretamente executado, ele é instantâneo e ocorre em frações de segundo. Claro que um iniciante no Aikido não executará técnicas nesse nível. São necessários muitos anos de dedicação e um treinamento sério e diligente para o praticante começar a atingir esse elevado grau técnico e espiritual. O Aikidoka para alcançar esse nível deve estar livre dos grilhões do ego, do "querer fazer acontecer”. O seu querer deve ser o querer do universo; daí a frase que o Shihan Wagner Bull sempre utiliza para ilustrar esse peculiar estado: “fazer sem querer, querendo”. Somente uma mente livre é capaz de apresentar Zanshin, desenvolver Meikyo Shisui, e executar um Musubi apropriado, não só em relação ao oponente, mas à tudo, gerando assim seu próprio Kokyu à partir do Kokyu universal.

Este processo de Kokyu não diz respeito apenas à dimensão física; ele é aplicado e verificado em todas as dimensões do ser humano, e este é o pré-requisito para que, da fase da dualidade, passemos à unidade. A característica de harmonia percebida no Aikido parece vir exatamente da produção do Kokyu: com a prática física o Aikidoka aprende a unificar duas ou mais energias em aparente oposição, criando um ensaio cinestésico que lhe dá a conhecer as forças do binário. Com a internalização dessa prática física, ensinamos de forma inconsciente às nossas mentes a trabalhar essas forças antagônicas de forma sempre positiva, buscando a conciliação dessas energias e trazendo-as em uma unidade harmônica. Ensinamo-nos a moderar a força ativa através da passiva; que o vazio sempre busca o cheio; que o fixo anseia pelo móvel; que a rigidez exige flexibilidade, e que o que está dividido pede unificação. Assim também a pluralidade de "eus" existentes em nossa psique começa a dar lugar, naturalmente, a um centro firme e estável, a uma persona unificada ao invés da persona dividida e fragmentada que usualmente apresentamos. As energias em movimento em nosso interior irão girar em torno desse centro estável. Isso é possível através de Mitama Migaki e Chitsujo Migaki, o polimento do espírito e o polimento da nossa percepção quanto à verdadeira ordem natural das coisas. Esta unificação mental desencadeia, por sua vez, um estado emocional equilibrado e condizente com esta unidade, ou seja, harmônico. O praticante que atinge este nível não estará mais sucessível à inconstância emocional que nos é tão comum nos tempos atuais. Sua mente será focada, e ele se sentirá capaz de realizar qualquer intento de forma plena. As energias então se somam e podem ser direcionadas de forma ordenada para um único propósito. No plano espiritual, a desarmonia entre a força centrífuga da matéria e a força centrípeta do espírito começará a desaparecer, dando lugar a uma perfeita justificação: a complementaridade entre a energia de alta vibração (espírito) e a de baixa vibração (matéria). O processo de Kokyu interno então passará a reverberar com o Kokyu universal, aquele responsável pelo equilíbrio das grandes forças geradoras e mantenedoras do universo, e verdadeiros milagres serão possíveis. Acredito que um dos momentos de iluminação do O-Sensei tenha sido exatamente este alinhamento dos Kokyu:

"Na primavera do ano de 1925, quando estava solitário em um jardim, eu tive a impressão de que o Universo começou a tremer e que um espírito dourado saiu do solo e me envolveu em ouro; eu podia entender a linguagem dos pássaros. Naquele momento eu fui iluminado, o amor de Deus é a fonte e a razão do Budo, o amor que protege todo o Universo."

"A harmonia resulta da analogia dos contrários", dizia um antigo sábio. A Unidade gera o Dois, e o retorno ao Um só é possível através do Dois, ou seja, a Unidade só pode manifestar-se pelo binário. O mergulho na Unidade só é possível através das partes que se conhecem e se compreendem: as duas naturezas se contemplam e ganham ciência uma da outra, para então se perceberem em unidade profunda, realizando todos os mistérios. A conciliação/unificação entre o que é aparentemente contraditório é a chave maior que o Aikido nos ensina, e a aplicação bem sucedida dessa chave em nossas vidas pode significar ir além da natureza humana, qualquer que seja o fim dessa jornada.
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Aikido, Trindade Interpenetrada

JUNHO, 2016 | HENRIQUE CATELLI
A natureza da ciência moderna ou da ciência provisória é analítica-desmembrada. À essa época analítica-desmembrada, a cultura é também desmembrada. A intenção de desmembrar e analisar é o meio para se chegar a síntese e à integração; ao que parece, esta intenção original ficou esquecida. A ciência deve ser ciência divina. O que o homem crê ser ciência, não passa de teoria, tecnologia e química. O progresso que se obteve em todas as áreas é extraordinário, mas será que foi dado algum passo em direção à verdadeira ciência?! Algumas frases de célebres cientistas nos trazem à tona essa “consciência adormecida”. “A ciência do Ocidente, que partiu da matéria, acabou, no final, chegando ao conceito de ‘vazio’ do Oriente”, Albert Einsten; “A ciência atual finalmente conseguiu chegar à mesma conclusão a que os antigos já tinham chegado através da meditação”, Sullivan; “As células do corpo humano contêm imensas quantidades de substâncias orgânicas e bilhões de átomos, mas sequer conhecemos a força que controla uma célula, que é a unidade básica da vida”, Spencer Gibson.

Caso os horizontes de domínio da ciência e religião não sejam cerceados arbitrariamente, algum dia elas se agregar-se-ão. Algo praticamente inevitável. Quando isso se der, parecido com o que aconteceu no século passado, a ciência terá passado por uma transformação tão profunda que estará apresentando um desenho, uma configuração difícil de ser compreendida até pelos cientistas da atualidade. A compreensão sobre religião também terá evoluído fazendo com que as duas, ciência e religião, ganhem mais força. Dr. Massafumi Inoki disse “A ciência e a religião são coincidentes no ponto em que consideram que o mundo material não é exatamente como o que captamos através dos cinco sentidos. Entretanto, elas divergem na forma de interpretá-lo. Como o mundo material não é aquele perceptível apenas pelos cinco sentidos, a religião considera que o que realmente existe é o pensamento. E a ciência, diferentemente, que é ‘algo material’ que existe independentemente do pensamento.”

Destarte, é indispensável compreender o princípio da trindade espírito, mente e corpo, sendo que o espírito é o principal, a mente (alma) obedece e o corpo (físico- matéria) acompanha e, assim como podemos relacionar os cinco espíritos do Budo (Shoshin, mente de principiante; Zanshin, mente que permanece; Mushin, não mente; Fudoshin, mente imóvel; Senshin, espírito purificado- atitude iluminada), com os cinco principais sentidos do corpo (visão, olfato, paladar, audição e tato), traçar um paralelo, compreendendo que a prática do Aikido traz em si, a busca da Trindade Interpenetrada, o sermos um, a junção da carne e do espírito, da ciência e religião, sermos de uma mesma e completa natureza.

A prática passa por várias etapas que visam preparar o praticante em diversos níveis, conduzindo-o a um fortalecimento físico através da execução de várias formas de exercícios, principalmente alongamentos, movimentação dos pés – Sabaki e o Hanmi (movimentação e posturas) – Ukemi (quedas) – passando por uma compreensão das formas de conexão – Mussubi – entendendo como posicionar as mãos, como fazer a “ligação” com o parceiro para executar uma técnica com leveza, sem o uso desnecessário da força e, por consequente, esta etapa não se acaba, elevando a prática a um nível digamos, espiritual, o Kokyu Ryoku. Nesta altura, o praticante já demonstrou interesse em descobrir mais sobre o Aikido através de pesquisas e leituras buscando conhecimento através das diversas literaturas existentes, esta é uma fase do treinamento que dificilmente é alcançada quando não se quer buscar algo mais “profundo”. Kokyu Ryoku, literalmente podemos dizer que significa o “poder da respiração”, não se avança verdadeiramente neste caminho quando não se adquire esta consciência. É certo que o ato de respirar é tanto involuntário como voluntário, Kokyu Ryoku é a busca do estado pleno destes dois atos, voluntário e involuntário, é ciência e religião, é ciência que fica paralítica sem a religião e religião que fica cega sem a ciência. Concluímos que a prática deve se dar de forma que nosso espírito, mente e corpo estejam trabalhando de forma uníssona. Passamos de um nível físico-mental para um patamar mais elevado, o do sentimento, da consciência. Devo citar que não é mera coincidência a semelhança do princípio da Trindade Interpenetrada com os diversos princípios que abordam os estudos exotéricos; Pai, Filho, Espírito Santo; Presente, Passado e Futuro; Tese, Antítese, Síntese; Sol, Lua, Terra; Quadrado, Triângulo e Círculo etc.

Observamos agora, que o Aikido trabalha nosso físico, nossa mente e nosso espírito criando um estado de consciência que antes não existia; a partir deste momento, estamos cientes que somos três, unimos nossa trindade, somos unos, completos: espírito, mente e corpo. Aikido, o caminho da união, essa é a trilha que devemos seguir para que possamos evoluir cada vez mais. Através da ciência e da religião, temos nos perdido por vários caminhos em busca da felicidade, por muitas vezes focando no “ter” ao invés do “ser”. Muitos “têm”, continuando no entanto, vazios, enquanto muitos que não “têm”, sentem-se preenchidos.

O Aikido tornou-se minha ciência e minha religião, apesar de, desde sempre ter consciência de que somos espírito, mente e corpo, através das diversas práticas espirituais que vivenciei. Vislumbro um longo e iluminado caminho através desta fantástica ferramenta de aprimoramento espiritual. Alcançar o estado de “Sunao”, a elevação do “Sonen” mais profundo, a compreensão do mundo invisível da força é algo mais valioso que o acúmulo de bens e fortuna, alcançar o verdadeiro estado de saúde, harmonia e prosperidade; divinizar, é o bem maior.
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Aikido: a busca da verdade

maio, 2013 | rodrigo mesquita
O Nidai Doshu, Kisshomaru Ueshiba Sensei, nos disse que de todas as artes marciais o Aikido talvez fosse a mais rígida, pois focalizava-se na busca da verdade. Para mim, isto define muito bem o Aikido. Mas, o que é a verdade? E como uma prática marcial pode conduzir uma pessoa à verdade?

Em muitas correntes esotéricas, filosóficas e místicas a verdade é considerada a realidade última, o Imanifesto, às vezes chamado de Deus. De forma geral e sintética, muitos desses conhecimentos se reafirmam: o Um gerou o Dois, o Dois gerou o Três, e daí por diante. A Unidade Transcendente manifestou-se de forma dual, e esse é um pilar da criação. Gosto de pensar que o estudo profundo do Aiki é o estudo da dualidade, e sua compreensão completa torna aquele que a possui realizador em potencial de todas as coisas. Especulo ainda, que aquele que atinge o âmago do binário, compreende (ou começa a compreender) a Unidade, uma vez que In e Yo são dois lados de uma mesma moeda; e a essência do binário é a unidade.

Agora, como uma simples pessoa pode atingir essa Unidade Transcendental através dessa prática marcial? Bom, vamos esboçar uma tentativa de resposta para essa pergunta... Um dos lemas do Aikido condensados por Ueno Sensei é "Conscientizar-se de que o Aikido é um dos caminhos que levam à Deus". É difícil para nós, ocidentais, imaginar como uma prática marcial pode conduzir uma pessoa à Deus, ou seja, à realidade última. Comecemos pela frase gravada no Oráculo de Delfos: "(...) homem, conhece a ti mesmo e conhecerás os Deuses e o Universo". Em seguida temos outro lema de Ueno Sensei: "Conscientizar-se de que a prática do Aikido tem por princípio o auto-conhecimento". Sabemos também que a maioria dos sistemas/práticas que tem por foco a evolução espiritual do ser humano, são inteiramente, ou parcialmente, baseados no auto-conhecimento. Começamos a divisar então, que no Aikido, a porta de entrada para este caminho que leva à Deus é o auto-conhecimento, embora, saliento, isto seja só a ponta do iceberg. À partir daí, vamos começar a montagem desse quebra-cabeças.

É bem sabido que o treino de Aikido, se conduzido de forma apropriada, aumenta exponencialmente a intuição e outras capacidades latentes do praticante, permitindo o desenvolvimento interno do mesmo de forma vasta e ininterrupta, concedendo-o, assim, ferramentas indispensáveis na busca da verdade. Quando atinge a faixa preta, o praticante deve começar a utilizar essas capacidades para trabalhar seu próprio desenvolvimento no caminho, percebendo, com esse auxílio e o direcionamento que o Sensei lhe dá, seus erros e acertos, e se auto-aperfeiçoando à partir daí. Agora, o que viria a ser essa "forma apropriada" de treinar Aikido? O O-Sensei nos diz que ao praticar devemos analisar o que estamos fazendo. Wagner Sensei diz que é necessário treinar buscando se conscientizar dos princípios e razões que fizeram com que aqueles exercícios e técnicas fossem criados. E estes são apenas alguns dos indicativos a seguir. Segue um excerto do O-Sensei sobre a forma apropriada de se praticar:

"O Aikido é um caminho para a verdade e seu treino deveria ser entendido como tendo o objetivo de encontrar a verdade. Na disciplina do Aikido, quando você treina arduamente, pratica sabiamente e analisa o que está fazendo, o Kami Waza surgirá.
No Aikido, quando você treina da maneira descrita a seguir, seu corpo absorverá o poder da verdade imutável:

1. Treine para harmonizar sua mente com os movimentos do Universo;
2. Treine para harmonizar seu corpo com os movimentos do Universo;
3. Treine para harmonizar seu Ki, que une mente e corpo, com os movimentos do Universo.

Somente aqueles que são capazes de treinar nesses três modos ao mesmo tempo, não na teoria, mas no dojo e em sua vida diária, podem ser chamados de praticantes de Aikido.

(...) Treinar o corpo requer primeiramente que a pessoa trabalhe e prepare tanto a mente como a alma de modo completo. Em seguida, ela deve polir, ou limpar, e purificar a vitalidade do Nen (sentido ou sentimento) e finalmente unir o corpo e a mente. Desse modo, cria uma base da qual pode surgir infinitas Waza (técnicas).

(...)Preferencialmente, o Nen encontra sua raiz na conexão apropriada do Ki da pessoa com o Ki do Universo, e cresce à partir daí. Nesse nível, o Nen dá origem a poderes mais que naturais. Como resultado, a pessoa adquire o poder de perceber claramente o menor movimento de seu oponente. Esse é o estado de Meikyo Shisui (uma mente clara que reflete como as águas calmas)."

Doravante, percebemos que a simples repetição das técnicas, e a simples freqüência ao treino, mesmo durante anos, não são suficientes para progredir corretamente no caminho. Claro, há sempre que se considerar que cada um tem seus motivos para treinar, embora isso me pareça, a priori, mais um subterfúgio, pois, se alguém não conhece algo e decide que quer aprender esse algo, mas utilizando apenas uma parte que julga saber ser o melhor para si - considerando ainda que essa pessoa muito provavelmente não conhece nem a si de forma razoável - isso me parece um simples caso de arrogância e impertinência. Por isso acredito que a postura daquele que busca é ser totalmente receptivo, sem "mas" nem "porém". Quem não sabe, e quer saber, não pode se arrogar o luxo de dar palpites em "como" virá a saber. Por isso a escolha de um bom mestre, a quem se possa confiar sua própria vida, é fundamental.

O Universo dotou o ser humano com diversas capacidades; se utilizamos e estimulamos apenas algumas delas, isso será um verdadeiro desperdício. Claro, não há dúvidas de que a intuição tem papel fundamental no desenvolvimento do praticante Yudansha, mas, também o têm a reflexão, e em menor grau, o raciocínio. Alguém disse uma vez "(...) é necessário conjugar o rigor do raciocínio com a intuição e a inspiração." É nossa mente objetiva, fazendo uso da lógica e do raciocínio, que é capaz de duvidar, equacionar, fundamentar, investigar aquilo que estamos fazendo. Um praticante que não tem dúvidas sobre sua própria técnica, que não se coloca em cheque, pára de evoluir. É necessário ter um sincero e ardente desejo de evoluir, de aprender tudo quanto seja possível, testar as mais variadas formas de uma mesma técnica e avaliar paulatinamente cada uma delas para conhecer seus pontos fortes e fracos. Repetir, repetir, repetir, até à exaustão. Não há que se confundir essa postura com insegurança, algo que do nível de Shodan para cima, tende a ir diminuindo com o progresso do praticante. Hoje em dia é comum as pessoas terem em alta conta suas próprias idéias e conceitos - inclusive sobre si mesmas - de forma que os defendem com "unhas e dentes", não pela verdade que possa haver nestes, mas por uma pura questão de ego. Uma pessoa razoavelmente madura deve ser capaz de abrir mão de suas próprias idéias quando percebe que existem idéias mais bem fundamentadas ou que correspondam melhor à verdade. Da mesma forma, é necessário pensar sobre nossa execução técnica e evolução no caminho com sinceridade, o que podemos melhorar, como podemos melhorar, o que está ficando razoavelmente bom, o que está ruim, por que está ruim, etc. Obviamente as coisas começam no nível físico, mas se expandem ao psicológico e emocional, e muitas vezes falhas cruciais que impedem uma execução e prática perfeitas (ou mais próximas à isso) têm sua origem nestes campos. Há ainda que se investigar e estudar cuidadosamente a literatura - que graças ao Sensei Wagner é bastante extensa em nossa língua - pois sem conhecer a origem do Aikido, a vida do Fundador, os princípios e origens por detrás de toda execução técnica, para apenas falar no básico, fica impossível se chegar a algum lugar. Bom, essas capacidades mentais, por estarem ligadas à mente objetiva e aos sentidos físicos, têm grande propensão ao erro, ao sofisma, embora, ao meu ver, não seja o erro/acerto por detrás delas o que verdadeiramente importe, e sim o simples fato de utilizá-las para auto-investigação, para o auto-conhecimento de que nos fala Ueno Sensei.

A consequência do exercício dessas capacidades da mente objetiva, de certa forma, é a reflexão. Reflexão é o movimento de volta sobre si mesmo, ou movimento de retorno a si mesmo. O praticante tem de ter a capacidade de refletir, ou, se não a tiver, ela deve ser estimulada pelo seu Sensei. Alguns encaram a reflexão como função da mente objetiva, outros, porém, a percebem de forma intermediária entre a mente objetiva e o inconsciente. Uma boa reflexão, ou até mesmo uma autêntica reflexão, ocorre quando focamos nossa atenção em algo em particular, mas ao invés de ativarmos a mente objetiva e suas funções, a relaxamos e entramos num estado de atenção sem tensão, atentos para qualquer canto de onde possam advir as respostas que buscamos, seja da inspiração, da intuição, ou do aparente "acaso" que permeia todo o Universo, e que, para aqueles em constante estado de atenção, são nada além da Providência. A reflexão, ao contrário do raciocínio, nos traz clareza, nos faz ver as coisas de forma mais real, como elas realmente são.

A inspiração é, assim como o ato de captar o ar que nos rodeia para dentro de nós, trazer algo de fora para dentro. Esse algo pode ser uma emoção, um pensamento, uma energia, etc. Digamos, por exemplo, quando uma pessoa se sintoniza com um Kami em específico, com uma força, ela está inspirada por essa força, e age com a influência dela. O praticante deve sempre procurar inspiração na natureza e no Universo, buscando o estado de união com todas as coisas de que nos fala o O-Sensei.

Já a intuição é o tão falado sexto sentido, que advém da conjugação da naturalidade, do relaxamento e da atenção. À bem da verdade, a intuição está sempre lá, mas devido à má educação que temos em nossas vidas diárias, somos forçados a não lhe dar atenção, e com o tempo deixamos de percebê-la. É preciso ser natural, ou seja, seguir e deixar a natureza seguir seu curso natural, evitando o atrito, buscando agir conforme a água, sempre abraçando e se adequando à todas as coisas sem lhes oferecer resistência. Para ser natural, é necessário estar relaxado; esse relaxamento, na verdade, está intrinsecamente ligado ao estado de naturalidade. Para captar as "ondas" de intuição que temos é necessário a atenção. Devido a nossa má postura mental, rechaçamos qualquer intuição que nos chegue, e se acaso a percebemos, encaramos-na como um pensamento tolo, fora de lugar, ou improvável. A mente objetiva tenta abafar a intuição. Somente quando aquela intuição se confirma pelo desenrolar dos fatos é que de imediato retrucamos: "nossa, acabei de pensar isso!"

Todos esses pilares são fundamentais para uma forma apropriada de treinar Aikido. O raciocínio, a reflexão, a intuição e a inspiração. Agora, partindo da idéia de que estamos praticando de forma apropriada o Aikido, ou seja, como o Fundador preconizou e idealizou este Budo, conseguimos aos poucos fortalecer essas capacidades, para em seguida utilizá-las em nosso próprio benefício, no nosso desenvolvimento no caminho. À partir daí a capacidade de auto-introspecção do praticante começa a fluir, e ele deve começar a exercitar o que chamamos de Naikan, a percepção interior. Naikan é olhar para dentro, procurar perceber nossos mecanismos internos, como funcionamos em um nível mais profundo. Esse é o começo de um verdadeiro auto-conhecimento. Conhecer as molas e engrenagens internas que movem nossas ações no dia-a-dia, de onde surgem nossas emoções, onde estão ancorados nossos pensamentos, etc. Este é o ponto da leitura, da percepção e refinamento da atenção. O passo seguinte é o trabalho sobre si mesmo. O praticante deve prosseguir com a "limpeza" e correção. Este é o ponto do Mitama Migaki e Chitsujo Migaki, o polimento do espírito e o polimento da nossa percepção quanto à verdadeira ordem natural das coisas. Este é um ponto extremamente delicado, pois o praticante que se aventura de forma despreparada aqui poderá incorrer em erros que acarretarão grave dano para si mesmo. Faz-se indispensável a condução e acompanhamento do mestre neste passo, uma pessoa que já chegou neste ponto e que está familiarizado com ele, sendo capaz de guiar de forma segura o praticante no caminho. Muitas vezes o aluno não compreende o comportamento do Sensei para com ele, porém, este sabe com precisão como trabalhar o ego de seu aluno.

O resultado do início deste trabalho é o desembaraçamento mental. O praticante enfim começa, aos poucos, a se libertar dos grilhões do ego, e vai se encaminhando para a Unidade. A harmonia começa enfim a se manifestar não apenas em sua técnica, mas em toda a sua vida. Uma coordenação altamente desenvolvida aparece como resultado direto  dessa harmonia, coordenação que abrange não somente o físico, mas o emocional e o psicológico, além do aperfeiçoamento da conjunção dos três. Este trabalho interno unido à prática constante, árdua e disciplinada leva ao equilíbrio dos corpos físico, emocional, mental e espiritual, como disse O-Sensei: "Ki no Myoyo (o uso elevado do Ki) permite que os indivíduos harmonizem seu corpo e mente, assim como permite que alcancem a harmonia com o Universo mais amplo." Então, principiamos pela prática das técnicas, que em si encerram princípios e mecanismos da verdade, e que embora possamos ignorá-los e desconhecê-los, ainda assim surtem seus devidos efeitos - embora seja indubitável que se conhecermos a realidade por detrás destes princípios e mecanismos, sua prática seja infinitamente superior em termos de benefício para o praticante. Essa prática desperta nossa sensibilidade interna, ao mesmo tempo que pacifica, equilibra e "alinha" nossos corpos, conduzindo-nos assim ao auto-conhecimento. Avançando com o auto-conhecimento, nos direcionamos à unidade de nosso próprio ser. Uma vez em unidade, ligamo-nos ao centro Universal, e começamos a reverberar com todo o Universo, e aí, em minha opinião, deve principiar a compreensão da Unidade. À partir disso, o caminho segue na dimensão espiritual.

O Aikido é um caminho tão vasto quanto o é a capacidade de desenvolvimento do ser humano. Sabemos por muitas histórias e exemplos do quão baixo e do quão alto o ser humano pode alcançar no curso de uma vida. O Kaiso foi, até agora, a pessoa a atingir o mais alto grau de desenvolvimento neste caminho, mas, como ele mesmo disse, não foi ele quem criou o Aikido, ele apenas nos apresentou-o. Como disse antes, conhecer tamanha dádiva e não realizá-la em todo o seu potencial (ou pelo menos se esforçar com esse intuito), seria um grande desperdício, uma pérola atirada ao lixo.
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Conceitos básicos para iniciantes

OUTUBRO 2009 | rodrigo mesquita
Com o intuito de ajudar os iniciantes, estamos disponibilizando um pequeno resumo dos pontos principais abordados nos primeiros meses de treinamento. Com este resumo e o auxílio dos instrutores espera-se que os praticantes possam compreender melhor alguns conceitos básicos como Tai Sabaki, Ukemi, Mokuso e outros.

Tai Sabaki significa “movimentação/esquiva do corpo”. Quando uma pessoa inicia na prática do Aikido, a primeira coisa que ela aprende é o Tai Sabaki - que no Aikido consiste no conjunto de movimentos partindo de uma determinada postura - e os Ukemi (quedas). As posturas do Aikido têm por finalidade criar um centro de gravidade estável, através do qual o praticante poderá executar as técnicas de forma firme e segura, sempre agindo como centro do movimento, hora utilizando a força centrípeta, hora a força centrífuga.
O Kamae básico do Aikido é o Hanmi, que significa literalmente “metade do corpo”. Kamae é qualquer posição/postura de guarda que abranja, além da postura física propriamente dita, uma atitude mental de alta sensibilidade e preparação para desencadear qualquer técnica. Ao lado vemos como executar corretamente o Hidari Hanmi (Hanmi esquerdo, ou seja, com a perna esquerda à frente) e o Migi Hanmi (Hanmi direito).

Cabe salientar que o Hanmi normalmente é feito com o pé da frente apontando diretamente para frente, enquanto que o pé de trás fica num ângulo de 90º em relação ao pé da frente, deixando o corpo ligeiramente de lado (daí o nome da postura ser “metade do corpo”), fazendo do mesmo um alvo menor. Através da influência de alguns mestres como Gozo Shioda, algumas escolas de Aikido adotaram um Hanmi um pouco diferente (o mesmo da imagem acima) - com a ponta dos pés ligeiramente voltada para fora da linha de ataque - que é o que utilizamos no Naikan Dojo e que nos foi ensinado pelo Shihan Wagner Bull.
O modo como executamos corretamente este Hanmi é com a perna da frente flexionada, mantendo cerca de setenta por cento do peso do corpo nela, e a perna de trás completamente esticada, com cerca de trinta por cento do peso do corpo nela. Isso varia bastante, uma vez que ao mudarmos de um Tai Sabaki para outro é comum ocorrerem mudanças no peso depositado em cada perna, variando ainda em decorrência do tipo de técnica que executamos. É importante também apoiar-se sempre na parte dianteira da sola do pé, nunca apoiando o peso do corpo sobre os calcanhares.

Partindo do Hanmi, temos alguns movimentos básicos de esquiva normalmente utilizados dentro das técnicas do Aikido, que são: Tenkai Ashi (pivô sobre os pés), Goho Tenkan (girar nas “cinco” direções, realizando uma esquiva) e o Irimi Tenkan (entrar/avançar no espaço do atacante, posteriormente realizando uma esquiva).

Abaixo disponibilizamos um esquema gráfico dos movimentos citados, para auxiliar os iniciantes. As marcas pontilhadas (dos pés) indicam a posição inicial, e as marcas preenchidas indicam a posição final. A cor vermelha representa o pé esquerdo, e a azul o direito. A numeração indica a ordem em que os movimentos são feitos. O pequeno círculo branco indica o ponto de apoio para se realizar o movimento com os pés.
Além destes Tai Sabaki existem outros, porém, nos ateremos à apenas mais três: Okuri Ashi, Tsugi Ashi e Ayumi Ashi. Estes três movimentos não se tratam de esquivas, mas sim de deslocamentos. São o modo correto de “andar” dentro da postura Hanmi. Segue a ilustração:
Como se pode perceber, no Okuri Ashi e no Ayumi Ashi a distância percorrida é praticamente a mesma. Já no Tsugi Ashi, alcança-se uma distância maior. 

Além do Tai Sabaki, existem alguns conceitos básicos no Aikido com os quais o iniciante deve se familiarizar. São eles: o Mokuso (concentração), Ki Wo Dasu (estender o Ki), e os Ukemi (quedas).

Mokuso é a concentração feita em Seiza (postura sentado sobre os calcanhares, com o peito dos pés contra o Tatami) realizada no começo e final de cada aula, onde se busca limpar a mente de tagarelices e pensamentos, buscando assim um sentimento de calma e concentração. Neste momento colocamos todas as nossas energias no Saika no Iten (centro energético que fica localizado à aproximadamente cinco centímetros abaixo do umbigo), e permanecemos nesta postura até sentirmos um estado de unificação com o Universo. É importante manter uma postura correta, com a coluna ereta, cabeça alinhada e o corpo relaxado. No Aikido, procura-se realizar as técnicas com o mesmo sentimento interior de Mokuso, buscando assim que essa atitude acabe por se estender em todos os momentos da vida do praticante.
Além da prática do Mokuso, temos o Ki Wo Dasu, ou prática de estender o Ki. Através dela, fazemos com que a energia concentrada no Saika no Iten flua para o exterior através dos braços e dedos. Aprender a estender a energia, que flue do Saika no Iten, é fundamental para se praticar Aikido corretamente. Por isso a importância de manter os braços e dedos das mãos sempre estendidos, a fim de que o Ki flua livremente, sem estagnar. A partir desta prática aprendemos que no Aikido os braços se tornam fortes, porém flexíveis, ficando as articulações livres para se moverem de acordo com a necessidade da técnica.

Por fim, temos os Ukemi, as quedas do Aikido. O Ukemi é também conhecido como a Arte de Receber a Técnica. O iniciante no Aikido deve aprender os Ukemi para que possa ser arremessado ou imobilizado sem se machucar. Mesmo após aprender a fazer as quedas básicas, o Aikidoka deve continuar a se esforçar para fazê-las cada vez melhor, de forma que se tornem naturais e harmônicas. Segundo o Shihan Wagner Bull, para se realizar um bom Ukemi são necessários três elementos: flexibilidade, determinação (sem imprudência ou exibicionismo) e, o mais importante, entregar-se para seu parceiro, sem tensão, de forma relaxada e atenta para qualquer eventual mudança no movimento e na força aplicada. O Nage (aquele que executa a técnica) deve prestar atenção à segurança do Uke (o que recebe a técnica), seguindo o movimento natural do seu corpo e emitindo apenas o poder necessário para concretizar a técnica.

No Oriente, a maestria de um artista marcial é medida não apenas pelo seu potencial de ataque, mas principalmente pela sua capacidade de defender-se usando somente a força e a energia mínima necessárias, sem lesar seu(s) atacante(s) em ambos os casos.

Dentro dos Ukemi básicos do Aikido temos: Mae Kaiten Ukemi, Ushiro Ukemi e Ushiro Kaiten Ukemi. O Mae Kaiten Ukemi consiste em transformar o corpo em uma esfera, rolando para a frente. O Ushiro Ukemi é a queda de costas contra o Tatami, executada quando não há espaço para se rolar e levantar de uma distância mais segura. O Ushiro Kaiten Ukemi é o inverso do Mae Kaiten Ukemi, ou seja, uma queda em que se transforma o corpo em uma esfera, rolando para trás.

Além das quedas básicas, existem outras muito utilizadas no Aikido, como o Yoko Ukemi (queda de lado), Ushiro Otoshi Ukemi (queda de costas com projeção), Ushiro Otoshi Kaiten Ukemi, Mae Zempo Ukemi, e os Henka Waza (variações das quedas básicas).

Todas as quedas e rolamentos devem continuar com o Uke se colocando de pé o mais rapidamente possível, sempre olhando para o Nage e mantendo o Zanshin.

*Este artigo contém citações diretas e adaptações retiradas de http://www.aikikai.org.br/e_tec.html
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